Excessiva concentração de asfalto, ruas, avenidas e concreto (prédios, casas e outras construções) com baixa taxa de arborização. Essa equação faz com que mesmo as cidades de menor porte se igualem, em condição climática, aos grandes centros urbanos.
Embora as chuvas fortíssimas tenham ganhado destaque nos últimos dias, as elevadas temperaturas também têm chamado atenção das autoridades públicas e da população neste ano de 2023. Em Araçatuba, a sensação térmica fez os termômetros extrapolarem a média máxima de 31 graus. Na cidade do Rio de Janeiro, a mesma sensação térmica bateu nos 58ºC no último dia 4.
Com as temperaturas cada vez mais altas, os moradores das cidades são os primeiros a sofrer e sentir as consequências do efeito das “ilhas de calor”, fenômeno que ocorre quando a temperatura em uma área urbana aumenta em relação aos seus arredores.
O efeito das ilhas de calor é causado pela combinação de concentração de asfalto e concreto numa dada área, escassez de áreas verdes e poluição atmosférica. A interação destes fatores resulta na retenção do calor naquela área, impedindo sua liberação e ensejando o aumento da temperatura na região.
Estudos realizados em Araçatuba já demonstraram que estas ilhas de calor, produzidas pelo excesso de concreto em detrimento do verde chegam a gerar pontos com temperaturas até 5,9 graus mais quentes que em outras áreas. Ou seja, se a máxima está em 31 graus, araçatubenses em certas regiões da cidade estarão com uma temperatura máxima de cerca de 36,9 graus.
Efeito similar
Acreditava-se que esse efeito seria ainda maior no caso das grandes metrópoles. Porém, pesquisadores da Unesp têm mostrado que cidades médias e pequenas também geram ilhas de calor, que podem chegar a atingir magnitudes próximas às observadas nas grandes cidades.
Margarete Amorim, professora do Departamento de Geografia, câmpus Presidente Prudente, comenta que, apesar de cidades grandes concentrarem áreas maiores de construções, assim como um maior número de pessoas, sua extensão também faz com que existam áreas chamadas de “ilhas de frescor”, nas quais as temperaturas são mais amenas, o que cria uma distribuição maior das temperaturas.
“Nessas cidades a gente não tem uma única ilha de calor, a gente tem um arquipélago de calor”, explica. Nas cidades grandes, a extensão das ilhas de calor é muito maior do que nas de médio e pequeno porte. “Nas cidades médias e pequenas, o calor está ali, porém em uma extensão territorial menor. Isso abre a possibilidade de que sejam aplicadas medidas para amenizar as ilhas de calor, algo muito difícil de ser feito em cidades grandes”, destaca Amorim.
Pesquisa
Notando a falta de estudos que analisassem a presença e a magnitude das ilhas de calor em cidades menores, Amorim tem dedicado os últimos quatro anos ao projeto “Cidades, clima e vegetação: modelagem e políticas públicas ambientais”, coordenado por ela, com o objetivo de analisar como as ilhas de calor são geradas em cidades de pequeno e médio porte.
Ela diz que existem duas técnicas principais para a coleta de dados. A primeira envolve a medição da temperatura do ar por meio de sensores instalados em diferentes pontos da cidade, que registram as informações ao longo do tempo.
O outro modo é o uso de carros com sensores acoplados, em que o veículo percorre um trajeto que atravessa diversas regiões da cidade, enquanto o sensor coleta as informações.
Parceria com a França
O projeto teve início em 2018 com financiamento do Programa CAPES/Cofecub e desenvolveu estudos nas cidades de Jacareí (SP), Presidente Prudente (SP), Maringá (PR), Três Lagoas (MS), Sinop (MT) e Rennes, na França, via parceria com o pesquisador Vincent Dubreuil, da Universidade de Rennes II.
A partir de um levantamento dos aspectos geográficos de cada região, como as áreas de relevo, a presença de rios, a amplitude de regiões verdes e com o levantamento de dados sobre a variação da temperatura do vento, os pesquisadores foram capazes de traçar as características das ilhas de calor de cada cidade e notaram que a magnitude delas era equivalente às ilhas geradas em grandes cidades.
“Hoje se fala muito das mudanças climáticas globais, e tem se dado pouca atenção a mudanças na escala local”, comenta Amorim.
Ela relata que, em alguns estudos, já foram registradas temperaturas em áreas urbanas que chegam a estar 9ºC acima do que em áreas do entorno rural.
“Nós estamos olhando para as mudanças no nível das cidades, onde vive a maioria da população brasileira, e que já vem sofrendo com esse aumento da temperatura mesmo antes de se falar de mudanças climáticas globais”, diz.
Segundo dados do IBGE, estima-se que 84,7% da população brasileira vive em áreas urbanas e, portanto, sofre diretamente com as consequências das ilhas de calor que, juntamente com a poluição atmosférica, impactam diretamente no bem-estar e na saúde das pessoas.
A alta nas temperaturas também implica um aumento no consumo de energia elétrica e coloca em evidência a disparidade social. “Quem pode pagar acaba colocando climatizadores internos nos ambientes. Quem não tem condições para fazer isso está sofrendo cada vez mais com situações de estresse térmico”, comenta a geógrafa. Ela lembra que o uso de climatizadores contribui para a intensificação das ilhas de calor, uma vez que os aparelhos esfriam o ambiente interno, liberando ar quente para o meio externo.
Problema vai crescer nos próximos anos
As ilhas de calor são uma realidade cada vez mais presente e que, segundo estimativas, serão intensificadas nos próximos anos.
Dados do primeiro Relatório de Avaliação Nacional (RAN1) do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) indicam que, até 2100, as temperaturas médias de todas as regiões no país irão aumentar entre 1ºC e 6ºC. Essa realidade chama a atenção para a necessidade de desenvolver e aplicar políticas públicas de adaptação às mudanças climáticas.
No caso das ilhas de calor, entre as principais soluções para amenizar seu impacto está o reflorestamento e os programas de arborização, a pavimentação das ruas com materiais permeáveis e a utilização de materiais com menor capacidade de armazenamento de calor.
Istoé, seja em Araçatuba ou em uma metrópole como São Paulo, a solução para aplacar a sensação sufocante provocada pelas ilhas de calor passa por equilibrar desenvolvimento com crescimento sustentável.
É preciso que se invista mais em soluções urbanas de infraestrura que atenuem os efeitos climáticos. Ou seja, junto com o concreto também devem surgir bolsões verdes e área permeabilizadas, que ajudem na drenagem da água das chuvas, por exemplo.
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