Cultura

Soletrando: O toque

Por Redação |
| Tempo de leitura: 3 min

ALICE SILVA

Todos os dias na minha caminhada matinal passo em frente a casa dela. Casa simples, antiga, precisando de muitos reparos. A janela de um dos quartos faz frente para a rua. Está toda enferrujada, não recebe uma pintura faz muito tempo, dá impressão de que não é aberta nunca, como certos corações que encontro por aí. Em frente a essa janela, um impecável, exuberante jardim. Tão caprichado, imagino que deva ter cuidados diários, a terra, é bem escura, parece bem adubada, e as flores, amarelas, rosas, vermelhas, brancas, a grama muito verdinha, dá vontade de ficar ali contemplando tanta beleza, dá vontade de tocar. O contraste da janela com o jardim é tão chocante! Queria tocar sim, para ter certeza de que é real. Vez por outra, a moradora da casa está ali em frente quando eu passo, molhando o jardim. Desacelero então o passo, para observá-la melhor. É uma senhora bem magra, nos seus setenta anos, eu creio, que mais parece ter saído de um quadro antigo e se transportado para ali. Está sempre com vestidos escuros e longos, o cabelo tingido e preso num coque de tranças, sobrancelhas a la Frida Kahlo, e os olhos…sombrios, tristes. Me dá vontade de parar e lhe perguntar o que lhe causa tanta tristeza. Numa manhã de sol, arrisco cumprimentá-la: - bom dia! Ela me olha e não responde, mas certamente me ouviu, porque virou a cabeça em minha direção. Tenho vontade de tocar nela, para saber se é mesmo real, ou fruto da minha imaginação, que anda fértil. Resolvo dar um nome à ela: vou chamá-la de senhora Nostalgia. Ela me transportou à minha infância: na varanda de minha casa tínhamos um jogo de cadeiras igual ela tem na varanda. As fotos antigas que guardo dos meus pais… ela mais parece ter saído de lá. E põe antigo nisso! Imagino como deve ser o interior da casa, pelo que vejo na fachada. Será que mora sozinha? Creio que sim. A calçada está sempre bem varrida, e muitas vezes quando passo, ela está ocupada nessa função. O toque do cabo da vassoura em suas mãos arroxeadas também faz um contraste: não combina a vassoura com seu porte de realeza. Mas ela varre com leveza, fitando o vazio, como se não importasse por quanto tempo vai precisar estar ali, como se não houvesse mais nada a fazer. Hoje passando por ali me deparei com um jardineiro, ajoelhado, avental, ferramentas e luvas, cuidando das plantas. Observo que ele tem no rosto os mesmos traços dela, apesar da máscara. Imagino que seja seu filho. Minha mente invoca uma cena: ela na cozinha, preparando um café para o filho. A louça branca, herança de sua mãe, as bolachinhas de nata, a toalha com bicos de crochê feita por suas mãos. Terminando ela o seu trabalho, e ele o dele, ao redor de uma antiga mesa irão conversar. Vejo com os olhos da minha imaginação: ela ensaiando um sorriso para o filho, feliz com sua presença. Como uma laranja de casca bem grossa, guardando um fruto doce e suculento, assim a imagino, na presença de seu filho, mostrando seus dentes brancos, como uma jóia que não se mostra a qualquer um. A fumaça do café perfumando a cozinha. Prossigo minha caminhada certa de que preciso estreitar laços com aqueles que amo. Sigo lamentando todos os cafés que deixei de tomar com minha mãe, quando ela me chamava, por conta de tantos compromissos que me levaram a lugar nenhum.

Alice Silva, membro do grupo experimental da AA

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