Cultura

Cronículas: João Brigão

Por Redação |
| Tempo de leitura: 2 min

JEREMIAS ALVES PEREIRA FILHO

Naquela época devia ter 12 ou 13 anos e estava numa classe do ginásio do saudoso IE Manoel Bento da Cruz, disputando campeonato de matemática com outra classe do grande professor Zicão. Não que fosse aluno exemplar da matéria, mas conseguia resolver equações simples de segundo grau pela Fórmula Bhaskara, da qual hoje não tenho a menor lembrança. Foi justamente numa equação dessas que enfrentei meu “ex adverso” da outra turma, que, por azar, não era o seu forte. Tinha meu oponente, porém, fama de valentão e era “aquele que batia em todo mundo”, como conhecido no ambiente dos meninos, que brigavam por quase nada ou nada mesmo. Ao derrotá-lo em sala de aula a coletividade se calou e senti suspense no ar, quando João se perfilou na minha frente numa postura mini-nazista, com a mão e o braço direito estendidos em perpendicular acima do pescoço, como se fosse uma arma mirando na minha cabeça. Pareceu-me ouvir “Sieg Heil”! Mas não era uma saudação, porque, na realidade, ele gritou: “ vô ti pegá na saída!”

No intervalo, a notícia correu solta no pátio do IE: “o João vai pegar o Jeremias na saída da escola”. Ou seja, a sentença estava decretada e eu tinha apenas duas alternativas: cair fora já no intervalo e fugir covardemente da surra que se anunciava, ou, então, permanecer firme até o final das aulas e encarar o João que “batia em todo mundo”, não me considerando, evidentemente, uma exceção. Optei pela segunda e heroica opção e fiquei em classe até soar o sinal de encerramento do turno da manhã, quando me dirigi para o espaço na frente do anexo da Escola Normal, na rua José Pedro dos Santos, entre a Carlos Gomes e Martins Fontes, local de praxe para esse tipo de embate. E lá estava a turba ignara pronta para ver sangue, com o João brilhando no centro do cercadinho. Foi quando o valentão se aproximou de mim e, cara a cara, disse aos brados: “só num ti bato hoje porque tô com meu dedo machucado”, não revelando qualquer vestígio de lesão.

Sem dizer uma só palavra, cresci e olhei firme e profundamente nos seus olhos. Até ver João Brigão se retirar, humilhado e derrotado. Para sempre!

Jeremias Alves Pereira Filho
Sócio de Jeremias Alves Pereira Filho Advogados Associados; Especialista em Direito Empresarial e Professor Emérito da UPM-Universidade Presbiteriana Mackenzie. Araçatubense nato

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