Com anos de experiência na formação de gerações de estudantes do ensino médio e universidade, a empresária e educadora Ayne Regina Gonçalves Salviano defende que não há necessidade de uma formação específica dos jovens para a política.
Em entrevista à Folha da Região, Ayne, que também assina uma coluna no jornal aos domingos, afirma que o ser humano é um ser político por natureza, por isso a educação específica para atuação na área seria mais indicado para quem quer "seguir carreira".
"Se o brasileiro estivesse realmente interessado em política, ele entenderia que há outras possibilidades. Sempre há mais de duas opções", afirma ele, sobre a polarização política.
Leia a entrevista:
Como educadora, como a senhora vê a importância da formação política para os jovens?
O filósofo Aristóteles acreditava que o ser humano é naturalmente político. Por viver em sociedade, precisa participar dela fazendo escolhas e, assim, ser cidadão. Concordo com ele. Acredito que somos naturalmente políticos. Assim, não vejo necessidade de uma formação específica dos jovens para a política, a não ser, é claro, para aqueles que desejarem seguir na carreira. Ao mesmo tempo, acredito também que todos - crianças, jovens e adultos - devem ter acesso a aulas de humanidades, como filosofia, sociologia e história. Com estes conhecimentos mais a leitura do mundo por meio dos veículos de comunicação, já é possível fazer escolhas conscientes como cidadãos.
Escola é um espaço para a discussão de política?
Entendo política no seu sentido literal, como a arte de governar e administrar. Sendo assim, discutir sobre as melhores formas para cuidar de uma sociedade deveria ser um hábito cultivado nas famílias e em outros grupos sociais, inclusive nas escolas. Mas estamos tratando aqui de política, que é muito diferente de partidos ou ideologias. Esses devem ser escolhas pessoais, particulares.
Há uma máxima que diz que brasileiro não sabe votar. Como a senhora avalia esta afirmação?
Todos os países empobrecidos, com a maioria da população sem acesso à educação de qualidade e onde o poder econômico define eleições tem, geralmente, como consequência, resultados questionáveis. Por isso penso que para o brasileiro votar de forma mais consciente é preciso que melhoremos - e muito - a nossa educação e, especialmente, o combate contra a corrupção.
Houve uma reação muito forte, de parte da sociedade, contra uma possível doutrinação política em sala de aula. Como a senhora vê isso?
Sou contra qualquer tipo de doutrinação, em qualquer lugar. Doutrinar significa incutir ideias, atitudes, estratégias e metodologia para que a pessoa doutrinada não questione nem analise criticamente o que está sendo ensinado. Só vi isso acontecer, até agora, na ditadura militar brasileira. Mas percebo, sim, que de uns tempos para cá há uma pressão de alguns grupos que querem interferir nas salas de aula Porém, eles estão direcionando esforços no local errado. Sugiro que em vez de pressionarem professores e escolas, se mobilizem no MEC porque é o ministério que institui o Plano Nacional de Educação, que define os tópicos que serão abordados em sala de aula.
A senhora acredita que a polarização atual é sinal de que o brasileiro está cada vez mais interessado por política?
Acredito no contrário. A divisão da política brasileira em dois opostos é maniqueísta, não agrega. Se o brasileiro estivesse realmente interessado em política, ele entenderia que há outras possibilidades. Sempre há mais de duas opções.
Que conselho a senhora daria para um jovem, ou até um adulto, que queira conhecer ter uma formação política mais sólida?
Estude filosofia, sociologia e história. Mantenha-se informado. Leia um jornal por dia, uma revista por semana, um livro por mês. De preferência, leia ideias que combinem com as suas e as opostas também. Quem só lê o que quer não forma conhecimento, apenas alimenta suas convicções.
Como a senhora acredita que a própria educação tem sido discutida no âmbito político?
Infelizmente, a educação não tem sido discutida seriamente no meio político-brasileiro. Trata-se de um problema histórico. E apesar da aprovação importante do Fundeb na semana passada, sabemos que isso só aconteceu por pressão popular no Congresso. O que temos visto, na verdade, é o governo federal cortando R$ 4,1 bilhões do orçamento do MEC para 2021. Nos estados, eventualmente, temos ações isoladas de sucesso, como está acontecendo agora no Nordeste, com estudantes de escolas públicas ganhando competições internacionais. E aqui perto, na minha cidade natal, Jales foi a única da região sudeste a receber o selo de excelência entre os municípios com a melhor educação do Brasil. Mas, no geral, falta vontade política para um projeto nacional de melhoria da educação.
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