Opinião

Balde amazônico - Por Francisco Moreno

Por Redação |
| Tempo de leitura: 3 min

Há poucos anos uma mania que se difundiu pela internet e na televisão foi aquela de pegarem um balde d'água e despejar rapidamente na cabeça de uma pessoa. Na época, foi uma forma de protestar, chamando a atenção pela falta de tratamento de uma doença. A lembrança disto, nos serve aqui, para ajudar na imaginação e memorização de um só balde d'água sendo despejado num só segundo. Utilizamos este exemplo, em Educação ambiental para falar sobre hidrometria, medidas de volumes de águas que deságuam na foz de um rio. Técnicos utilizam um aparelho chamado linígrafo para medir a quantidade de água que sai de um reservatório ou de um rio.

Voltando à abstração do balde, passamos agora a imaginar não um balde de 10 litros, mas sim mil litros caindo num só segundo. Para saber a dimensão basta ver uma caixa d'água destas de fibra de vidro, que se vê nas portas das lojas de construções. Mas, imaginar 209 milhões de litros d'água saindo em um segundo, é impossível. E é de fato este o total médio que deságua do Rio Amazonas na sua foz, num só segundo e, que vai por mar adentro. O volume é tanto, que é o único lugar do mundo aonde a água marinha ainda é doce, por mais 150 km no alto mar. Se você conhece uma piscina olímpica, faça as contas e são exatos 85 destas piscinas num só segundo, todas de uma só vez. Colonizadores ibéricos achavam que era um enorme golfo do mar. Somente desbravadores vindos por dentro da selva, através do Peru, é que souberam ser um imenso rio. O Rio Amazonas nasce no Peru, no alto da Cordilheira a 5.600 metros de altitude e quando chega no Brasil a altitude é de 60 metros, desce caudalosamente por uma declividade de 20mm por quilometro. Tão tranquilo, que por vezes o sistema inverte e o mar avança para o rio, formando as famosas Pororocas. Ultrapassa 1.100 os rios afluentes e o principal deles é o Rio Negro, e este por sua vez, tem a quantidade de água doce maior que todos os rios da Europa. Ainda o Negro tem os dois maiores arquipélagos fluviais do mundo.

Num cálculo simples, diremos: o nosso Rio Baguaçu despeja na Foz da Represa do Tietê, em quase dois dias, o equivalente do Rio Amazonas num segundo. Outra base interessante, é que considerando que a ONU orienta que são necessários 110 litros de água diários, para uma pessoa viver, seja para saciar a sede, comida, banho, descarga, etc. Seguindo este cálculo, bastariam dois minutos do deságue do Rio Amazonas para saciar todos 200 milhões de brasileiros durante um dia todo.

Ou seja, é uma abençoada abundância de água. E água doce é menos de 3% de toda água existente no planeta. O restante é água do mar. A água está a milhões de anos, sempre se renovando. Daqueles 3 %, numa conta rápida e redonda, 69,5% estão nas calotas polares e 29 % subterrâneas, o resto se divide em muitos lugares, restando 0,3% dos 3% nos rios e lagos. Deste tiquinho está lá o rio Amazonas como maior reservatório. Época de chuvas o volume atinge 500 milhões de litros vazando na foz. Destruir este manancial é mexer com a vida de cada um de nós.
Francisco Moreno é membro Movimento Global Católico Mudança do Clima

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