Enfim, aconteceu. Estou em choque e ainda tentando assimilar a informação. Acabo de ser comunicada por uma ferramenta de inteligência artificial de que um dos meus textos autorais foi feito por uma IA. Como assim? Sou jornalista desde o século passado, trabalho com produção de texto há mais de 30 anos, e meu método de trabalho sempre foi este: escolho o assunto sobre o qual vou escrever e, a partir do tema delimitado, inicio minhas pesquisas. Uso ferramentas de busca na internet, ouço fontes de informação, consulto livros e documentos, escuto podcasts, entre outras estratégias.
Terminado o processo de pesquisa, sento diante do computador, organizo as ideias de acordo com o meu objetivo de alcançar o leitor e, a partir daí, escrevo meus parágrafos. Finalizada a produção do texto, releio todas as informações, checo novamente alguns dados e, por fim, passo o texto por uma inteligência artificial com o seguinte prompt: “Corrija a gramática do texto, preservando todas as ideias originais”.
A estratégia de pedir à IA a revisão gramatical do texto tem uma razão. Depois de passar um período escrevendo e, sem nenhum intervalo, precisar enviar o material ao editor, se tento reler o texto imediatamente, meus olhos veem aquilo que o meu cérebro imaginou — e não, necessariamente, o que está escrito. Por isso, o processo de revisão precisa de um segundo olhar. No passado, nas redações, podíamos contar com os revisores. Hoje, esse trabalho é normalmente feito pelas inteligências artificiais.
Dias atrás, uma colega jornalista comentou no nosso grupo que havia levado um choque porque fora recusada para uma vaga de emprego depois que alguém do recrutamento teria submetido seu texto a uma IA. O resultado apontava “uma probabilidade de 90% de o texto ter sido feito por uma máquina”. Ela é uma das colegas mais talentosas que conheço desde a faculdade.
Nem pensei duas vezes. Também quis saber como a inteligência artificial classificaria o meu texto. Justamente eu, que acho fácil diferenciar um texto humano de um texto de máquina. Qual não foi a minha surpresa quando a IA sugeriu que 93% do texto poderia ter sido feito por uma máquina. Resultado infame. Fiquei descompensada. O que eu pensava ser autoral, na verdade, era tão previsível que a máquina entendeu que só uma máquina poderia tê-lo escrito. Foi isso?
Não me conformei e fiz um segundo teste. Busquei nos meus arquivos um texto muito antigo, que não havia sido revisado por IA antes de ser publicado. Resultado: 98% de probabilidade de aquele texto ter sido feito por uma máquina. Impossível! Foi então que entendi: a IA acredita que eu sou uma IA. E não estou nada feliz com isso.
Ainda que meus textos apresentem poucos erros, entendi que talvez me faltem mais sentimento e mais criatividade — coisas que a IA, por enquanto, não consegue colocar nos textos. O que me preocupa agora é como as pessoas responsáveis por selecionar profissionais para o mercado de trabalho por meio da produção textual vão conseguir distinguir textos humanos de textos produzidos por máquinas. Minha amiga está inconsolável. E eu, muito brava.
Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista e professora. Mestre em Comunicação e Semiótica com MBA Internacional em gestão executiva.
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