Araçatuba

Entrevista: A pandemia acentuou a desigualdade de gênero e afetou mais as mulheres negras, diz Edna

Por Redação |
| Tempo de leitura: 8 min

A pandemia da Covid-19, decretada no dia 11 de março do ano passado pela OMS (Organização Mundial de Saúde), foi muito mais severa para as mulheres. Estudos das mais diversas instituições mostram que a violência contra elas aumentou significativamente, como também foram as empresas e os trabalhos delas os mais afetados pela desaceleração da economia mundial do período.

A vice-prefeita de Araçatuba, Edna Flor (Cidadania), que é advogada e militante de diversas causas sociais, participou, ao longo do mês passado, de uma série de debates sobre o tema e, entrevista exclusiva para a Folha da Região, faz um balanço do período e denuncia que as mulheres negras foram ainda mais vítimas no Brasil pandêmico.

“A desigualdade social no Brasil tem um viés racista, sendo que as mulheres negras compõem a maioria no mercado informal de trabalho ou mesmo tem funções com menor salário, o que em ambos os casos, trouxe dificuldades para a manutenção das despesas básicas”, afirma ela. Leia a entrevista:

A senhora participou, no mês de março, de uma série de eventos ligados à participação da mulher na sociedade. Quais são foram os principais pontos e o que a senhora traz para si deles?

Sim, participei de pequenas reuniões presenciais e de algumas reuniões on-line relativas à mulher e às temáticas de saúde mental, violência doméstica, geração de trabalho e renda, empreendedorismo e a gestão pública. De todos eles, destaco que houve uma preocupação comum dos órgãos de defesa dos direitos da mulher, de órgãos públicos da área da saúde e mesmo das instituições várias, como as do Sistema S, organizações não governamentais, observatórios, núcleos de estudos sociais e de economia, secretarias ou coletivos de mulheres de Partidos Políticos, órgãos de imprensa e etc, com os impactos da pandemia para as mulheres. Esta preocupação decorre do fato de que é sabido que no Brasil, apesar da igualdade prevista na Constituição, impera, ainda uma grande desigualdade de gênero e que isto impactaria negativamente, e de forma mais acentuada, a vida e a saúde das mulheres. Pesquisas realizadas, em diferentes áreas, infelizmente, confirmaram que isto realmente está acontecendo.

Como a pandemia afetou especialmente as mulheres?

São várias e diferentes formas de impacto negativo para as mulheres. O trabalho doméstico, que, na maioria das famílias é atribuído à mulher, aumentou, com maior número de pessoas em casa, inclusive as crianças. É sabido que entre os trabalhadores informais, a mulher compõe a maioria e muitas não puderam exercer inclusive trabalhos como empregadas domésticas, faxineiras, cozinheiras, sendo dispensadas pois seus respectivos empregadores, passaram a assumir temporariamente estas tarefas, por medidas de prevenção ou mesmo para conter gastos. Especialmente quanto á geração de renda, o Sebrae tem estatísticas que demonstram que a crise do novo coronavírus atingiu diversos negócios pelo Brasil, impactando especialmente os liderados por mulheres empreendedoras. O Sebrae, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas apurou que, desde o início da pandemia, 52% das micro e pequenas empresas lideradas por mulheres paralisaram "de vez" ou temporariamente as atividades. Um dos piores impactos, porém, na minha opinião foi relativo à violência contra a mulher, ante ao convívio por maior tempo em casa, com agressores. Ao lado dos filhos, a mulher muitas vezes, precisa “disfarçar”, tentar minimizar as ofensas sofridas ( o que lhe traz comprometimento de sua saúde mental, como angústia, depressão, ansiedade...). O isolamento social dificultou, também, o pedido de apoio a amigos e familiares que muitas vezes só percebiam as agressões em visitas. Soma-se a estas dificuldades o fato de que muitos órgãos da rede de apoio suspenderam atendimentos presenciais e mesmo os on-line dependem de agendamentos ou de recursos tecnológicos que muitas mulheres não dispõem, não conseguem acessar ou não podem utilizar na frente do agressor que também está em casa. Assim, o aumento dos homicídios de mulheres e feminicídios em todo o Brasil, está relacionado a esta convivência em espaço comum entre as vítimas e autores, ao agravamento de episódios de violência pré-existentes, bem como à suspensão, ou modificação de serviços prestados por instituições de acolhimento a vítimas de violência doméstica, ou até mesmo ao distanciamento das redes de apoio de familiares e amigos. Ressaltamos, ainda, que é maior o percentual de mulheres trabalhadoras nas áreas da saúde e da assistência social, que são áreas prioritárias de cuidado com pessoas neste momento. Estas precisam de cuidados especiais, ante o cansaço físico e mental, com tantos desgastes emocionais por vivenciarem situações tão aflitivas.

A mulher negra e pobre foi ainda mais afetada pela pandemia? De que forma?

