Especial

Adriana Silva: Saulo Gomes, o repórter de Chico

Por Redação |
| Tempo de leitura: 3 min

O menino da casa seis, nascido no Rio de Janeiro, resolveu partir aos 91 anos de idade depois de uma brilhante trajetória. Tão brilhante que ao olhar em direção ao caminho por ele trilhado ainda restam feixes de luz.

Depois de gritar promocionalmente a agenda do teatro da capital carioca, ainda jovem, e fazer pirotecnia em circos que passavam pela cidade, Saulo se fez repórter investigativo por acreditar que a verdade sempre era a melhor opção. Escolhido entre muitos em concurso realizado pela Rádio Nacional, ele iniciou sua tarefa de comunicar os fatos e não parou até o último minuto. Saulo morreu dormindo porque senão a morte perderia o embate.

O repórter investigativo, como gostava de ser identificado, mais do que jornalista, atuou em vários veículos de comunicação no Brasil. Depois da Rádio Nacional, passou por outras emissoras, escreveu para a Revista Cruzeiro, conquistou um novo público na TV Tupi e em fase madura da vida trabalhou no SBT e na Record. Ele sempre marcou positivamente todos os lugares por onde passou.

Na sua linha do tempo, muitas reportagens reveladoras. Ele contava cada uma delas, muitos anos depois, sem esquecer nenhum detalhe. O nível de profundidade de sua memória era impressionante. O homem magrinho parecia um gigante quando era chamado a falar sobre suas histórias. Lembrava-se dos nomes e sobrenomes até mesmo dos coadjuvantes, nunca se confundia com datas. Muitas vezes descrevia os lugares, as roupas e os aromas. Falava dos personagens de algumas reportagens como se fossem velhos conhecidos. Na verdade, muitos se fizeram amigos.

Saulo chegou, muitas vezes, ao final de uma investigação antes do que a polícia. Sua sensibilidade em ver o que não estava tão aparente, sua habilidade de escuta e sua percepção eram características que o diferenciavam. Fora isso, era determinado e não voltava para casa antes de concluir uma história.

Reconhecido como o repórter de Chico, pela relação de proximidade com o médium brasileiro Chico Xavier, Saulo protagonizou em dois episódios do programa Pinga Fogo, quebrando todos os recordes de audiência da TV até aquele ano de 1971. Em seu primeiro encontro com Chico, ao agradecer a recepção do médium, ouviu dele que estava muito enganado se pensava que ele tinha escolhido Chico; foi o inverso. Saulo havia sido escolhido para ajudar na missão de difundir a Doutrina Espírita.

Vítima da repressão política, nunca abriu mão de falar o que precisava ser dito. Utilizou os veículos de comunicação como instrumentos para a difusão da verdade e da solidariedade. Ele realizou uma das campanhas mais expressivas de apoio ao Hospital do Fogo Selvagem, a pedido do amigo Chico Xavier.

Saulo Gomes nunca perdeu uma oportunidade, e quando elas não apareciam, ele as criava, certo de que assim é que deveria ser. Ao partir no último dia 23 de outubro, ele deixa muitas certezas: entre elas, a de que o comprometimento é um diferencial na vida de todos.

Comprometido com a vida, ele ainda tinha planos e, com certeza, dará o seu jeito de realizá-los.

Adriana Silva é jornalista e autora do livro “Saulo Gomes: o grande repórter investigativo”. Descreve esta Face Espírita/Ano 12 para publicação exclusiva na Folha da Região

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