A educação financeira já faz parte da rotina de cerca de 3,2 mil estudantes da rede municipal de Araçatuba. O tema ganhou destaque após a Câmara aprovar, no fim de agosto, um projeto que cria o Programa Municipal de Educação Financeira, Empreendedorismo e Inovação nas Escolas da Rede Pública de Ensino. No entanto, segundo a Prefeitura, esse trabalho já ocorre há quase dez anos nas unidades municipais.
A proposta aprovada pelos vereadores é de autoria de Fernando Fabris (PL) e ainda será analisada pelo Executivo, que poderá sancionar ou vetar o texto. Questionada pela Folha da Região, a Secretaria Municipal de Educação informou que, do ponto de vista pedagógico e operacional, o conteúdo já está regulamentado pela Resolução SME nº 04/2025 e integra a matriz curricular.
Na prática, conceitos que poderiam parecer distantes para crianças pequenas chegam às salas de aula por meio de histórias, brincadeiras, cultivo de plantas, produção de objetos e situações que envolvem dinheiro. Conforme os alunos avançam nos anos escolares, os conteúdos também ganham maior complexidade.
Aprendizado começa cedo
A Folha acompanhou parte dessas atividades no Cemfica Solar, unidade de educação complementar que atende mais de 200 crianças no contraturno escolar.
Aos 6 anos, Antonella de Toledo Andrade, aluna do 1º ano, já consegue contar o que aprendeu durante as atividades. Entre as experiências está o cultivo de alecrim no jardim. O conhecimento, segundo ela, não fica apenas na escola.
Antonella contou que leva para casa aquilo que aprende sobre ervas e temperos. “Meu vô não sabe quase todos os nomes dos temperos. Aí eu falo os nomes dos temperos para o meu vô”, disse.
A professora Fernanda Antonio Bertolino explica que as atividades são adaptadas à idade das crianças. No primeiro ano, por exemplo, os alunos trabalham com jardins sensoriais e ervas aromáticas. Já no terceiro, uma das propostas envolve brinquedos ecológicos produzidos com materiais recicláveis.
Outros conteúdos aparecem conforme o avanço escolar, passando por atividades artísticas e culinária. Paralelamente, conceitos financeiros são introduzidos de maneira gradual.
“No primeiro ano, ele vai trabalhar essa questão financeira mais para o final, de uma maneira mais superficial, para entender o que é mais, o que é menos, se está faltando dinheiro, se vai sobrar. Já no quinto ano é algo mais profundo. Então, vai trabalhar cédulas, moedas e o troco”, explicou Fernanda.
Do cofrinho ao empreendedorismo
Aos 8 anos, Nicolas Sorrocha, aluno do 3º ano, já tenta colocar alguns desses conceitos em prática. Para ele, empreender significa ter uma empresa, usar parte do que ela ganha para continuar o negócio e administrar o restante.
Em casa, Nicolas também começou a economizar. Sem um cofrinho tradicional, encontrou outra solução: transformou uma luminária em local para guardar o dinheiro. Até agora, juntou R$ 13.
“Comecei faz pouco tempo”, contou. Segundo ele, os pais também ajudam a aumentar a reserva.
A professora Solange dos Santos explica que cada etapa busca ampliar a visão da criança sobre empreendedorismo. Dessa forma, os alunos entram em contato com diferentes possibilidades ao longo dos anos.
“Ela pode ter uma habilidade matemática e a outra pode ter uma habilidade artística. Então, no decorrer dos cinco anos, você vai ver esse desenvolvimento”, afirmou.
Crianças aprendem a calcular preços e troco
As atividades fazem parte do componente curricular Vivências no Currículo Diversificado e utilizam a metodologia do JEPP, desenvolvida em parceria com o Sebrae.
Segundo a Secretaria de Educação, a participação no projeto é obrigatória para turmas de 1º, 3º e 4º anos na oficina Vivências. O trabalho também se estende aos 2º e 5º anos, às unidades de Complementação Educacional, como ECEs e Cemficas, e às turmas dos anos iniciais da Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Além disso, os professores recebem capacitações periódicas, materiais didáticos e apoio pedagógico por meio da parceria entre a Secretaria de Educação e o Sebrae.
Uma das etapas mais práticas acontece no encerramento das atividades. Os estudantes participam de feiras empreendedoras e comercializam produtos que ajudaram a desenvolver. Antes disso, precisam calcular custos e preços, além de lidar com dinheiro e troco.
Fernanda explica que, depois da produção, as turmas fazem a tabulação dos custos e discutem quanto poderão cobrar por cada item. Posteriormente, o grupo também decide a destinação do dinheiro arrecadado em benefício das próprias crianças.
No Cemfica Solar, a responsável pela unidade, Ana Cláudia Laranja Jerônimo, afirma que a experiência permite unir teoria e prática.
“Eles vão ter o troco, como fazer o raciocínio lógico e matemático, qual é o valor do produto, qual é o troco, se tem troco ou não. Então, eles têm também essa questão do comparativo de valores”, explicou.
A culminância do projeto na unidade está prevista para 11 de novembro.
Câmara aprova novo programa
O assunto ganhou espaço na Câmara após os vereadores aprovarem a criação do Programa Municipal de Educação Financeira, Empreendedorismo e Inovação nas Escolas da Rede Pública de Ensino.
Na justificativa, o vereador Fernando Fabris afirma que a proposta pretende abordar planejamento financeiro, criatividade, liderança, empreendedorismo sustentável e inovação de maneira pedagógica e interdisciplinar.
O parlamentar também argumenta que a iniciativa está alinhada à Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
Apesar da aprovação pelo Legislativo, a Prefeitura ainda não informou se sancionará o projeto. Em resposta à Folha, o município afirmou que a decisão sobre sanção ou veto será analisada.
Por outro lado, a Secretaria de Educação ressalta que o trabalho já está em execução. Segundo a pasta, a parceria com o Sebrae para aplicação do JEPP tem quase dez anos e beneficia aproximadamente 3.200 estudantes anualmente.
A Secretaria também informou que eventual continuidade do programa nos moldes atuais não gera custo adicional ao município. Segundo a pasta, estrutura curricular, carga horária dos professores e suporte pedagógico já fazem parte da rotina da rede, enquanto metodologia, formação e materiais são oferecidos por meio do termo de cooperação com o Sebrae.
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