A Covid-19 foi muito mais mortífera entre pessoas negras do que entre as brancas no estado de São Paulo ao longo de 2020, quando 46,7 mil pessoas morreram em decorrência da doença no território paulista, mostra um estudo inédito da Vital Strategies com apoio do Afro-Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Os dados colocam São Paulo, onde 40% da população é negra (preta ou parda), na liderança da desigualdade racial no país durante a pandemia de Covid-19 e extrapolam disparidades já existentes. A análise foi feita a partir de dados do SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade do Ministério da Saúde) e do sistema de informação da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais e indica que o excesso de mortes registrado no estado entre os negros (pretos e pardos) foi mais do que o dobro do que aquele registrado entre os brancos.
O excesso de mortes é o número de óbitos superior ao que era esperado para o período levando em conta uma série histórica. A estratégia é recomendada pela OMS (Organização Mundial de Saúde) para avaliar os efeitos diretos e indiretos da pandemia. A expectativa de número de mortes entre negros e entre brancos em um ano comum difere, resultado da desigualdade social no país. Por isso, para chegar à conclusão sobre o efeito da doença, é importante observar o salto desse excesso de mortes em cada grupo. Foi o que a equipe coordenada pela médica Fátima Marinho, pesquisadora sênior da Vital e coordenadora do estudo, fez: para os brancos, esse excesso foi de 11,5%; para os negros, o salto chegou a 25,1%. A discrepância é ainda mais drásticas quando observador o excesso de mortes nas faixas mais jovens, de até 29 anos. Neste caso, o excesso de mortes entre os negros chega ao quádruplo dos brancos.
O método considera todos os óbitos por causas não externas (acidentes, mortes violentas), independentemente da causa básica de morte. Assim, o resultado não sofre interferência da conhecida subnotificação da Covid e contempla as mortes indiretas pela pandemia, causada, por exemplo, pela sobrecarga nos hospitais públicos e interrupção de tratamento de doenças crônicas. A desigualdade ocorre também no nível nacional. No Brasil todo, houve um excesso de mortes de 27,8% para pretos e pardos enquanto para os brancos foi de 17,6%. Apesar de todas as regiões terem apresentado excesso de mortalidade, é no Sudeste, em especial em São Paulo, e no Sul (Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná), onde aparecem as maiores taxas de desigualdades raciais. O impacto das disparidades sociais na perda de saúde da população negra pobre é muito conhecido. Elas determinam, por exemplo, uma menor expectativa de vida comparado com a população branca, maior mortalidade infantil e mais mortes por causas evitáveis e por violência. Com a pandemia, a perda de saúde dos negros foi somada à dificuldade de se fazer isolamento social, afirma Marinho.
As grandes diferenças estão nos extremos etários, nos jovens e nos idosos. “Um porque sai de casa para trabalhar, pega transporte público lotado, e outro porque não consegue ter distanciamento dentro de casa, das comunidades, e porque já perdeu muita saúde à medida que foi envelhecendo”, diz a médica. Para a socióloga Márcia Lima, professora da USP e pesquisadora do Afro-Cebrap, núcleo de pesquisa e formação sobre a questão racial, a pandemia revela de forma mais contundente a histórica desigualdade racial. “O caminho para enfrentála passa pelo fortalecimento do SUS e de seus programas e o investimento nos equipamentos públicos de saúde das periferias”, diz. Lima lembra que, 2009, houve avanço com a aprovação da política nacional da saúde população negra, fruto de uma longa batalha das ativistas negras dentro do Ministério da Saúde. “Infelizmente, no momento de avançar na implantação dessa política coincide com um governo que não toma esse debate como agenda. Pelo contrário, o desqualifica.” O advogado Pedro de Paula, diretor da Vital Strategies no Brasil, diz que em outros países, como os Estados Unidos, também ocorreram disparidades raciais na pandemia, mas há políticas públicas em curso para tentar atenuá-las —por exemplo, priorizar a vacinação dos mais vulneráveis. “Nos EUA, há uma busca ativa e comunicada desses grupos, com esquemas diferentes de vacinação, locais e horários”, afirma. No Reino Unido, ocorre o mesmo. “Foram identificadas as áreas mais vulneráveis e os mais vulneráveis dentro delas.
O critério não é só idade”, reforça Fátima Marinho. Segundo Márcia Lima, a vulnerabilidade está associada às necessidades de circulação para chegar ao trabalho, à situação das pessoas que vivem em áreas com menos estrutura domiciliar, às condições da população de rua e outros grupos que não têm recursos para uma proteção mínima contra a Covid-19. Para Marinho, o Brasil deveria estar olhando para isso também em vez de priorizar apenas a faixa etária. “O idoso que mora no Morumbi e o idoso que mora em Paraisópolis não são iguais. Se não olharmos para isso, vamos proteger quem já está protegido.”
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