Preservação da saúde do planeta é imprescindível para a continuidade das gerações futuras, em um mundo em que existe qualidade de vida para todas as espécies; pesquisadores analisam causas e consequências das mudanças climáticas
Bryan Belati
O Dia Mundial do Meio Ambiente, que foi comemorado ontem (5), chama a atenção sobre a necessidade do reequilíbrio da natureza para garantir a saúde do planeta e, consequentemente, da humanidade.
A data marca também o lançamento da Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas (2021-2030), com o objetivo de aumentar em grande escala a restauração de ecossistemas destruídos para combater a crise climática, evitar a perda de um milhão de espécies e aumentar a segurança alimentar, o abastecimento de água e a subsistência.
A Década lembra que, sem os ecossistemas regenerados, não será possível alcançar os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) ou do Acordo de Paris, que estabelece metas para mitigar os efeitos do aquecimento global.
O Brasil lembra o Dia Mundial do Meio Ambiente em meio a inúmeros desafios, como a escalada do desmatamento ilegal em biomas como a Amazônia, o Cerrado e a Mata Atlântica; o retorno do risco de apagão e a crise no abastecimento de água em grandes metrópoles; além de uma série de problemas urbanos que são recorrentes principalmente no verão, como enchentes, ilhas de calor e problemas de saúde.
Carlos Rittl, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN) e senior fellow no Instituto para Estudos Avançados em Sustentabilidade (IASS) na Alemanha, ressalta que a perda de ambientes naturais e as mudanças climáticas estão interligadas.
Segundo ele, a capacidade de enfrentar os desafios impostos pelo aquecimento global depende totalmente da proteção, da restauração e da gestão sustentável de ecossistemas naturais, conforme alerta a ONU (Organização das Nações Unidas).
“Além da redução de emissões de gases de efeito estufa, cuidar da natureza é também o melhor seguro para nossa adaptação aos efeitos das mudanças climáticas. Proteger e restaurar florestas assegura água para nossas lavouras, para nossas torneiras e chuveiros e também para a geração de energia”, explica o pesquisador.

No contexto de eventos climáticos extremos, cada vez mais recorrentes devido ao aquecimento do planeta, aliar serviços oferecidos pela natureza ao planejamento urbano torna-se um fator estratégico. “As Soluções Baseadas na Natureza promovem intervenções inspiradas em ecossistemas saudáveis para enfrentar desafios urgentes da sociedade, especialmente nas grandes metrópoles. Escassez hídrica, enchentes, desaparecimento da biodiversidade, problemas de saúde e avanço do nível do mar são algumas das questões que podem ser enfrentadas considerando a natureza como parte da solução, gerando benefícios ambientais, sociais e econômicos”, conta André Ferretti, gerente sênior de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário.
Nesse sentido, Rittl ressalta que, além de cuidar melhor das florestas, a reconexão com a natureza deveria ser prioridade nas áreas urbanas e regiões costeiras. “Arborizar as cidades, além de cuidar e ampliar as áreas verdes existentes nas metrópoles, ajuda a reduzir os efeitos das elevações da temperatura do ar e das ilhas de calor. E preservar e restaurar manguezais nos protege da erosão costeira provocada pela elevação do nível do mar.”
Segundo dados de 2018, menos de 1% da oferta de água no país provém de reúso de efluentes tratados. Enquanto isso, em Israel, país que convive com a escassez desde sua origem, 70% da oferta vem da reutilização de efluentes.
Por isso, um dos ecossistemas mais ameaçados e, em grande medida, ainda desconhecido da maioria da população, é o oceano. Apesar de cobrir mais de 70% da Terra, regular o clima, gerar mais de 50% do oxigênio que respiramos e ainda oferecer diversas oportunidades econômicas, como o turismo e a pesca, a saúde dos mares corre perigo.
O aquecimento global, que ameaça especialmente os recifes de coral, a sobrepesca e a poluição decorrente de atividades econômicas insustentáveis são algumas das principais ameaças. “Precisamos unir esforços para restaurar ecossistemas marinhos e tornar as comunidades costeiras mais resilientes. O primeiro passo é ampliar nossa consciência sobre o problema e compartilhar ideias e soluções para que possamos usufruir os benefícios de um oceano limpo e saudável”, avalia o gerente de Conservação da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário Emerson Oliveira.
ÁGUA
O uso da água potável no país deverá crescer 24% até 2030, superando a marca de 2,5 milhões de litros por segundo, segundo dados do Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil. Embora sejamos uma das nações mais ricas na disponibilidade de água doce no mundo, abusamos dessa abundância natural e perpetuamos uma cultura do desperdício.
Até 2030, o uso de água, que já é grande no país, deverá aumentar em 24%, porém apenas 1% da oferta deste recurso é oriunda de reaproveitamento. Na cidade de Hidrolândia, a 36 quilômetros de Goiânia, um projeto pioneiro de fertirrigação em indústria de lacticínios mostra que é possível aumentar esse percentual de reuso.
Para se ter uma ideia, segundo o estudo da CNI (Confederação Nacional da Indústria) “O Impacto Econômico dos Investimentos de Reúso de Efluentes Tratados para o Setor Industrial”, de 2018, menos de 1% da oferta de água no país provém de reúso de efluentes tratados. Enquanto isso, em Israel, país que convive com a escassez desde sua origem, 70% da oferta vem da reutilização de efluentes.

Estima-se que o reúso de água não potável seja de 2m³/s, uma vazão ínfima perto do total da água retirada no País, 2.083 m³/s segundo dados do estudo Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil, de 2018. A meta proposta pelo governo federal é que o reúso não potável direto no Brasil alcance 13 m³/s até 2030.
E é frente a esse desafio ambiental enorme que iniciativas como da indústria de laticínio Marajoara, localizada na cidade goiana de Hidrolândia, a 36 quilômetros de Goiânia, merecem ser aplaudidas e copiadas.
A empresa inaugurou recentemente um inovador projeto de fertirrigação desenvolvido em que direciona a água residual de seus processos fabris, que é tratada de sua própria ETE (Estação de Tratamento de Resíduos), para um pasto de aproximadamente 14 hectares, vizinho à sede da indústria.
“O nosso sistema de tratamento da água por flotação assegura uma eficiência superior a 90%, bem mais do que os 60% exigidos pela legislação ambiental. Até então, essa água já devidamente tratada era lançada no Córrego Grimpas. Porém, com esse projeto de fertirrigação conseguiremos dar uma destinação mais sustentável para essa água”, diz o presidente do Grupo Marajoara, André Luiz André Luiz Rodrigues Junqueira.
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