Sem perceber vantagem em usar o biocombustível na cidade, os consumidores começam a fazer as contas e preferir a gasolina
O preço do etanol está, em média, 73% do valor da gasolina nos postos de Araçatuba. Com isso, os consumidores da cidade já têm preferido deixar o biocombustível de lado. Estima-se que para ser competitivo, o derivado de álcool não pode ter valor acima de 70% do concorrente. O volume de vendas tem ficado 10% do esperado.
A reportagem da Folha da Região percorreu os principais postos da cidade na tarde de ontem. O valor da gasolina variou entre R$ 5,889 e R$ 5,75. Já o etanol era vendido com preços de R$ 4,299 a R$ 4,27. A diferença entre os valores, em cada posto, variou de 72,88% a 74,26. A diarista Azaléia Domingues Silva, que abastecia seu carro em um posto na Avenida Brasília, disse que há duas semanas pelo menos tem preferido abastecer com gasolina. “A gente coloca gasolina e parece que foi bem pouco, mas acaba durando mais tempo. O álcool engana que tem muito, mas em dois dias dá para perceber a diferença”, comentou ela.
NÚMEROS
De acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), as vendas de etanol em julho somaram 1,366 bilhão de litros, o que corresponde aproximadamente 90% do volume de negócios de julho do ano passado. Este foi, de acordo com a agência, o segundo pior mês de consumo do biocombustível desde junho de 2020.
As vendas de etanol em julho de 2020 ainda refletiam, de maneira mais forte, os reflexos da pandemia sobre a circulação de carros. Agora, as vendas são afetadas pelo impacto da seca e das geadas nos canaviais, que reduziram a oferta de cana destinada para produção de etanol, disse Martinho Ono, diretor da SCA Trading. Com menos cana, as usinas estão priorizando a produção do etanol anidro para garantir a mistura à gasolina.
Outro fator, segundo ele, é o alto patamar do petróleo e do câmbio, que também estão elevando os preços do etanol que compete com a gasolina nas bombas. Como a oferta de etanol hidratado está menor, os preços do bicombustível não estão oferecendo vantagem para os motoristas de nenhum Estado do país. De janeiro a julho, as vendas de etanol hidratado somaram 10,6 bilhões de litros, um volume 8,7 bilhões de litros menor do que no mesmo período do ano passado.
Para Ono, o ritmo de produção de etanol neste ano deve dar conta de um consumo mensal de até 1,35 bilhão de litros. O cálculo considera que as usinas encerrarão mais cedo a moagem de cana por causa da falta de matériaprima.
Ele acredita que a maior parte das usinas encerrará a safra em outubro, 50 dias antes do usual. Se a demanda pelo biocombustível aumentar em algum mês, ele teme que a oferta não dê conta até o início da próxima safra.
VALORES
Se o preço da gasolina está chegando a patamares inéditos no país, o etanol hidratado (que abastece diretamente os tanques) não tem oferecido uma alternativa muito diferente aos motoristas brasileiros. Só na última semana, os preços do biocombustível bateram o recorde histórico em 15 Estados e no Distrito Federal. No mês, o valor é recorde em 19 unidades da federação.
Nos Estados onde o preço do etanol não bateu recorde em agosto, as marcas históricas haviam sido superadas há pouco tempo: em cinco deles, os recordes foram batidos entre junho e julho, e, em um, em março deste ano. O Rio Grande do Sul registrou o preço mais alto na semana passada, com o litro do etanol vendido, em média, por R$ 5,963, um recorde para o Estado. O biocombustível também bateu recorde em São Paulo (R$ 4,331 o litro), Minas Gerais (R$ 4,627), Paraná (R$ 4,676) e em mais 15 unidades federativas, de acordo com dados do último levantamento da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), realizado entre 22 e 28 de agosto.
Em 18 Estados e no Distrito Federal, os preços chegaram a ultrapassar os R$ 5 por litro na última semana e também na média móvel em quatro semanas, o que faz de agosto de 2021 o mês de preços mais altos do combustível renovável na história.
Na semana de 22 a 28 de agosto, o preço do etanol subiu em 19 Estados e no Distrito Federal e só caiu em outros sete Estados. Em nenhum deles o biocombustível oferece vantagem econômica evidente em relação à gasolina — em três Estados, o preço do etanol está abaixo de 75% do valor da gasolina, mas ainda acima de 70% do nível de paridade.
O biocombustível vem se valorizando todas as semanas em quase todos os Estados desde maio, a despeito de as usinas do Centro-Sul estarem em plena safra. A produção, porém, vem sendo reduzida diante do forte impacto da seca na produtividade dos canaviais e da decisão das usinas de dar prioridade à produção de etanol anidro, garantindo oferta para a mistura à gasolina.
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