ARTIGO

O que é arte e cultura?

Por Ayne Salviano | Especial para a Folha da Região
| Tempo de leitura: 2 min

Em julho de 2025, a convite de uma profissional respeitada por seu trabalho na Secretaria Municipal de Cultura de Araçatuba, participei de um curso sobre elaboração de projetos para editais, promovido pela Cult-SP, braço da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativa do Estado de São Paulo, voltado à democratização, formação e fomento da cultura paulista.

Victor Bárbara, a Bah (no feminino mesmo), foi responsável pelas aulas, realizadas ao longo de três noites na Associata – Associação dos Artistas e Amigos da Arte de Araçatuba. Eu não conhecia o local porque não costumo frequentar aquela região da cidade. Fiquei encantada com a preservação da construção antiga: as cores da pintura, a iluminação diferenciada e o cuidado com o espaço eram admiráveis. Durante o curso, fomos sempre bem recebidos e pudemos observar a movimentação artística, com ensaios de música e dança.

Relembro esses momentos porque a primeira pergunta feita pela Bah foi justamente: o que é cultura? O que é arte? Cada um dos cerca de dez participantes apresentou sua definição. Como éramos de formações distintas, surgiram diversas respostas, refletindo nossas diferentes visões de mundo. Na primeira noite, ao chegar em casa e comentar sobre o curso, citei ao meu marido uma frase atribuída ao filósofo Sócrates que sintetizava minha percepção, atualizada pelas contribuições dos colegas: “só sei que nada sei”.

Minha concepção de cultura estava baseada na minha vivência como jornalista e, principalmente, na minha formação em piano clássico. Foram dez anos de estudo, incluindo um ano de especialização em Bach. No entanto, havia no grupo outros músicos, artistas de teatro, pintores e pesquisadores das artes indígenas, ampliando o repertório de perspectivas, todas igualmente válidas.

Essa reflexão, ainda naquela época, me fez relembrar de uma proposta de redação de vestibular que discutia o grafite: antes considerado vandalismo, hoje reconhecido como arte. O principal ensinamento daquele curso foi não limitar a compreensão de arte e cultura à minha própria visão. Escrevo isso para abordar a questão política envolvendo a retomada da Associata pela prefeitura, após a polêmica apresentação de uma peça teatral que desagradou parte do público cristão por tratar de temas considerados profanos.

Não assisti à peça. Se o conteúdo corresponde ao que foi divulgado em vídeos de políticos indignados, possivelmente eu não a assistiria. E é justamente esse o ponto: a liberdade do público de escolher qual arte ou manifestação cultural deseja consumir. O contrário disso é censura, algo que, em tese, já superamos com o fim da ditadura. Ou não?

Os artistas devem ter liberdade para se expressar, e o público, para escolher o que consumir. Quando um gestor público atua com base em princípios religiosos, fere o artigo 19, inciso I, da Constituição, que estabelece a neutralidade do Estado em relação à religião. A retomada da Associata levanta um debate sobre autoritarismo. Pergunto humildemente: Não seria mais produtivo promover discussões sobre arte e cultura?

Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista e professora, mestre em comunicação e semiótica com MBA em gestão

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