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Para além da pandemia, solidariedade não tem hora, ensina Akira Hayashida

Por Redação |
| Tempo de leitura: 8 min

“A situação da Covid-19 é grave, realmente muito preocupante, mas temos a chance de tirar grandes lições da pandemia e nos tornarmos pessoas melhores se entendermos e agirmos em favor da convivência solidária. Passou da hora de unirmos as nossas capacidades e compartilharmos as nossas experiências".

Aos 77 anos, o oftalmologista Akira Hayashida tem muito a ensinar. Filho de um imigrante japonês com uma descendente - os dois eram lavradores -, falou somente japonês até aos sete anos de idade, sendo alfabetizado em uma escola pública rural. Aprendeu outras línguas. Poliglota, Hayashida é fluente em português, inglês, espanhol, francês e japonês.

Formado em oftalmologia pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (antiga Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), em 1970, é pós-graduado em Neuro-oftalmologia pela Pontifícia Universidade Católica PUC) do Rio de Janeiro. Mais de quatro décadas de atuação profissional depois, renomado e reconhecido, decidiu tornar-se chefe escoteiro e criou o projeto BOA (Banco de Óculos de Araçatuba), com o qual ganhou em 2019 o prêmio Walter Dohme, conferido aos escoteiros do estado de São Paulo.

Em entrevista exclusiva à Folha da Região, Hayashida fala sobre empenho, dedicação, disciplina e solidariedade.

Como médico e escoteiro, o senhor acredita que seremos seres humanos melhores depois da pandemia?


Quero acreditar que sim, pois penso que, de forma geral, a humanidade evoluiu após grandes catástrofes. Para isso, precisamos ser mais empáticos nutrindo sentimentos de coletividade e solidariedade. Enxergo como oportunidade. Mas cada um precisa fazer a sua parte, independentemente de ideologia ou preferência político-partidária. Na Alcateia e na Tropa Samurai, por exemplo, os encontros dos jovens têm ocorrido de forma virtual, mas estamos realizando arrecadações de alimentos, produtos de higiene, roupas e calçados que encaminhamos a organizações sociais.


Em tempos de polarização de opiniões, é possível falar em união e trabalho conjunto durante a pandemia?


Penso que sim. Do ponto de vista sanitário há todo um protocolo disponível, que inclui testagem, monitoramento, tratamento, distanciamento, uso de máscara, higienização, vacinação, exame de anticorpos imunizantes. Mas é preciso entender que, na questão financeira, a pandemia não impacta todos da mesma forma. Temos que relevar a angústia de quem necessita trabalhar para colocar comida dentro de casa. Enfrentamos uma mesma tempestade, mas em barcos diferentes. Economicamente, quem tem mais poder aquisitivo e reservas tende a sofrer menos. E este segmento, mais a iniciativa privada, o poder público e o terceiro setor devem agir de forma coordenada pelo bem de todos. Não me atrevo a formular um plano para isso, mas nos encontramos em uma etapa do desenvolvimento da humanidade no qual certamente há um ponto de equilíbrio para lidarmos melhor com esta situação.


O que levou o senhor, médico renomado, com quase 80 anos, a engajar-se voluntariamente no Movimento Escoteiro?


Percebi que poderia e deveria retribuir à sociedade ao menos um pouco do que conquistei ao longo da vida. Em 2018, participei de um evento em São Paulo representando a Nipo (Associação Cultural Nipo Brasileira de Araçatuba), e fui abordado por uma pessoa que perguntou se eu tinha interesse em criar um novo grupo de escoteiros aqui - já havia o grupo Do Bosco. Fiquei curioso e interessado. Sem ter feito parte do escotismo, busquei informações e identifiquei-me com o movimento, que estimula crianças e jovens a participar do aprendizado colaborativo e das tomadas de decisão, com o objetivo de desenvolver o trabalho em equipe eficaz, as habilidades interpessoais, a liderança, e criar um senso de responsabilidade e pertencimento. Encontrei outras pessoas que tinham a mesma intenção, de expandir a ação em Araçatuba, e fiz o intermédio com a ACEA (Associação Cultural e Esportiva de Araçatuba), que cedeu espaço para a sede da Alcateia e da Tropa Samurai, que fundamos há três anos. Hoje, sou chefe escoteiro.


Como consegue conciliar o tempo entre a profissão, o escotismo e também com a Nipo, já que o senhor também trabalha em favor da valorização da cultura japonesa?


Acho que faz parte da minha disciplina oriental. E sempre foi assim. Ao longo da minha carreira, participei de inúmeros congressos, cursos e convenções, no Brasil e no exterior, e encontrei tempo para participar de outras atividades que considero importantes. Veja: sou formado na PUC do Rio de Janeiro; tenho especialização no Departamento de Oftalmologia da Universidade de Nagasaki; fui oftalmologista visitante nas universidades de Tokyo, Kumamoto, Kyushu, Londres, Zurique e do Instituto Barraquer, de Barcelona, na Espanha; faço parte da Academia Americana de Oftalmologia, na qual participa, de dois em dois anos, do Congresso de Oftalmologia. E com tudo isso mantive e mantenho uma relação estreita com Nipo. Já fui vice-presidente por duas gestões, diretor cultural e diretor do Departamento de Ensino da entidade. Também cheguei a ser diretor do Departamento de Cultura da ACEA e vice-presidente da Associação Cultural para Difusão da Língua Japonesa da Noroeste. Não podemos perder de vista as nossas raízes, é preciso valorizar a nossa ancestralidade, que nos traz ensinamentos, forma a nossa identidade e nos dá riqueza cultural. Atualmente, dedico grande parte do meu tempo ao escotismo. Estou apaixonado pelo movimento, que, por meio da proatividade, da preocupação com o próximo e com o meio ambiente, contribui na formação de jovens engajados em construir um mundo melhor, mais justo e mais fraterno.


