STREAMING argentina da Netflix mostra crescimento da influência dos evangélicos no país portenho; episódios já estão disponíveis
Um candidato de direita é esfaqueado num comício de campanha, aparentemente por um lobo solitário, e remexe o tabuleiro político de uma disputa presidencial. A história ocorre no Brasil? Não, na Argentina. Há, ainda, outras semelhanças com a realidade brasileira, uma vez que o episódio dá espaço para a chegada ao poder de um sombrio grupo de evangélicos que atua com poderosas influências na Justiça e na alta sociedade.
Essa é a trama da série argentina "Vosso Reino", produção da Netflix já disponível no Brasil e em outros 190 países. A direção é do veterano Marcelo Piñeyro, de "Plata Quemada" e "Tango Feroz", com roteiro escrito por ele e pela escritora Claudia Piñeiro, autora de "As Viúvas das Quintas-Feiras", lançado no Brasil pela editora Alfaguara e também levado ao cinema. Mesmo com sobrenomes parecidos, os dois não são parentes.
SEMELHANÇAS
Em entrevista ambos contaram que vinham debatendo a força com que a religião vinha ganhando espaço na política, alavancando projetos autoritários e conservadores, como os de Jeanine Áñez na Bolívia, de Bolsonaro no Brasil e de Donald Trump nos Estados Unidos.
"Mas, quando começamos a escrever a série, não víamos esse fenômeno tão forte na Argentina. Pensávamos mais em escrever uma distopia, tipo 'e se os evangélicos ficarem poderosos em nosso país?'. E o que aconteceu foi que, entre o tempo de escrever e de começar a rodar, a história virou uma realidade aqui também", conta Claudia Piñeiro.
De fato, houve um aumento do número de pessoas que se declaram evangélicas no país, de 9%, em 2008, para 15,3%, em 2019, segundo dados do Conicet (Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas). Também os templos dessa religião se disseminaram por várias províncias e pela capital, Buenos Aires. E se, antes, os pastores que pregavam na televisão local pela madrugada eram brasileiros falando portunhol, hoje são quase todos argentinos.
"Nossa crítica de modo nenhum tem a ver com os fiéis evangélicos nem com os de qualquer outra religião. Inclusive na série há evangélicos que sinceramente crêem e atuam fazendo caridade, distribuindo comida, como sabemos que ocorre de verdade. Hoje há milhares de lugares carentes da Argentina em que o Estado não chega, mas o religioso, o padre católico ou o pastor evangélico, sim, chega. Fazem trabalhos nas favelas e nas prisões. A esses, nós tiramos o chapéu e agradecemos de coração", afirma Piñeiro.
CRÍTICA
A série deixa claro que o alvo da crítica é a cúpula dessas organizações e como muitas delas se vinculam com a política e a corrupção. O pastor que se transforma em candidato à Presidência, interpretado por Diego Peretti, é carismático e obscuro, e controla a chegada de bolsas de dinheiro que depois são escondidas nas lajes do templo. Ele e a mulher, a manipuladora pastora Elena, papel de Mercedes Morán, comandam, claramente, o que é uma máquina de fazer fortuna com a fé alheia.
Obviamente, a série provocou reações. Uma organização de igrejas evangélicas , a Aciera (Aliança Cristã das Igrejas Evangélicas da República Argentina) afirmou que a obra era um insulto à "cultura evangélica da Argentina", pedindo à Netflix que a tirasse do ar. Os autores responderam que "censurar uma ficção é algo medieval".
Segundo Marcelo Piñeyro, embora a religião esteja no centro da trama e do debate, a crítica que a série faz à corrupção na Justiça tem passado despercebida. "Isso me incomoda muito. Naturalizamos tanto o fato de não podermos confiar na Justiça que ver juízes, delegados e promotores corruptos já não escandaliza mais ninguém. É muito sério ver essa instituição que é o árbitro da sociedade ter perdido tanto a credibilidade."
ENREDO
Na história, a promotora Roberta Candia, papel de Nancy Dupláa, tenta investigar o assassinato do candidato e vai ao mesmo tempo revelando os delitos dos pastores. Porém, um juiz corrupto, vivido por Alejandro Awada, faz de tudo para abafar o caso e livrar o caminho para que Emilio, papel de Peretti, chegue ao comando do país.
Também no time dos supostamente honestos estão o advogado Julio Clamens, vivido por Chino Darín, que assessora a Igreja, Tadeo, papel de Peter Lanzani, que trabalha como voluntário num orfanato religioso, e Remigio, interpretado por Nico García, que atua nas prisões e recruta fiéis recém-convertidos.
Sobre a cena da facada, que abre a série, ambos dizem que a escreveram antes do atentado contra Bolsonaro na cidade mineira de Juiz de Fora em setembro de 2018, durante a campanha presidencial brasileira. "Quando vimos que tinha ocorrido de verdade, não podíamos acreditar. Achamos que tínhamos que filmar rápido a história, porque de distopia ela ia se transformando em realidade, logo podia virar um documentário", diz Piñeiro.
POLÍTICA
O candidato da ficção, que na série morre com a facada, também carrega uma crítica política da realidade argentina e internacional. Ele é Badajóz, papel de Daniel Kuzniecka, um empresário novato na política que tenta encontrar seu espaço depois da crise de 2001, quando o presidente De la Rúa caiu após uma grave crise econômica e social.
O episódio causou o descrédito das autoridades e representantes locais, com o famoso grito de guerra "que se vayan todos" (com tradução “que todos caiam fora”). No caso da Argentina, quem surgiu nesse cenário foi o direitista Mauricio Macri, também ele um empresário novato na política.
Segundo Claudia Piñeiro, que é também uma ativista feminista e participou da campanha pela aprovação da lei do aborto, que passou na Argentina em dezembro do ano passado, "a entrada da religião na política é um fenômeno perigoso e que tem de ser analisado por todas essas frentes". "Nas marchas antiaborto que vimos na Argentina, o protagonismo não foi católico, mas sim evangélico. Não somos contra religiosos estarem na política, mas sim que a religião paute a política e oprima direitos das mulheres, por exemplo."
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