CIÊNCIA

Vida na Terra teve início há 4,33 bilhões de anos, afirma estudo

Por Reinaldo José Lopes | da Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min
Nasa
A Terra em registro feito pela missão Artemis 2 em abril deste ano
A Terra em registro feito pela missão Artemis 2 em abril deste ano

Simulações que reconstruíram os ambientes que predominavam na Terra durante o início turbulento de sua existência indicam que formas rudimentares de vida teriam surgido por aqui relativamente cedo, há 4,33 bilhões de anos.

Nessa época, após a formação da Lua e da progressiva diminuição dos grandes bombardeios celestes que antes destruíam a crosta terrestre, surgiram ambientes com fontes termais de água. Eles teriam sido o lugar ideal para a gênese do chamado "mundo de RNA", uma fase hipotética da evolução da vida na qual essa molécula, "prima" do DNA, já conseguia ser portadora de informações genéticas e, ao mesmo tempo, coordenar a própria multiplicação.

A possível data para a "certidão de nascimento" dos seres vivos acaba de ser proposta em artigo na revista especializada Nature Communications. Assina o trabalho uma dupla da Universidade de Bayreuth, na Alemanha. Oleg Abramov e Stephen Mojzsis são pesquisadores do BGI (Geoinstituto Bávaro, na sigla em alemão), ligado à universidade, e também colaboram com instituições dos EUA e da Hungria.

O trabalho de modelagem matemática conduzido pela dupla e seus colegas leva em conta tanto o que se sabe sobre os resquícios mais primitivos das rochas do planeta, representados pelo mineral conhecido como zircão ou zirconita, quanto os dados disponíveis sobre a formação do Sistema Solar. Nesse segundo caso, o estudo de rochas lunares também ajuda a ter uma ideia de como era a vizinhança da Terra nas fases iniciais de existência do planeta.

Todas as pistas disponíveis indicam que esse cenário primevo era assustador —tanto que ele recebeu a designação oficial de éon Hadeano. O nome faz referência ao Hades, a região subterrânea habitada pelas sombras dos mortos na mitologia grega.

O éon Hadeano, que vai, grosso modo, de 4,5 bilhões de anos a 4 bilhões de anos atrás, começa quando a Terra em formação é alvo de um impacto celestial de proporções gigantescas, criando um profundo oceano global de magma (rocha derretida) e a presença de rocha vaporizada na atmosfera.

Depois disso, a superfície terrestre enfrenta diversos ciclos de resfriamento e de novos derretimentos. A principal causa da instabilidade é a queda esporádica de outros objetos celestes com mais de 500 km de diâmetro, vaporizando os oceanos em formação e fazendo com que a temperatura da superfície terrestre superasse os 300°C durante milênios.

Além disso, as características das camadas do manto da Terra (o trecho entre a crosta e o núcleo do planeta) nessa época produziam altas temperaturas e processos de convecção, análogos ao movimento da circulação da água numa panela que está fervendo. Isso estimulava ainda mais o processo de "reciclagem" da crosta, ou seja, fazia com que ela fosse destruída e refeita diversas vezes.

Como seria de esperar, essas condições não seriam nada hospitaleiras para o surgimento de moléculas orgânicas, que não costumam manter sua integridade e funcionalidade em temperaturas que passem significativamente dos 50°C.

Ao mesmo tempo, o consenso entre os cientistas hoje é que outras condições —além do fim da instabilidade cataclísmica planetária— precisam ser satisfeitas para que o processo de evolução dos sistemas biológicos se inicie.

Entre outros fatores, as moléculas orgânicas têm de ser capazes de se formar por processos naturais em grande quantidade e, além disso, estar presentes em concentrações altas o suficiente para que interajam entre si com frequência. Assim, dariam origem a reações químicas cada vez mais complexas, duradouras e autossustentáveis, até desembocar em sistemas que poderiam ser considerados vivos.

Por uma série de motivos, os sistemas formados por moléculas de RNA são considerados candidatos importantes a protagonistas desses primeiros passos. Além de poder armazenar informações que servem de "receita" para a construção de outras moléculas, o RNA também consegue assumir formas que facilitam e aceleram as reações químicas necessárias para produzir mais cópias dele próprio. Surgiria assim um dos mecanismos fundamentais da vida: a replicação ou reprodução.

Os autores do novo estudo levaram em conta as condições em que poderia haver condições ambientais para que as moléculas de RNA se formassem no ritmo necessário e não fossem destruídas, considerando uma possível gama de bombardeios celestes na Terra primitiva, dos menos aos mais intensos e frequentes.

As simulações feitas por eles indicaram que a queda de bólidos ditos "esterilizantes" —ou seja, capazes de destruir praticamente todas as moléculas orgânicas em formação— teria deixado de acontecer por volta de 4,4 bilhão de anos atrás. Nessa fase, a maior parte da crosta terrestre enfim passou a adquirir características estáveis no longo prazo, com a presença abundante da água no estado líquido.

Ao mesmo tempo, ainda havia uma frequência grande o suficiente de ambientes geotermais (por exemplo, com a água sendo aquecida nas partes mais "rasas" do subsolo) capacidades de turbinar a formação de moléculas orgânicas num ritmo mais rápido do que seria visto numa Terra mais "fresca".

Tudo isso teria produzido condições muito favoráveis a um "mundo de RNA" com a idade estimada pelos pesquisadores. Se eles estiverem corretos, a vida teria surgido com relativa velocidade no planeta, estando presente ao longo de praticamente toda a história da Terra.

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