Conte como foi a experiência de criar um projeto dentro do grupo Samurai e com ele ganhar o prêmio Walter Dohme?


Em 2019, dei uma ideia ao grupo, sugerindo o projeto BOA (Banco de Óculos de Araçatuba), que foi prontamente aceito. Por meio do BOA, óticas e oftalmologistas parceiros arrecadam armações de óculos de grau, que recebem lentes corretoras e são doados a pessoas em situação de vulnerabilidade social. O projeto foi concebido como forma de promover a responsabilidade social entre as crianças integrantes do grupo Samurai, estando em consonância com o lema principal dos escoteiros, que é "Sempre Alerta Para Servir". Inscrevemos o BOA em uma das categorias do prêmio Walter Dohme e fomos agraciados. A minha alegria foi imensa. Trata-se de um reconhecimento a adultos voluntários atuantes em unidades escoteiras do estado de São Paulo.


Na prática, é difícil para o senhor lidar com crianças e adolescentes escoteiros?


Quando a gente gosta do que faz e faz bem feito, não há dificuldade. É trabalhoso sim, mas difícil, não. Os chefes são muito bem treinados e as ações, são lúdicas, sendo que os jovens se divertem e entendem como devem agir. Preciso explicar que crianças e adolescentes são divididos conforme a faixa etária, para que o Programa Educativo possa ser trabalhado em todas as áreas de desenvolvimento (físico, intelectual, social, afetivo, espiritual e de caráter) com base nas características individuais de cada fase. Temos a preocupação em inserir esse programa no cotidiano dos jovens, de acordo com suas necessidades de crescimento e do meio no qual eles se desenvolvem, se adaptando a diferentes realidades e respeitando a autonomia de cada um.


Qual o sentimento por ser homenageado pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) pelos 50 anos de exercício ético da profissão?


É uma honra tremenda. A cerimônia de homenagem aos 50 anos de exercício ético da Medicina, envolveu mais de 1.115 mil médicos paulistas, formados em 1968 e 1970 que, durante todo o seu tempo de atuação, não cometeram infrações éticas relativas à profissão. Tenho a felicidade de ser um deles. Nestes tempos em que vivemos, de inversão de valores, esperteza e corrupção desenfreada, creio que seja importante valorizarmos os profissionais que escolhem e seguem o caminho da seriedade e da ética.


Em relação à oftalmologia, algo ainda o aflige depois de 50 anos de atuação?


Tenho a impressão que vivenciei a maioria das doenças oculares, mas a que mais me preocupa é o glaucoma, pois é a primeira causa de cegueira não reversível do mundo. Alguns fatos justificam essa situação. Trata-se de uma doença assintomática, falta conhecimento à população, dificuldade de acesso ao sistema de saúde e o custo do tratamento é elevado. Em alguns casos chega a consumir 20% da renda familiar, entre outros. O glaucoma tem que ser tratado como problema de saúde pública e tentar a solução com a atuação conjunta do oftalmologista, paciente e sistema de saúde. Chamou-me atenção também um dado relativo à oftalmologia exposto em pesquisa do IBOPE, realizada em 2020. Entre as classes A, B e C, acima de 18 anos, constatou-se que 10% da população nunca foi ao oftalmologista, e numa faixa mais jovem, entre 18 e 24 anos, o índice sobe para 21%, sendo maior na classe C do que na A. Outro fato que me preocupa como médico é a abertura indiscriminada de faculdades de Medicina, sem a mínima preocupação com a qualidade de formação dos futuros médicos. Só para comparação, em 1965, quando comecei o curso médico, eram 39 faculdades, e hoje já existem mais de 300.


O que o senhor tem a dizer a outras pessoas sobre o trabalho voluntário?


Para ser solidário não há hora, não há tempo, nem idade. Eu, que sempre participei de ações não remuneradas na Nipo, desdobrei-me um pouco mais para assumir outro compromisso, com o movimento escotista. Mas uma coisa são ações pontuais de solidariedade e outra é o trabalho voluntário. Neste caso, para o voluntariado deve haver comprometimento, e você tem que ter iniciativa, motivação, disponibilidade, empatia, respeito, estar aberto a novas experiências, assim como preparado para o trabalho em equipe. Pense em como contribuir de forma relevante com uma causa, projeto ou entidade. Você pode ser jovem, adulto, idoso. Faz bem ao seu semelhante, e principalmente, a você mesmo. Eu estou com quase 80 anos e estarei atuante na oftalmologia, na Nipo e no grupo Samurai até quando a minha saúde permitir.

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