OPINIÃO

Os rios que têm passado em minha vida

Por Tito Damazo | especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 5 min

Não, o rio que passa ainda, decerto, afinal, nós é que passamos, um rio passa, pela minha cidadezinha (tanto tempo que lá não vou!; não tenho pretensão de lá tornar, bem sei que não mais a encontrarei), não é mais bonito do que o Tejo. Não. O Rio Lambari nem é belo como o Tejo, nem tem a grandeza físico-geográfica do Tejo. Tampouco grandeza histórico-social como a do Tejo. Porém pelo Lambari grande era a minha ternura. E sem dúvida também a de meus amigos da infância (Onde andam todos eles? De alguns soube que já estão dormindo, dormindo para sempre). 

Era muita a cumplicidade entre nós. Ele era puro acolhimento. Nos aliviava do intenso calor. Nos autorizava brincadeiras mil. Nos permitia fisgar seus lambaris, tão bonitinhos! Um dó danado de comer. Aprendera com vó Olímpia (e a maioria dos amigos achava isso certo) que quaisquer caças que matávamos a estilingue tinha de ser para comer (Portanto, tínhamos que escolher o que matar); o mesmo deveria se dar com os peixes pescados. Grande pecado teríamos cometido, se assim não o fizéssemos, me dissera a avó. 

Competíamos em natação, em pescaria. A láurea ao nadador era o título de campeão. O campeão da pescaria seria quem pegasse um lambari Tambiú. Bonito, que só vendo. Prateado reluzente ao sol se misturando com o amarelo-ouro de suas nadadeiras. De tempos em tempos o campeão se submetia a nova prova. E continuava com a “insígnia” ou a entregava ao novo vencedor. Era feito difícil. Nardo, que já está dormindo para sempre, me lembro bem, deteve a láurea bastante tempo, que o Lambari dificilimamente se deixava ser fisgado à toa. O Tambiú dele era mesmo uma beleza. Bichão grande. 

O pai de Nardo era fotógrafo ambulante e em alguns fins de semana saía a pescar com amigos no “Salto do Avanhandava”. Haviam acabado de fazer uma pescaria das boas. Convidou-nos a todos para uma peixada que dona Celina, mãe de Nardo, era mestra em fazer. O Tambiú estaria no cardápio com destaque. Antes, tirou uma foto de toda a turma, o Nardo no meio, segurando o Tambiú pelo rabo. O peixe não ficou como era, as fotos eram em preto e branco, mas seu Valdo era muito bom fotógrafo. A foto estava no capricho. Cada um de nós ficou um dia com ela, para mostrar em casa.

Pois então, o Lambari, quase um desconhecido, eu vivi, o Tejo eu vi. Em Lisboa, muito contemplei o Tejo, imaginando as grandezas que desaguou do Atlântico. “Pelo Tejo vai-se ao Mundo. / Para além do Tejo há a América/ E a fortuna daqueles que a encontra(ra)m”. Bem poucos, creio, pensavam o que havia para além do Lambari da nossa cidadezinha. Nós, meninos que o amávamos, não pensávamos em nada, além do quanto ele nos era bom. Na verdade, nem pensávamos o quanto nos era bom. Sentíamos sem que disso tivéssemos consciência; quanto nos ensinava a ser livres, autônomos e agirmos coletivamente. 

Em Portugal pude estar com dois outros grandiosos rios. Na cidade do Porto, conheci o Douro. Nele navegamos (antes, visitamos turisticamente uma fábrica talvez, ou um grande reservatório de distribuição do famosíssimo vinho do Porto Ferreira). Foi no seu trecho pelos vinhedos pendurados nos altos das ribanceiras. Fomos, se não estiver enganado, até a cidade Peso da Régua, de onde tornamos por via férrea de comboio da histórica e mítica Linha do Douro. 

Em Portugal, sobre uma ponte em Coimbra, contemplei por horas o correr do Rio Mondego. Pouco depois de ter percorrido dependências da histórica Universidade de Coimbra e visitado a centenária e “intocável” Biblioteca Joanina. Apascentei com aquelas turvas águas do Mondego meu espírito curioso. Enquanto isso, minha mulher e uma amiga, que saíram a perambular pela cidade em busca de já nem lembro bem o quê, se perdiam de mim e dos outros, sendo necessário mobilizar a polícia, para que encontrassem as desaparecidas.

Mais tarde, em Paris, estive com o Sena o quanto pude. Contemplei-o um bom tempo. E como bons “turistas que se prezem”, por ele passeamos num dos badalados bateaux-mouches. Curti sua Ponte Alexandre III. Bonita que só vendo, com seu Sena embaixo e sua Paris aos lados. Neste período, somente pudemos ver a fachada da Catedral de Notre-Dame, a que dá para o rio, com os esqueletos dos andaimes a ela apostos para sua reconstrução do mais recente incêndio. 

Em Amsterdã passeamos em embarcações semelhantes pelo Rio Amstel que também parece cortar a cidade ao meio. As duas margens dele, retalhadas destas embarcações. E um fato que embasbaca o turista, principalmente um feito eu que tanto gosta de um como de outra: as drenagens periódicas do rio recolhem centenas de bicicletas que nele são atiradas. 

E ainda passeamos com o Rio Reno. Um breve cruzeiro. Por um momento, enquanto ia vendo pelos janelões envidraçados, a forte correnteza e o turvo das suas águas, trazia-me a memória o Rio Paranapanema, cuja travessia se fazia numa barcaça atracada num cabo de aço, que pelo alto ia de uma margem à outra. Isso em Rosana - SP, onde iniciei minha vida como professor.

São rios que vão passando pela minha vida. Dos rios nossos, já vivi vários. Há outros com os quais preciso estar. Por exemplo, o Velho Chico, o Capibaribe de Manuel Bandeira: “– Capiberibe / Capibaribe”; João Cabral o traz vivo nos poemas “O Cão sem plumas” – “A Cidade é passada pelo rio / como uma rua / é passada por um cachorro”; “O Rio” – “Rio menino eu temia / aquela grande sede de palha, / grande sede sem fundo / que águas meninas cobiçava.”; e “Morte e Vida Severina” – “Vejo que o Capibaribe, / como os rios lá de cima, / é tão pobre que nem sempre/ pode cumprir sua sina”.

Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e membro da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

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