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Setor de navegação teme nova paralisação da Hidrovia Tietê-Paraná

Por Redação |
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TRANSPORTE Entre 2014 e 2015, a movimentação na hidrovia foi paralisada por 20 meses, causando prejuízo de R$ 1 bilhão. (Divulgação)
TRANSPORTE Entre 2014 e 2015, a movimentação na hidrovia foi paralisada por 20 meses, causando prejuízo de R$ 1 bilhão. (Divulgação)

RISCO Paralisação da via impacta diretamente o escoamento de produtos agrícolas com destino à exportação; em 2015 prejuízo foi de R$ 1 bilhão

Alessandra Nogueira

Empresários do setor de navegação que operam na Hidrovia Tietê-Paraná acompanham com preocupação a possibilidade de interdição da via em função da falta de chuva nos últimos meses e da consequente crise hídrica, que normalmente começa em setembro, mas este ano teve início em maio, colocando em risco a geração de energia elétrica. A paralisação da via impacta diretamente o escoamento de produtos agrícolas do País com destino à exportação.

Entre 2014 e 2015, a movimentação na hidrovia foi paralisada por 20 meses, causando prejuízo de R$ 1 bilhão às empresas de navegação e 1,6 mil demissões no setor, segundo a CNT (Confederação Nacional do Transporte).

Sem chuva, o nível dos reservatórios das hidrelétricas diminui e a água do Rio Tietê passa a ser usada para compensar as per[1]das na geração de energia elétrica. Com o rebaixamento do nível do rio, a movimentação de cargas fica prejudicada.

O diretor da DNI Navegação Ltda, Nelson Michielin, acredita que o impacto de uma possível paralisação da hidrovia será ainda pior do que em 2014. "Os erros anteriores não foram corrigidos, este ano já está comprometido e 2022 será ainda pior, pois nada foi recuperado desde o sombrio 2014", afirmou.

O calado normal (profundidade mínima para as embarcações navegarem com carga) é de três metros, o que permite o transporte de 6,4 mil toneladas de produtos por embarcação. Entretanto, hoje, o calado adotado é de 2,7 mil metros, em função da falta de água, o que significa uma redução de 1,2 mil toneladas de produto transportado.

A DNI atua há mais de 30 anos na Tietê-Paraná, com o transporte de soja, farelo de soja e milho. O terminal de embarque da empresa em São Simão (GO) recebe os produtos, que são embarcados em comboios para a hidrovia. Cada comboio equivale a 200 caminhões quando o calado está no volume máximo de três metros.

Em Pederneiras (SP), os produtos dos comboios são embarcados em vagões da ferrovia com destino ao Porto de Santos, para exportação. Na época da safra, a empresa chega a ter 700 funcionários, com capacidade de transporte de três milhões de toneladas, o que representa uma movimentação de R$ 9 bilhões por ano em produtos transportados.

"Cada vez mais os reservatórios estão vazios, prejudicando todo o sistema da hidrovia e da energia elétrica gerada por hidrelétricas", afirma Michielin. "A crise se agrava diante das nomeações de pessoas não qualificadas para enfrentar os problemas anteriores, criando novos problemas pela falta de experiência", disse o diretor da DNI.

Ele afirma que, todos os anos, representantes da ANA (Agência Nacional de Águas), ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) e geradores de energia hidráulica, prometendo investimento em linhas de transmissão, a compra de energia elétrica da Argentina, Uruguai e Paraguai e o acionamento das termoelétricas. "Depois descobrem que não têm dinheiro para os investimentos, e quem paga tudo isso é a população, inclusive de baixa renda, via inflação e aumento do desemprego e da pobreza", completou.

A má gestão dos reservatórios, segundo ele, joga a água armazenada no Rio Paraná para Itaipu, que por sua vez, diante do excesso de água em seus reservatórios, para não correr o risco de problemas com a barragem, abrem os vertedouros despejando água no mar, em vez de gerar energia.

