PADRE CHARLES

Campeão

Por Charles Borg | Especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 2 min

Perder é indigesto. O ser humano detesta perder porque deseja sempre progredir. No entanto, quando se reflete com objetividade e serenidade, compreende-se que a realidade da vida, por ser intrinsecamente contingente, carrega embutidos imprevistos que interferem nos projetos e afetam o impulso progressista. Nem tudo acontece do jeito que se planeja. A inconformidade com o revés é, portanto, compreensível.

As complicações surgem quando o impulso de sobrevivência sai do controle. O império da emoção embaça o racional. Faz enxergar na derrota somente ameaças, provocando reações impulsivas. Extravasa-se de forma violenta, agredindo o suposto adversário ou o que com ele de alguma forma se relaciona. As estúpidas brigas entre atletas e torcedores ilustram bem este quadro. É fundamental entender que as derrotas integram o manual da competição. 

Urge preparar-se para elas. Importa aprender a reagir racional e dignamente diante de revezes. Não domar a frustração e deixar de canalizar o instinto de sobrevivência pode, paradoxalmente, levar a novos e mais doídos fracassos. Falando em termos gerais, os revezes podem ser classificados sob duas categorias. Há aqueles provocados por interferência externa. São os desastres naturais, imprevisíveis e incontroláveis. 

No campo esportivo são as lesões que desfalcam o time e prejudicam o rendimento da equipe. Em situações como essas não há muito que fazer. É resignar-se e encontrar alternativas. Mas há também derrotas causadas por falhas ou incompetências próprias. Um dado curioso emerge em situação semelhante, reflexo obliquo do instinto de sobrevivência. 

Diante dos próprios erros, é comum querer atribuir a culpa a fatores pontuais ou agentes externos. Falhou-se porque aconteceu isso ou porque fulano agiu daquele jeito. Jogar a culpa no juiz pela derrota do time pode até aliviar a cara e atenuar a decepção, mas não muda a essência da realidade nem acena para melhorar desempenhos. Quando, ao contrário, se aprende a reconhecer e assumir o próprio erro, alem de enfrentar a situação com coragem e dignidade, livra-se daquelas constrangedoras desculpas e infundadas justificativas. 

Ao admitir o erro, dispõe-se implicitamente a corrigir o que se fez de errado e evitar, consequentemente, futuros vexames. Não é nada prazeroso, evidente, reconhecer falhas. É, no entanto, a mais digna postura e a mais salutar abordagem. No imaginário humano, na fantasia infantil especialmente, campeão é o sujeito/time que sempre vence. Conceito irreal e perigosamente alienante. Precisa imperiosamente ser ajustado. 

O esporte, como a vida, é feito de sucessos e derrotas. Não é somente o vitorioso que é campeão. É campeão, igualmente, quem sabe reconhecer e aplaudir o sucesso do outro! Campeão também é quem sabe reconhecer derrotas e diante das falhas assume-as com coragem e com humildade aplica-se a aprender com as feridas. Perder aborrece, sim, mas também redime! 

Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

Fale com o Folha da Região!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários