Araçatuba

Gervásio Antônio Consolaro: Acolhimento

Por Redação |
| Tempo de leitura: 3 min

O que faria um pinguim nadar mais de 8 mil quilômetros todos os anos e ir das águas geladas da Patagônia até uma praia de correntes mornas na costa do Rio de Janeiro? Que bússola interna orienta essa pequena ave que a impele a se atirar na água e enfrentar os sofrimentos de uma viagem arriscada? E qual seria o tipo de recompensa que a faz voltar anualmente ao mesmo local? A única resposta é: o cálido acolhimento que ela sentiu por lá.

A história do Dindim, como o pinguim foi batizado, pode nos ensinar muito sobre acolher e ser acolhido. Dindim foi recolhido pelo pescador João de Souza quando o pinguim-de-magalhães surgiu na costa carioca, exausto, faminto e coberto de óleo. Com paciência, o pescador o alimentou com sardinhas e palavras doces. Deu banho e o deixou
livre. Mas Dindim não foi embora. E ficou mais 11 meses ao lado de João. Quando ninguém imaginava que ele fosse retornar para o sul, o pinguim partiu.

Até aí, tudo perfeitamente normal. A grande surpresa de todos na aldeia de pescadores, porém, foi vê-lo voltar durante os últimos cinco anos para visitar o pescador e sentir de novo aquele acolhimento. Carinho, proteção, segurança e alimento é tudo o que o João significa para ele. Já alegria de ter salvo uma vida é a felicidade de João. Um recebe e o outro dá, mas ambos estão igualmente felizes, E eis aí uma grande lição de acolhimento amoroso: para receber bem é preciso sair da nossa zona de conforto e estar disponível para o outro.

Simplesmente aceitar a vida como ela é, sem querer impor nada. E ao aceitando a vida como ela é, sou também capaz de acolher pessoas com comportamentos diferentes dos meus, inclusive aqueles que não aprovo. E terapeuta Lucila Camargo dá um exemplo: "A mãe que vai visitar o filho na cadeia e fala com ele com amor e carinho não está avalizando o crime que ele fez. Ela abraça o filho, que ama tanto, e não o seu erro."

Com mais consciência de mim mesmo, também me torno mais tolerante e compreensivo: visão mais nítida de nossos limites arrefece a vontade de jogar pedras nos outros.

Mas, vamos admitir também, tem vezes em que essa gentileza e consideração não é possível: é quando tudo desmorona em nossa vida e desabamos no colo de alguém. Em crises profundas, nossas bases, esperanças e certezas vão para o brejo. Tudo que desejamos é sentir a força do holding, palavra em inglês usada por psicólogos que encerra vários sentidos, como apoio, segurança, afeto, proteção.

Nesses instantes, só conseguimos vislumbrar o outro como uma tábua de salvação, alguém que nos consola e ampara, e que pode nos livrar de agudez e dor. Tudo o que queremos é ser confortados. Nesses momentos também podemos buscar auxílio com terapeuta, amigos, livros, fé religiosa, meditação e orações, como já fiz em minha vida.

Por fim, meus caros, quando pedirem auxílio para você não fuja. Tenha certeza que essa generosidade vai retornar a você. O acolhimento que proporcionou vai ser transformado em instantes felizes em que você vai se sentir amado e aceito, da mesma forma como fez com alguém que precisava do seu abraço.

Gervásio Antônio Consolaro é ex-delegado Regional Tributário e assessor executivo na Secretaria Municipal da Fazenda

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