Especial

Danton Leonel de Camargo Bini: Um mundo em Guerra Comercial

Por Redação |
| Tempo de leitura: 2 min

Vivemos um período novo na História das relações de poder entre os países nas esferas econômica, política e cultural. Após um período de quase 30 anos no qual a retórica liberalizante pautava no Ocidente as formalidades dos discursos à serviço da livre circulação de capitais e mercadorias (sob atuação preponderante do lobby das grandes corporações multinacionais), adentramos no findar dessa década rumo a um deslocamento nacionalista dos encaminhamentos das políticas estratégicas principalmente nas grandes potências.

Na busca de reduzir os custos de produção aproveitando a abertura do mercado chinês por Deng Xiaoping, iniciada em 1976, as grandes corporações (inclusive as norte-americanas) passaram a transferir parte de suas linhas de montagem às Zonas Econômicas Especiais da República Popular da China. Ao longo das zonas foram criadas áreas de livre comércio, medida adotada em decorrência de leis de incentivo, como redução parcial ou total de impostos.

Após 4 décadas de crescimento acelerado, a China se tornou a segunda maior economia do mundo. Com mercado consumidor e investimentos em todos os continentes do mundo, os chineses encontraram nas políticas protecionistas de Donald Trump um grande obstáculo para a expansão de seus negócios. Chega-se, assim, a 2019, e o peso maior da geopolítica internacional é dado pela guerra comercial entre Pequim e Washington.

E qual a essência para a tomada dessas medidas protecionistas no período atual? Segundo Donald Trump, seu maior estímulo é o patriotismo, com a defesa do emprego do cidadão norte-americano. Ao sobretaxar os produtos importados chineses, esses deixam de ficar mais baratos do que os produzidos nos Estados Unidos. Prioritariamente, procura-se estimular a geração de emprego e renda dentro do território de seu país.

Encorajados por tal guinada, muitos países estão estrategicamente protegendo setores, subsidiando desde insumos até a garantia de venda via política de preços mínimos e tarifas de direito antidumping. Nesse momento de mudanças, o Brasil, indo contra a corrente, mantém uma retórica liberalizante que atua desde a plataforma de diminuição dos custos da mão-de-obra no processo produtivo (vide reformas trabalhista e previdenciária) até a previsão de tomada de medida unilateral de redução drástica das tarifas de importação.

Soa também muito preocupante o posicionamento de ter os norte-americanos como nossos parceiros prioritários nas relações comerciais. Numa realidade na qual os agronegócios dos Estados Unidos são nossos concorrentes, a negativa da indicação do Brasil para integrar a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) talvez tenha dado ao governo Bolsonaro o entendimento da importância do multilateralismo nas definições da política externa. Dessa forma, a visita à China (nosso maior parceiro comercial com o qual apresentamos superávit comercial) demonstre um início de sobriedade diplomática.

Danton Leonel de Camargo Bini doutor em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo e pesquisador científico do IEA (Instituto de Economia Agrícola)

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