Em mais uma manifestação sustentada pelo seu já consagrado estilo prosaico de se comunicar, o presidente Jair Bolsonaro fez nova aposta perigosa ao minimizar a pandemia do coronavírus. “Tem medo de quê? Enfrenta”, disse o chefe da Nação durante visita à cidade de Bagé, onde provocou aglomeração, tirou a máscara e até pegou uma criança no colo. Por uma coincidência, o episódio ocorreu em terras gaúchas do escritor Luís Fernando Veríssimo, autor da obra “O Analista de Bagé”, um clássico do humor brasileiro em que o protagonista é um homem sistemático, de sinceridade rude e adepto da terapia do joelhaço, pela qual trata seus clientes com uma joelhada de verdade na barriga.
De forma apocalíptica, Bolsonaro não se incomodou em golpear a esperança com uma joelhada psicológica ao afirmar que “quase todos vocês vão pegar (coronavírus) um dia”. Acrescentou: “Morre gente todos os dias de uma série de causas. É a vida, é a vida”. Mesmo sem qualquer confirmação científica a respeito da eficácia da cloroquina para o tratamento da Covid-19, voltou a se comportar como garoto-propaganda e mostrou uma caixa do medicamento ao público. “Eu estou no grupo de risco. Agora, eu nunca negligenciei”, insistiu o presidente, pouco se importando com as tantas vezes em que subestimou o potencial destrutivo da doença causadora de quase 100 mil mortes só no Brasil, com 2,6 milhões de pessoas infectadas, 17 milhões no mundo todo.
É muito cômodo, simplista e até certo ponto desumano o presidente da República dizer para seu povo não ter medo e “enfrentar” uma doença que está ceifando a vida de milhares. Na sua visão, não parece fazer sentido que uma pessoa tenha medo de não ser atendida e de morrer desamparada num país precário em estrutura de saúde pública, com hospitais superlotados, faltando respiradores, insumos e medicamentos, e até já desfalcado de profissionais da saúde, muitos deles infectados, outros mortos. “Tem medo de quê? Enfrenta!”, brada o corajoso presidente, numa falsa valentia de quem não considera importante nem colocar um titular no comando do Ministério da Saúde. Faz quase três meses que a pasta está sob o comando de um interino que, aliás, nem é do ramo.
Não se pretende aqui entrar no mérito do estilo Bolsonaro de ser. Seu palavreado está longe de ser o que uma autoridade tem de pior para oferecer. O dano maior está no continuado mau exemplo, insistindo em ignorar todas as constatações de profissionais da saúde do mundo inteiro e menosprezar o conhecimento científico. Triste observar que por trás dessa postura nem estão suas convicções toscas e empíricas. Não é novidade que esse comportamento passa necessariamente pelo viés ideológico, adotado para agradar seguidores. No fim das contas, portanto, estão as motivações político-eleitorais. Quando isso ocorre, o interesse coletivo acaba sendo prejudicado, independentemente de ideologia.
Obviamente, não se pode e não se quer jogar na conta de Bolsonaro toda culpa pela situação calamitosa de um país que está perdendo a guerra contra uma doença de alcance e consequências mundiais. Governadores marotos e prefeitos caricatos que não fazem o mais elementar dever de casa dão perniciosa contribuição, assim como milhões de pessoas Brasil afora que insistem nas aglomerações. De todo jeito, porém, assina o atestado do fracasso todo líder que desrespeita a liturgia do cargo, distribui mau exemplo, alimenta o ódio, pratica o negacionismo e concebe ao cidadão apenas a teoria do “salve-se quem puder”. Sem ao menos ter o direito derradeiro de sentir medo.
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