*Priscilla Andrade*
Quando chegamos na casa de Rodolfo Rodrigues de Carvalho, assistente comercial em Birigui, ele estava sentado sozinho em um grande sofá. O móvel ficou grande demais agora, antes era o lugar onde a avó e dois tios, gostavam de descansar, mas não poderão visitá-lo.
Rodolfo perdeu três familiares em um curto espaço de tempo para a Covid-19. A avó de Rodolfo, dona Neide Rodrigues Passeli, morreu no dia 10 de fevereiro, no dia em que os profissionais das Unidades Básicas de Saúde estavam em greve, começou aí o drama da família em busca de atendimento. “Minha avó faleceu dormindo, em casa, fomos até a casa dela, o corpo dela estava na cama, precisamos ligar para a Polícia Civil, porque ninguém se dispôs a remover o corpo até o Hospital.
Segundo os agentes da UBS, não haviam médicos no local, não havia um médico que pudesse fazer o laudo da minha avó, porque só depois disso o corpo poderia ser lacrado”, lembra Passeli. Foram horas tentando contato em vários locais de Birigui que pudesse encontrar um profissional que atestasse o óbito da avó de Rodolfo, segundo a família, a resposta só veio depois da mobilização de amigos, que conseguiram contratar um médico particular. “Das oito horas da manhã até as duas da tarde a minha avó ficou com corpo a mostra, não sabíamos o que fazer. A resposta que obtivemos era de que não havia em Birigui um protocolo de covid na residência, a gente literalmente não soube o que falar, então acreditamos nessa informação” diz.
Depois que declararam a morte de dona Neide, a família conseguiu dar entrada em um outro processo, e de novo começou outro drama. “Depois de esperar horas por um médico que não veio, enfrentamos outra situação indigna, não haviam sacos para lacrar o corpo da minha avó, quando conseguimos lacrar, e nós mesmos a levantamos, o zíper estourou e o saco rasgou. Tivemos que improvisar, pegamos um lençol e a levamos até a sala arrastada. A única pessoa que estava representando o serviço público a que temos direito, foi uma funcionária da vigilância sanitária, que se compadeceu com nossa situação” conta.
No dia 10 de fevereiro, foi um dos três dias em que os profissionais da saúde cruzaram os braços em Birigui por falta de salário, dona Neide morreu há poucos metros da UBS no bairro Colinas, ela se consultava no local, e quando a família precisou, não havia atendimento. “Se tivesse médico á disposição, ele poderia ter vindo em casa, atestado o óbito e liberado o corpo da minha avó, poupando a todos nós desse constrangimento”, comenta Rodolfo.
Em um intervalo de sete dias, a família perdeu três parentes, além da dona Neide, os tios, Deividi Cheregatto, 33, e Silvana Passeli, 54 para a doença. Os tios também penaram para conseguir leitos de UTI no Pronto Socorro Municipal. A família acredita que a demora na internação e no atendimento foi decisivo para a piora e morte dos familiares. “São 240 mil mortos hoje no País por conta da Covid, então não entra na minha cabeça que não exista um protocolo que atenda quem morre em casa com sintomas da doença.
O teste tá demorando 10 dias pra sair, minha avó apresentou sintomas, ela fez o teste, o resultado só saiu depois que ela morreu. Até hoje estamos esperando a ligação da Secretaria da Saúde, para verificar como estamos, já que fomos expostos ao vírus”, preocupa-se.
UM MÊS DE CRISE NA SAÚDE
Um mês após o início da maior crise já registrada na saúde pública municipal de Birigui, os problemas que levaram a prefeitura a decretar estado de calamidade pública ainda não foram resolvidos. A cidade registrou 6.450 casos de covid-19 e 173 mortes. Os 14 médicos da OSS Santa Casa de Birigui que prestam atendimento nas Unidades Básicas de Saúde ainda estão com salários atrasados. Os médicos, chegaram a parar o atendimento, mas voltaram ao trabalho depois de receber o pagamento de dezembro, mas ainda faltam alguns repasses. Os médicos deram um ultimato: até dia 23 de fevereiro para a OSS apresentar uma proposta com data de pagamento dos valores atrasados, casos contrários irão parar novamente.
Em entrevista à Folha da Região, o prefeito Leandro Maffeis, falou abertamente sobre a ferida aberta na saúde municipal. “As pessoas não entendem que a saúde de Birigui foi por quatro anos de uma OS, a Prefeitura não tinha a saúde nas mãos, não tinha Pronto Socorro, não tinha Santa Casa, essa OS comandava tudo, havia uma discrepância nos repasses para a Organização, quando assumimos, não fizemos um repasse se quer, porque queríamos fazer dentro da legalidade”, explica o prefeito.
Mas essa decisão repercutiu muito mal e rendeu uma enxurrada de críticas e problemas na prestação de serviço na saúde pública. “Algumas prestações de contas não eram feitas. Tivemos problemas com o 5? aditivo no contrato, aí esse aditivo apareceu misteriosamente. Ficamos 20 dias em cima disso em relação ao Pronto Socorro. Nosso objetivo nunca foi prejudicar funcionários, a gente queria fazer o repasse dentro da legalidade, com nosso jurídico passando o olho centavo por centavo, tinha muita coisa errada feita no passado que veio à tona e nós não podíamos cometer os mesmos erros”, conta.