Sim, porque é comprovado que a desigualdade social no Brasil tem um viés racista, sendo que as mulheres negras compõem a maioria no mercado informal de trabalho ou mesmo tem funções com menor salário, o que em ambos os casos, trouxe dificuldades para a manutenção das despesas básicas. No que tange ao empreendedorismo, pesquisa do Sebrae em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, mostra que as empresas lideradas por empreendedoras negras têm maior dificuldade de funcionar de modo virtual e conseguir empréstimos bancários. Em agosto de 2020, esta pesquisa revelou dados e números que entristece e causa indignação. De acordo com o levantamento, os pequenos negócios liderados por mulheres negras representam a maior proporção entre as empresas que ainda permanecem com a atividade interrompida, são o grupo com maior dificuldade de funcionar de forma virtual e reúnem a maior proporção de empreendedores que tiveram crédito bancário negado em razão do CPF negativado. Os percentuais desta pesquisa revelam em documentos disponibilizados publicamente pelo Sebrae: “36% das empreendedoras negras estão com a atividade interrompida temporariamente: proporção cai para 29% entre as empresárias brancas e 24% entre os homens brancos (entre os homens negros, essa proporção é de 30%). Essa dificuldade enfrentada pelas mulheres negras para manterem suas empresas em atividade é explicada, em parte, pelo fato de que os seus negócios só conseguem operar de forma presencial (27%). Entre as mulheres brancas essa proporção cai para 21% e entre os empreendedores brancos esse segmento representa 20% (entre os empresários negros esse percentual é de 25%).” O acesso a crédito também é dificultado e de acordo com o levantamento, 58% dessas empreendedoras negras que pediram empréstimo não conseguiram obter crédito. As instituições financeiras alegam que a recusa é porque que as mulheres negras apresentaram a maior proporção de CPF negativados.

Como a política, aplicada ao cotidiano, pode influenciar em favor das mulheres?

Como vimos pelas perguntas anteriores, os impactos negativos na vida das mulheres, acentuados durante a pandemia, decorrem da desigualdade, do preconceito, do machismo que impõem tarefas e atribuições excessivas e da violência nas suas múltiplas formas. Todos estes fatores só podem ser minimizados e – se Deus quiser um dia – extirpados da nossas relações sociais, com políticas públicas eficazes na área da educação. Além desta ação que é mais demorada por tratar de construção de valores, é necessário o investimento constante nos órgãos de defesa do direito da mulher, como o Centro de Referência da Mulher e o fortalecimento da rede de proteção, que envolve a área da Saúde, dos agentes comunitários da Estratégia da Saúde da Família, à rede de Saúde Mental, incluindo os CAPs. Indispensável, ainda, a integração com os setores de geração de trabalho e renda, empreendedorismo, bem como órgãos da Defensoria Pública e da Segurança. Para estas ações positivas de mudanças, mister se faz uma maior participação das mulheres nos espaços de decisão, especialmente na política.

Como a senhora, no cargo de vice-prefeita, tem agido efetivamente a favor das mulheres?

Tenho buscado apoiar e fortalecer as ações do Centro de Referência da Mulher, da Secretaria do Desenvolvimento Econômico quer realiza cursos de capacitação e aprimorar a legislação dos Conselhos Municipal de Defesa do Direito das Mulheres, além de contribuir na articulação com organismos como o Sebrae, Senac. Sesi, Senai e Sest-Senat, que têm experiências muito positivas para o cuidado, a valorização da mulher e a inserção qualificada no mercado de trabalho ou de geração de renda. Tenho muito alegria em ter contribuído para a efetivação da parceria da Defensoria Pública com o nosso Centro de Referência da Mulher, bem como com a implantação e continuidade das ações do Cravi (Centro de Referência e Apoio às vítimas de Violência), órgão vinculado à Secretaria Estadual de Justiça e Cidadania. Considero muito positiva também e busco formas de implementar as ações, projetos e iniciativas de Vereadores e Vereadoras que visam à superação de violências e a valorização das mulheres.

Os espaços de poder ainda são um lugar predominantemente masculino? Como isso tem mudado ou deveria mudar?

Infelizmente isto ainda é verdade, por razões históricas, como sabemos. Temos tido alguns avanços muito importantes como a maior participação de mulheres á frente do Executivo, com mandatos ou em secretarias municipais, em Câmaras Municipais, mas estes avanços precisam ser ampliados e acelerados com o encorajamento de mais mulheres para participar da Política.

Sobre o tema das mulheres, como a senhora gostaria que os leitores da Folha da Região refletissem nesta Páscoa?

Penso que é muito importante a compreensão, a empatia e a solidariedade com a situação das mulheres nesta Pandemia, especialmente com as trabalhadoras da Saúde, as que atuam na área da Assistência Social, para ajudar emergencialmente com alimentos e gêneros de higiene e limpeza, as trabalhadoras da Educação que precisaram se reinventar neste período... Gostaria de pedir licença, nesta pergunta final, para enviar meus cumprimentos sinceros, meu modesto mas profundo e verdadeiro reconhecimento e gratidão a homens, mulheres e a todas as pessoas do setor público, privado, das Igrejas, dos grupos religiosos de todas as crenças ou denominações, das organizações da sociedade civil, da instituições de ensino, profissionais da psicologia, entre tantos outros que se desdobraram para ajudar, fazer campanhas de arrecadação, buscar formas de atendimento virtual , enfim que há mais de um ano estão firmes na construção da rede de cuidado e solidariedade. Assim como a vacina é imprescindível e urgente para conter a pandemia, esta rede de amor e de cuidado há de manter viva a esperança, pois como diz poeticamente a canção: “uma dor assim pungente, não há de ser inutilmente”.

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