CASO MICAEL

Família de Micael quebra silêncio e defende inocência da mãe

Por Vitor Moretti | da Redação
| Tempo de leitura: 8 min
Vitor Moretti | Folha da Região
O tio da criança, Guilherme da Costa (esquerda) e o avô, Valdir Ferreira da Costa, deram entrevista coletiva na tarde desta quinta-feira (22) e falaram pela primeira vez sobre o caso
O tio da criança, Guilherme da Costa (esquerda) e o avô, Valdir Ferreira da Costa, deram entrevista coletiva na tarde desta quinta-feira (22) e falaram pela primeira vez sobre o caso

Familiares de Micael Davi Costa da Silva, de dois anos, que teve morte encefálica constatada na manhã desta quinta-feira (22), na Santa Casa de Araçatuba, decidiram falar pela primeira vez sobre o caso durante uma coletiva de imprensa.

O avô da criança, Valdir Ferreira da Costa, e o tio, Guilherme da Costa, afirmaram acreditar que os ferimentos do menino não foram provocados por uma queda da cama. No entanto, defenderam a inocência da mãe, de 27 anos, e revelaram que a família nunca aprovou completamente o relacionamento dela com o companheiro, de 26 anos.

A mãe e o padrasto permanecem presos preventivamente, investigados por suspeita de tentativa de homicídio qualificado e tortura. Segundo a Polícia Civil, há indícios de que Micael sofria agressões no ambiente doméstico.

De acordo com os familiares, o casal estava junto havia cinco meses. Os dois se conheceram em Santa Bárbara d'Oeste, onde moravam, e se mudaram para Araçatuba há cerca de dois meses. Atualmente, a família reside na mesma rua, no bairro Águas Claras.

Briga e separação antes do caso

Valdir contou que, após o caso vir à tona, descobriu que a filha havia se separado do companheiro três dias antes do ocorrido. Ele também relatou que esteve na residência do casal depois de tomar conhecimento de uma discussão.

“No domingo, ele mesmo me chamou, depois de uma briga. Os dois estavam com os ânimos alterados. Conversei com minha filha tranquilamente e tudo pareceu ter se acalmado”, afirmou.

Segundo o avô, naquele momento, ele ainda não sabia que o relacionamento havia terminado. O então genro, inclusive, estaria dormindo no sofá da sala.

“Na quarta-feira, quando nosso advogado foi visitá-la na unidade prisional, ela revelou que estavam separados havia três dias. Ela pediu para ele sair de casa”, explicou.

Apesar da separação, o rapaz continuou dormindo na residência até a manhã de segunda-feira (19), quando a criança apresentou os ferimentos que motivaram o atendimento de emergência.

Avô relembra socorro ao neto

Durante a coletiva, Valdir também relembrou os momentos que antecederam a internação do neto.

“Pouco depois das sete da manhã, minha filha me ligou desesperada, informando que meu neto havia caído da cama e que precisavam socorrê-lo”, contou.

Segundo ele, o tempo de vestir uma roupa e abrir o portão foi suficiente para que a filha chegasse com Micael nos braços, enrolado em uma manta. Em seguida, os dois colocaram o menino no carro e seguiram em direção ao hospital.

No entanto, durante o trajeto, nas proximidades do antigo bosque da cidade, o veículo ficou sem combustível. A família solicitou um carro por aplicativo, que chegou cerca de um minuto depois, permitindo a continuidade do socorro.

Micael deu entrada em estado grave no Pronto-Socorro Municipal. Posteriormente, a equipe médica providenciou sua transferência para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa.

Durante o atendimento do filho, a mãe, que está grávida, também passou mal e precisou de cuidados médicos na unidade.

“Ela estava passando muito, muito mal. Ficamos ali até cerca de uma hora da tarde. Fizemos todos os protocolos do hospital, tudo o que pediram, e eu seria o único acompanhante”, relatou Valdir.

Família nega abandono no hospital

O avô e o tio também contestaram a informação de que a mãe teria abandonado Micael na Santa Casa.

Valdir explicou que, após tomar conhecimento do estado clínico do neto e receber a liberação médica da filha, decidiu levá-la para casa. Segundo ele, a orientação era evitar que a gestante permanecesse no ambiente hospitalar.

“Ela não podia ficar lá. Não houve qualquer tipo de abandono. Minha irmã entrou, obviamente, em estado de choque por conta da situação”, afirmou Guilherme.

Ainda na tarde de segunda-feira, equipes da Polícia Militar compareceram ao endereço da família e conduziram os suspeitos à Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) para prestar depoimento.

Valdir também relatou como soube da presença de policiais e representantes do Conselho Tutelar na residência.

“Passada uma hora, uma hora e meia, no máximo, vizinhos me avisaram que a Polícia Militar estava novamente na casa da minha filha, agora com o Conselho Tutelar. Foi então que soube que a delegada havia requisitado a presença de todos na delegacia para prestarmos depoimento”, explicou.

Família reconhece gravidade dos ferimentos

Inicialmente, conforme a Polícia Civil, a versão apresentada era de que Micael havia caído da cama. Entretanto, durante as diligências no hospital, os investigadores receberam informações sobre diversas lesões e fraturas que, segundo a avaliação médica, não seriam compatíveis com uma queda dessa natureza.

Valdir afirmou que, até então, não imaginava que algo mais grave pudesse ter acontecido com o neto. No entanto, após conversar com a equipe médica, passou a considerar que os ferimentos dificilmente teriam sido provocados apenas pela queda.

