A Copa do Mundo de Futebol de 2026 mostrou ao público muito mais do que um espetáculo esportivo. Entre as histórias que emocionaram, destacou-se a de Vozinha, goleiro da seleção de Cabo Verde. Eletricista de profissão, ele continua jogando futebol profissional aos 40 anos, idade que muitos consideram “velho”. Por isso, Vozinha tornou-se um símbolo da luta contra o idadismo, também chamado de ageísmo ou etarismo: o preconceito baseado na idade. Esse tipo de discriminação está presente em diversas situações do cotidiano e afeta milhões de pessoas.
No Brasil, exemplos desse preconceito são frequentes. Recentemente, reportagens mostraram moradores da Lapa, em São Paulo, contrários a instituições de longa permanência – os antigos asilos – no bairro, sob a justificativa de que elas o tornariam "feio". Casos como esse revelam uma visão estereotipada da velhice, justamente quando o país caminha para um acelerado envelhecimento populacional.
As projeções indicam que, em 2030, o número de pessoas idosas será maior que o de crianças e adolescentes de até 14 anos. Enquanto países desenvolvidos envelheceram gradualmente, tendo tempo para criar políticas públicas, o Brasil enfrenta esse processo de forma rápida e ainda sem investimentos suficientes em saúde, educação e assistência social. Por isso, é urgente reorganizar os serviços públicos e transformar a maneira como a sociedade compreende o envelhecimento.
A escola tem papel fundamental nessa mudança. Ao incorporar o tema do envelhecimento em suas práticas pedagógicas, contribui para formar cidadãos capazes de respeitar as diferenças entre gerações e combater preconceitos desde a infância. Também é importante compreender que envelhecer não significa, necessariamente, adoecer. O envelhecimento saudável, chamado de senescência, corresponde às mudanças naturais da idade. Já a senilidade refere-se às condições patológicas que comprometem a saúde e a autonomia.
Envelhecer com qualidade depende, então, de políticas públicas que garantam alimentação adequada, prática de atividades físicas, acesso aos serviços de saúde, espaços de convivência e oportunidades de participação social. Além disso, é dever do Estado combater o preconceito contra a pessoa idosa. O idadismo manifesta-se de forma explícita quando alguém é excluído do mercado de trabalho ou tratado de maneira depreciativa por causa da idade. Também aparece de forma sutil, na infantilização dos idosos ou na falsa crença de que todos são incapazes e dependentes.
Uma das estratégias mais eficazes para enfrentar esse problema é promover a convivência entre diferentes gerações. Nesse contexto, destaca-se a Gerontologia Educacional, área que desenvolve ações planejadas para aproximar crianças, jovens, adultos e idosos em experiências de aprendizagem compartilhada.
A convivência intergeracional favorece a troca de conhecimentos, fortalece a memória, a comunicação e o pensamento crítico, além de ampliar o repertório cultural dos mais jovens. Ao mesmo tempo, promove respeito, empatia e solidariedade, reduz o isolamento social dos idosos, fortalece sua autoestima e amplia o sentimento de pertencimento.
Educar para o envelhecimento é preparar a sociedade para uma realidade cada vez mais próxima. Combater o preconceito contra a idade significa reconhecer que envelhecer faz parte da vida e que toda pessoa idosa merece respeito, dignidade e oportunidades para continuar participando ativamente da sociedade.
Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista, professora e mestre em comunicação e semiótica com MBA em gestão executiva
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