Aniversários. Respeito os que não gostam, que sentem-se melancólicos e precisam da solidão. Eu, particularmente, adoro. Talvez por descender de uma família onde essa data é considerada a mais importante no calendário de festas anuais. Foi-me ensinado de berço que se não existíssemos, nada haveria a comemorar. Nem Natal, nem Ano Novo, nem Páscoa, nada. A base de tudo é existir. E eu, com meu complexo de Pollyana, onde a tendência é sempre enxergar o copo meio cheio, a despeito de todas as agruras da vida, dos dilemas que viver nos impõe, amo existir.
Gosto dessa data não só pela possibilidade de confraternizar, de estar ao lado dos que me importam, mesmo que sem festa, apenas pelo abraço. Gosto porque, mais do que na virada do ano, é nela em faço reflexões sobre o que sou, onde estou, para onde quero ir. A chance de completar mais um ano me convida a recomeçar. Porque quando somos bem jovens, contamos a vida do começo para o fim…ansiosos pela idade que nos permitirá certas coisas que nos eram então negadas. Mas após a metade da vida, começamos a contar o tempo do fim para aonde estamos. Nos resta cada dia menos.
Talvez por isso alguns desanimem de comemorar. Eu não. Sinto-me como na canção de Violeta Parra, imortal na voz de Mercedes Sosa ,e que denuncia minha origem e idade : " Graças à vida, que me tem dado tanto / Ela me deu o som e o alfabeto / Com ele as palavras que penso e declaro / Mãe, amigo, irmão e luz brilhando / O caminho da alma que estou amando".
Sou grata à vida. À minha história. Ao meu caminhar. Sou grata até pelos dissabores, pelos entraves que todos temos. A junção de tudo que faz de mim o que sou. E, mesmo não sendo a melhor versão de mim, estar aqui me permite sonhar em refazer-me, em redimir-me. A cada dia. Como disse o filósofo Mário Sérgio Cortella : " Gente não nasce pronta e vai se gastando. Gente nasce não- pronta e vai-se fazendo." Fazer aniversários é isso: ir-se fazendo. Ano a ano. Parabéns!
Ana Laura de Almeida é cirurgiã dentista
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