"Todos os anos eles repetem os mesmos erros, agravando ainda mais a crise hídriva que novamente não se recuperou do ano anterior, demonstrando todo amadorismo na 'governança' dos reservatórios".

Para o empresário, o problema pode ser resolvido com a nomeação de pessoas de carreira técnica e a extinção de cargos com indicação política. "E não dá para jogar a culpa exclusivamente na Covid-19, porque existem outras doenças que ninguém mais cuida.

E não dá também para jogar a culpa de não ter água em cima da crise hídrica, pois nada é feito para melhorar os reservatórios", afirmou. "O Ministério de Minas e Energia do Governo Federal sempre foi e é o principal culpado por toda a crise hídrica vivenciado nos últimos 40 anos, com a participação e contribuição do Governo do Estado de São Paulo na gestão Dória", finalizou.

A empresa MRS, que também atua na Hidrovia Tietê-Paraná, também está preocupada com a crise hídrica e, principal[1]mente, com o rebaixamento do Rio Tietê a níveis que não permitem a navegação dos comboios de carga como uma das soluções para amenizar o impacto na geração de enregia elétrica.

"A MRS vem investindo, ao longo dos últimos anos, para alavancar o transporte das cargas que são escoadas na intermodalidade com a hidrovia até o Porto de Santos. Já passamos por isso na crise hídrica de 2014 e 2015 e, juntamente com as empresas de navegação e os clientes, amargamos muitos prejuízos", afirmou a empresa, por meio de nota.

A expectativa da MRS é de que sejam encontradas pelo poder público alternativas que não sacrifiquem de forma tão dura este modal de transporte.

 "Outro ponto a ser observado é a necessidade da retomada de obras estruturantes para a citada hidrovia, principalmente o derrocamento do Canal de Nova Avanhandava, que permitirá, no futuro, a navegação em uma cota menor do que a atualmente necessária, reduzindo o risco de novas interrupções", ponderou.

Para a empresa, uma possível paralisação da operação neste trecho prejudicaria não apenas a MRS e seus clientes, mas acabaria minando a confiança do investidor neste corredor logístico.

A reportagem entrou em contato com a Secretaria de Transportes do Estado de São Paulo, a qual está vinculado o Departamento Hidroviário, mas não houve retorno até o fechamento desta edição.

"Falta manutenção na hidrovia, tudo foi abandonado", diz empresário

O diretor da DNI Navegação Ltda, Nelson Michielin, critica a falta de manutenção da Hidrovia Tietê-Paraná, ao afirmar que o terminal da empresa em Anhembi não opera há mais de dez anos, porque está com o trecho assoreado.

"Quando o Terminal de Anhembi parou suas atividades, além da paralização do terminal em si, afetou toda a cadeia de transporte e exportação para o Porto de Santos", relatou.

Ele afirma que o Departamento Hidroviário, da Secretaria de Transporte do Governo do Estado de São Paulo, é quem deveria fazer a manutenção da hidrovia, mas há quase 12 anos não faz o desassoreamento da região, impossibilitando o trafego hidroviário até Anhembi.

Conforme o empresário, o terminal de Anhembi chegou a fazer 60% da movimentação do transporte para o Porto de Santos via rodoviária.

"Depois de inúmeras licitações para o desassoreamento, o Departamento Hidroviário diz não ter recurso financeiro para proceder o desassoreamento da região, praticamente quase todos os funcionários do Departamento Hidrovário foram demitidos, sobrando pouquíssimos funcionários para manutenção e controle e execução de obras. A situação hoje é tão caótica que ninguém mais toma providência na manutenção da hidrovias, ou seja, foi tudo abandonado", afirmou.

Outro problema é o canal de Pereira Barreto que, segundo ele, está sendo assoreado pela ausência de manutenção, e a explosão do pedral do canal de Nova Avanhandava, que deveria ter sido feito há 40 anos, na construção da hidrovia, para permitir um calado maior.

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