Um aluno do 8º ano, com cerca de 12 ou 13 anos, colocou uma lâmina de vidro no copo de água da professora. A sala inteira viu, mas ninguém contou. Risinhos, cochichos e algumas frases sussurradas — “se eu fosse a senhora, não beberia” — não foram suficientes. A professora não bebeu a água, mas precisou de atendimento médico. O corpo ficou bem. O psicológico, não. Em que momento beber água passou a ser um risco dentro da escola? O caso aconteceu recentemente em São José dos Campos. Mas não é um fato isolado.
A geração que nunca ouviu um “não” está em sala de aula. É na escola que os problemas explodem, embora quase nunca seja ali que eles começam. Há tempos os professores convivem com alunos que ignoram, desobedecem, xingam, ameaçam e até agridem. De norte a sul do país, a violência contra professores deixou de ser exceção. Tornou-se um retrato da educação brasileira. Em dez anos, os casos de violência nas escolas cresceram 254%, passando de 3,7 mil para 13,1 mil ocorrências, segundo levantamento do Ministério dos Direitos Humanos realizado entre 2013 e 2023.
O estudo também aponta que seis em cada dez professores da educação básica já sofreram algum tipo de agressão, enquanto 47% relatam abusos verbais. Há quem culpe a escola sucateada, o professor mal remunerado, o poder público ausente ou até direções de escolas particulares que preferem preservar a mensalidade em vez da ordem. Mas o problema é outro. Ele atravessa o portão da escola e começa dentro de casa. A escola trabalha com aquilo que a família entrega. A educação começa em casa.
Por isso, a pergunta não deveria ser "o que está acontecendo nas escolas?", mas "o que estamos deixando de ensinar às nossas crianças ANTES que elas cheguem à escola?". Aristóteles ensinou que a virtude é fruto do hábito. Segundo o filósofo, tornamo-nos justos praticando a justiça e gentis praticando a gentileza. O caráter não nasce pronto. Constrói-se todos os dias, na repetição dos bons hábitos, dentro de casa. Esse é um trabalho dos pais.
A neurociência mostra que nenhuma criança nasce sabendo respeitar limites, lidar com frustrações, controlar impulsos, sentir empatia ou regular emoções. Todas essas habilidades precisam ser ensinadas, repetidas e vividas. Mas as famílias estão sendo fracas. Algumas são permissivas demais. Aceitam tudo porque "é uma criança" ou "é só uma fase".
De tanto poupar os filhos de qualquer limite e das consequências dos próprios erros, acabam criando tiranos convencidos de que o mundo inteiro precisa se dobrar à sua vontade. Há também a família que fere, bate, humilha e abandona. O aluno devolve na sala de aula aquilo que recebe em casa. Esses dois tipos de família falham justamente onde mais importa: no estabelecimento de limites. Falta o adulto firme e presente. Falta cuidado. Falta autoridade.
Hannah Arendt dizia que educar é assumir responsabilidade pelo mundo. Para a filósofa, abrir mão da autoridade em nome da liberdade do filho é uma forma de abandoná-lo. Dom Bosco, por sua vez, ensinava que ser respeitado é mais importante do que ser temido. Dedicou sua vida à formação de milhares de meninos em situação de vulnerabilidade tendo como base três pilares: razão, fé e amor. Firmeza e ternura na mesma mão.
Autoridade madura é uma forma adulta de amor. Formar caráter é um projeto. Caráter não é sorte nem acaso. É construção. É o que a educadora Candice Kindlé chama de "arquitetura do caráter". Por isso, a escola não pode ser a última trincheira de uma educação que ninguém sustentou antes. O professor deveria se preocupar em ensinar, e não em verificar se há cacos de vidro no próprio copo de água.
Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista e professora. Mestre em comunicação e semiótica com MBA internacional em gestão executiva.
Fale com o Folha da Região!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.