“Eles mostraram detalhes do que aconteceu com o Micael. Ele tinha um traumatismo craniano grave, com quebra de osso, um trauma torácico e lesões nos dois pulmões. Não pode ter sido uma queda da cama, isso é fato”, declarou.

Apesar disso, o avô reiterou que a filha nega ter presenciado qualquer agressão contra o menino.

“Minha filha me disse que foi levar o mais velho à escola e, quando voltou, encontrou o filho já ferido. O companheiro alegou que ele havia caído da cama e estava molinho”, relatou.

Avô questiona acolhimento dos outros netos

A prisão da mãe também provocou preocupação entre os familiares, principalmente pela falta de informações iniciais sobre os outros dois filhos da mulher, de cinco e sete anos.

Valdir criticou a decisão de acolher as crianças, argumentando que poderia ter assumido os cuidados dos netos, já que mora próximo à residência da filha.

“Ninguém me perguntou nada, ninguém me passou nada. Meus netos ficaram acolhidos mesmo com um avô morando ao lado. Eu não entendi, achei totalmente desnecessário. A maior defesa das crianças seria tê-las deixado comigo em casa”, desabafou.

As duas crianças permanecem sob acolhimento institucional, por determinação judicial, no Serviço de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes (Saica).

Avô relembra personalidade de Micael

Emocionado, Valdir descreveu o neto como uma criança saudável, inteligente e cheia de energia.

“Micael era um menino saudável, inteligentíssimo, totalmente ligado no 220. Você não conseguia pará-lo. Caía e se levantava”, relembrou.

Segundo ele, pequenos machucados eram frequentes devido ao comportamento ativo do menino.

“Ver o Micael com um arranhado no joelho, com uma marca roxa no braço, sempre foi muito normal”, afirmou.

O avô também classificou como absurda a suspeita de que a filha tenha participado de maus-tratos contra a criança.

“Para mim, é um absurdo alguém dizer que minha filha teria coragem de fazer isso. A gente conhece ela desde sempre”, declarou.

Questionado sobre possíveis desconfianças em relação ao padrasto, Valdir afirmou que ainda conhecia pouco o rapaz.

“A gente não o conhece. Eu o conheço há dois meses, que é o tempo em que se mudaram para cá”, explicou.

Familiares relatam histórico do relacionamento

Guilherme afirmou que a família nunca aprovou completamente o relacionamento da irmã e também era contrária à mudança do casal para Araçatuba.

Apesar disso, segundo ele, os familiares não tinham conhecimento de possíveis agressões ou maus-tratos contra as crianças.

“Meus outros dois sobrinhos estão saudáveis, fizeram exames e não foram constatadas marcas. Então, qual é o sentido? Minha irmã não é uma criminosa”, afirmou.

O avô e o tio também disseram que nunca presenciaram agressões nem receberam reclamações sobre o comportamento do padrasto.

Entretanto, após o caso, afirmaram ter descoberto que o rapaz fazia uso de medicamentos controlados e teria apresentado episódios de surtos psicóticos, além de histórico de uso de entorpecentes.

“A gente não sabia que ele tomava remédio controlado. Tínhamos conhecimento de que já foi usuário de drogas. Minha madrasta falou que já ouviu ele xingar o Micael, mas não eram sinais evidentes. Ele sempre teve disposição para cuidar deles”, relatou Guilherme.

As informações sobre o histórico do padrasto foram apresentadas pelos familiares durante a coletiva.

Prefeitura lamenta morte de Micael

Em nota encaminhada à imprensa na tarde desta quinta-feira, a Prefeitura de Araçatuba lamentou a morte de Micael e informou que adotava as providências necessárias para o sepultamento.

“Neste momento de profunda tristeza, a Secretaria Municipal de Assistência Social informa que estão sendo adotadas as providências administrativas e legais cabíveis para a realização do sepultamento. Diante desta perda irreparável, a Prefeitura de Araçatuba expressa profundo pesar e respeito à memória da criança e reitera o compromisso da Administração Municipal com a proteção integral de crianças e adolescentes e a garantia de seus direitos”, informou.

Conforme apurado pela reportagem, os procedimentos relacionados ao velório e ao sepultamento dependem de manifestação da Justiça.

Por isso, até o fim da tarde desta quinta-feira, a Polícia Civil ainda não havia recebido comunicação oficial sobre a morte encefálica para iniciar os procedimentos de encaminhamento do corpo ao Instituto Médico Legal (IML), onde deverá ocorrer o exame necroscópico.

Até aquele momento, também não havia informações sobre a data e o local do velório e do sepultamento.

Polícia mantém investigação e defesa prepara recurso

A Polícia Civil continua investigando as circunstâncias das lesões sofridas por Micael. Com a constatação da morte encefálica, o caso poderá passar a ser tratado como homicídio qualificado consumado, além da suspeita de tortura.

A mãe e o padrasto permanecem presos preventivamente.

Procurado pela reportagem, o advogado de defesa da mulher, Luciano Gomes, informou que pretende apresentar um pedido de habeas corpus.

Segundo o defensor, a manutenção da prisão é desnecessária, pois sua cliente não estava no imóvel no momento em que os ferimentos teriam ocorrido.

A reportagem tentou contato com a defesa do padrasto investigado, mas recebeu a informação de que até o fechamento desta reportagem ele não tinha nenhum advogado habilitado no processo. O espaço continua aberto para manifestações.


 

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