Além de dar vida ao memorável feiticeiro do Castelo Rá-Tim-Bum, e diversos outros personagens, Mamberti atuou no Ministério da Cultura, se tornando um forte representante e defensor da arte brasileira
“Raios e trovões”, a célebre fala marcou a carreira de Sérgio Mamberti, intérprete do ‘Doutor Victor’ do Castelo Rá-Tim-Bum, programa destinado ao público infantil que fez grande sucesso entre os anos 1990 e 2000. Além do feiticeiro, o ator deu vida a diversos personagens ao longo dos anos, e se despede das telas, dos palcos e da vida com um legado que permanecerá por gerações.
Sérgio Mamberti faleceu na madrugada de ontem (3), aos 82 anos, em São Paulo capital, em decorrência de falência múltipla de órgãos. A informação foi confirmada por um de seus filhos Carlos Mambert, que afirmou que o pai estava intubado desde o dia 28 de agosto, com uma infecção nos pulmões. O artista vinha enfrentando problemas de saúde ao longo deste ano, com outras duas internações por disfunção renal e pneumonia.
Nascido no dia 22 de abril de 1939, na cidade de Santos, litoral de São Paulo, dedicou mais de 60 anos de sua vida à arte e à cultura brasileiras. Em 1964, casou-se com Vivien Mahr, com quem teve três filhos: o também ator Duda, o diretor Fabrício e o produtor Carlos. A esposa morreu em 1980.
Em 2021, lançou a autobiografia “Sérgio Mamberti: Senhor do meu Tempo”, escrita com o jornalista Dirceu Alves Jr.No livro ele fala abertamente sobre a bissexualidade e seus dois amores: Vivian Mahr, com quem foi casado de 1964 a 1980, e Ednardo Torquarto, com quem viveu uma relação de 37 anos, até a morte de Ednardo, em 2019.
CARREIRA
Mamberti teve longa carreira no cinema, televisão e teatro. Formado em artes cênicas pela EAD (Escola de Arte Dramática) da Universidade de São Paulo, Sérgio foi, ao lado de seu irmão, Cláudio Mamberti, figura de extrema importância para a história do teatro brasileiro. Realizou montagens como "O Balcão", do francês Jean Genet, em uma releitura de 1968 que remetia diretamente ao que passava na Ditadura Militar, e também "Réveillon", conquistando o Prêmio Molière de Melhor Ator em 1975. Mamberti viveu rodeado pela arte, sem deixar que ela nunca morresse.
O ator colecionou inúmeros papéis de destaque. Foi nas séries que viveu seu personagem mais querido, o saudoso Doutor Victor do Castelo Rá-tim-bum. Porém, sua carreira nas telas começou muito antes. Mamberti reinou nas novelas. sua estreia foi na novela "Ana", da Record (1968).
Um de seus primeiros papéis de destaque foi como João Semana em “As Pupilas do Senhor Reitor” (1970). Somente em 1981 o ator estreou na TV Globo, como o Galeno de "Brilhante''. Depois ainda atou em “Anjo Mau” (1998), “O Profeta” (2007), “Flor do Caribe” (2013). Um de seus maiores sucessos foi o mordomo Eugênio na clássica “Vale Tudo” (1988).

O ator colecionou mais de 40 novelas, a última em que trabalhou, na Rede Globo, foi "Sol Nascente", em 2016, no papel de Dom Manfredo. Ele chegou a atuar na série "3%", da Netflix, e, em 2017, no sitcom "Eu, Ela e um Milhão de Seguidores", do Multishow.
Sérgio Mamberti também fez história no cinema. Em 1966 estreou com a comédia “Nudista à força”. Depois, emplacou inúmeros sucessos: “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), “Toda Nudez Será Castigada” (1973), “O Homem do Pau Brasil” (1980), “A Hora da Estrela” (1985), “A Dama do Cine Shangai” (1987). Ainda estrelou filmes infantis como “Xuxa Abracadabra” (2003) e “O Cavaleiro Didi e a Princesa Lili” (2006). Além disso, participou de produções como “A diarista" e "Os normais”, ambos da Rede Globo.
O artista ainda fez outros planos, aos 82 anos, que não chegaram a sair do papel: um longa-metragem e um documentário sobre a carreira, e uma série para a internet com seu personagem Doutor Victor.
POLÍTICA
Além de ator, diretor, produtor, autor, artista plástico, Mamberti esteve presente na política brasileira. Ao lado do ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva foi um dos fundadores, filiado e militante do PT (Partido dos Trabalhadores).
Durante os governos Lula e Dilma Rousseff, foi atuante no Ministério da Cultura, ocupando diversos cargos. Foi Secretário de Música e Artes Cênicas, Secretário da Identidade e da Diversidade Cultural, Presidente da Funarte (Fundação Nacional de Artes) e Secretário de Políticas Culturais.
Sua atuação na política e seus posicionamentos sempre foram fortes. Ele se posicionou contrário ao processo de Impeachment de Dilma Rousseff e deu força para o movimento "Lula Livre".
Nas redes sociais o ex-presidente petista, homenageou o ator e falou sobre a relação com o amigo. “A sua contribuição para a cultura brasileira nos palcos, no cinema, na TV, na Funarte e no Ministério da Cultura, na construção de políticas públicas para as artes nacionais é imensa. Se o povo brasileiro o admirava pelo seu talento, quem o conhecia de perto o admirava pela sua humildade, carinho e inteligência", escreveu Lula, que destacou a proximidade com o Sérgio.
LEGADO
Sérgio Mamberti deixa um importante legado artístico e político. Atuante na cultura brasileira representou toda uma batalha dos artistas em todos os campos da cultura. Além ator, era uma pessoa sempre antenada e participante. Ele teve papel fundamental não só nas revoluções do teatro brasileiro, como também na própria construção de políticas públicas para a cultura.
O artista sempre vinculou a construção de sua carreira artística junto com o pensamento nas políticas públicas para a área cultural, por isso Será lembrado não por seus eternos personagens, mas principalmente pelo amor à cultura brasileira que deixou no país.

*Renata Pardo, estudante de jornalismo e estagiária da redação da Folha da Região
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