Vida

Pica-paus são frequentes aqui - Por Tito Damazo

Por Redação |
| Tempo de leitura: 4 min

É sabido da meia dúzia de leitores deste sítio metido a poético que somos dos poucos urbanos que, ainda, teimam em morar em casa com quintal de verdade. O nosso, já o dissemos, é um terreno adjunto ao em que se situa a casa. Tem quase tudo a que um quintal tradicional tem direito. Agora mesmo, a jabuticabeira mal acabou de dar uma carga prodigiosa, e já outra parece vir com não menos força.

Por aqui, portanto, o passaredo faz a festa. Habitam-no os de casa, mas a safra de visitantes é muito considerável. Alguns vêm, vão; não demora, tão de volta. Agora mesmo, relatei aqui a ousada estada de um sabiá laranjeira, que, durante uma semana, apareceu assiduamente. E, parte substancial do dia, ficava dentro do escritório, voando pra tudo quanto é canto. Não há lugar que não tenha pousado. Pousou algumas vezes, inclusive, neste computador em que escrevo. Ficava cara a cara me olhando, e eu fingindo que, fixo à tela, trabalhava laboriosamente. Num dado momento, parei, peguei o celular e tirei quantas fotos quis. E ele, nem aí, continuava me encarando. Se lhe estendêssemos o dedo ou um lápis, ou uma régua, não tinha conversa, mandava o bico. Tínhamos que aturá-lo de bico calado. Se deu ao luxo de comer o quanto quis, durante esses dias todos, uma ração especial para pássaros que minha mulher comprou e serviu-lhe numa vasilha posta sobre a impressora.

No final da tarde ia embora, para voltar na manhã seguinte. Às vezes, sem exagero, ele já estava assentado no gradil da janela, esperando que o escritório fosse aberto.Depois, desapareceu. Eis que, duas ou três semanas de ausência, tornou. Lá estava no gradil à espera. Entrou, passeou pelos cantos do escritório seus já conhecidos. Pousou em alguns, comeu da ração que ainda lá estava. À tarde se foi. E parece que agora para sempre.

Coisas que só quem tem quintal de verdade está sujeito a vivenciar. Pica-paus também, volta e meia, passam por aqui. Algumas vezes têm aparecido pica-paus amarelos. Vêm ao pé de ipê, ou ao de jabuticaba. Esparramam seus gritos e mandam ver o bico na madeira, numa percussão capaz de se ouvir longe, em busca de insetos e larvas. O mais frequente, tem sido um pequenino, acho que é o "pica-pau anão barrado" (a considerar o que diz o site "WikiAves"). Vem, principalmente, na jabuticabeira, e aquela coisinha carijó fica, um bom tempo, martelando seu bico poderoso nos galhos.

E aconteceu que, dias atrás, passamos a ouvir um desses sons pica-paus fortemente, sem que descobríssemos onde? Custou encontrar. De fronte o portão de entrada da rua para o quintal, há um antigo poste de madeira. Talvez o único por essas bandas. Lá estava, bem acima do meio, quase na ponta do poste, um encorpado pica-pau de cabeça vermelha ("pica-pau rei", ensina o site "WikiAves") martelando a enorme e rígida aroeira que um dia a tornaram poste.

E no dia seguinte, lá estava ele (ou ela) martelando. No dia outro. No outro… Já se passaram duas semanas, e a rotina de bater seu bico-machado no poste prossegue. Geralmente, no período da manhã é que o duro trabalho de perfurar a madeira-poste de um nítido acizentado-negro, de tão antigo, acontece.

Mas não exclusivamente. De vez em quando, não vem de manhã. Vem à tarde. Várias vezes, estamos ainda na cama, e já escutamos o sonoro som que o potente bico produz na assídua tarefa de perfurar aquela aroeira velha, mas de carne ainda muito enrijecida. Prova é o tempo já empregado à disciplinada e difícil lida de romper aquela duríssima crosta de madeira milenar, onde, por certo, decidiu que seria a morada de sua iminente nidificação.

Isso descobrimos, porque parecia ilógico que aquele poste fosse um inesgotável celeiro de comida. Sua aparência e o exercício de fortes marteladas incessantes, durante esse tempo todo, indiciam se tratar, certamente, da construção de ninho. Já foi feito um buraco de diâmetro para a entrada e saída tranquila de um (dois) pica-pau(s). Aberto na parte que dá para o lado leste. Assim, certamente, porque determina o instinto protecionista da natureza. Nossas chuvas e temporais, naturalmente, vêm do lado oeste.

No quintal e nas imediações vizinhas, conhecidíssimas dele, há muitas árvores, de variadas espécies. Por que naquele poste cuja madeira, tudo nos parece indicar, oferece bastante resistência? Não prima ele pela lei do menor esforço? De novo: certamente, o instinto protecionista da natureza tem a justa explicação.
Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e presidente da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

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