A PEDRA NO SAPATO
Para realizar os pagamentos, o repasse era feito direto para a OSS e a direção pagava os funcionários, remédios, e qualquer subvenção que garantisse a manutenção da saúde, e aí estava o problema segundo o Prefeito. “Verificamos que certas contas não batiam e esse problema veio para o nosso colo, eu tive que acionar o jurídico para tentar corrigir isso aí, porque se eu pagasse conforme estava previsto no contrato vigente, eu fatalmente seria penalizado pelo Tribunal de Contas da União ou até cassado”, revela sem especificar quais itens do contrato estavam irregulares.
A Organização Social de Saúde Santa Casa de Birigui, alega que o pagamento dos médicos depende dos repasses feitos pela prefeitura, que suspendeu os pagamentos porque a OS é alvo de investigação da Operação Raio-X, do Gaeco e Ministério Público, em setembro do ano passado. A prefeitura só voltou a pagar após uma decisão da justiça. “Foi desgastante conseguir fazer a folha de pagamento dos funcionários, pegamos um caixa com 136 mil reais para fazer uma folha de 14 milhões, por isso tivemos que pagar de forma escalonada” e completa, “a folha não era obrigação nossa de fazer, a outra gestão deveria ter deixado essa folha e não fez”, desata.
A nova gestão não sabia dos problemas que iria enfrentar?
“A gente vê que o problema da saúde de Birigui vem de anos, e há muito tempo adota o ‘jeitinho’ para resolver os problemas, mas agora não tem mais espaço pra isso, e dizer a verdade dói, incomoda, infelizmente impactou a saúde. Percebe que por ela (OSS) ter sido alvo da Operação Raio-X, que desviou 150 milhões de reais, tenho que pisar em ovos! Eu só vou fazer as coisas aqui, com aprovação do jurídico, fazendo a coisa certa”, afirma. Apelidado de ‘PrefeiTUBE’, Leandro Maffeis, têm publicado nas redes sociais algumas situações, em janeiro ele fez uma transmissão ao vivo quando chegou ao Pronto Socorro Municipal para retomar a gestão, em outra live, agora no início de fevereiro, fez um tour pela Escola Municipal Ruth Pintão Lot, quando ele se referiu a unidade escolar, como um “cenário de guerra”. O que lhe rendeu várias críticas de quem não apoia a exposição do novo prefeito. “Eu não fiz show nenhum, nós assumimos o PS, conversei com cada um, disse que a partir daquele momento, nada poderia ser retirado dali, que a prefeitura estava assumindo, ainda temos problemas? Temos, mas vamos resolver”, conta.
SE TIVER OUTRA GREVE, POPULAÇÃO TERÁ ATENDIMENTO?
Na sala, em duas poltronas, e com ar-condicionado desligado, para economizar energia, o Prefeito antecipa alguns movimentos caso a greve retorne, já que a situação financeira está longe de sair do vermelho. “É o seguinte, vamos nos antecipar, primeiro reforço que a Saúde em Birigui não era da cidade, era de uma OS.
Até nossa carreta que tinha o Tomógrafo e o ônibus com o Mamógrafo foram apreendidos pela polícia, assim que entrei na prefeitura, já sabendo da situação, pedimos para a Justiça, que ao invés de deixar os veículos lá para ir a leilão, que a gente fosse fiel depositário, e assim poder usar para a população. Vamos também inaugurar em março, um Gripário, uma unidade onde as pessoas com sintomas respiratórios e até Covid sejam atendidas lá, e assim desafogar o atendimento do PS, os veículos que recuperamos vão rodar pela cidade, se as UBS voltarem a suspender os atendimentos”, explica.
O contrato com a Santa Casa, deve ser mantido até 2029, a Prefeitura disse que pretende manter a relação, porém vai exigir total transparência em tudo o que for gasto. “Vamos exigir prestação de conta, temos que seguir esse contrato até 2029, seguimos em um clima mais brando em se tratando de negociações, porque ainda há valores para acertar, mas a partir de agora nem uma agulha vai passar sem um pente fino”, relata.
UM NOVO NOME NA SECRETARIA DE SAÚDE
Nesta sexta-feira, a Prefeitura deve anunciar o nome da nova Secretária Municipal de Saúde, que deve substituir Adriana Sangaletti Duarte, que deixou o cargo no início do mês, segundo a administração, a decisão foi tomada em conjunto entre a prefeitura e a ex-secretária. “A gente tá trabalhando pra solucionar os problemas, para não fazer com que a população sofra ainda mais com tudo isso, hoje vamos anunciar a nova secretária, ela é de uma cidade próxima de Birigui, já foi sabatinada por médicos e outros profissionais, tem grande conhecimento prático na gestão da saúde, temos um time que montamos na saúde, se a gente tivesse dinheiro em caixa, mudaríamos muita coisa, mas como desde Abril do ano passado, praticamente nada foi pago, você imagina o tamanho do rombo”, observa.
Pergunto para o Prefeito, se cada pessoa a quem a prefeitura deve, viesse cobrar ao mesmo tempo, teria espaço para atender todo mundo? “Não. Teríamos que fazer uma fila indiana de no mínimo 200 metros de comprimento. Temos uma dívida imensa, estamos tentando arrumar a casa, será um ano difícil, mas peço a paciência da população. Não será em 40 dias que se resolveremos problemas de 4 anos”, finaliza.
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