Quer me parecer que viajar é uma das condições essenciais da natureza. Se as plantas, enterradas no solo, não saem do lugar, suas folhas, flores e sementes rolam por aí insufladas pelos ventos, conduzidas por pássaros, animais, rios e mesmo pelos homens.Viajar, pois, é condiçãode ser destes entes que compomos este planeta solitário que também, por sua vez, viaja para lugar nenhum, por este mundão sideral sem fundo e sem fim.
Todos viajamos. Movidos cada qual por motivos vários. Os pássaros normalmente não têm residência fixa. Vão há muitos lugares, conhecidos e desconhecidos com o propósito de arranjar comida, abrigo e procriar com segurança. Penso que com propósitos não muito diferentes viajam, em geral, os peixes e os animais selvagens. Sendo que seja assim mesmo, viajam a trabalho, duro, disciplinado, instintivo. Assim o fazem para sua sobrevivência e a de seus descendentes, com o que vão garantindo a preservação da espécie. No geral, não amealham, não armazenam, parece não terem o instinto da provisão. Alimentam-se e aos seus dependentes com o que o dia lhes permitiu comer e conduzir àqueles. Amanhã, começa tudo de novo. Não acumulam, pois. Aqui, então, não grassa a abastança, de um lado, e a pobreza, e a miséria, de outro.
Pelo que se observa, parece certo também que com eles a lei do mais forte é mecanismo do qual se valem sem pestanejar. Quem pode mais, come mais. Come. Ponto. Não se leva pra casa a sobra. Quando tudo amanhã recomeçar, o que houver é de quem primeiro encontrar e pôr-se a aproveitar enquanto puder.
São vistos brincando, se amando, se acariciando e até mesmo, em situações especiais, mutuamente se ajudando uns aos outros em defesa contra o inimigo. Cantam, gorjeiam, grasnam, berram, mugem, uivam etc.,por múltiplos motivos. Certamente são comunicações, diálogos, expressões de alegrias, tristezas…Mas, parece que, sem dúvida, viajar está restrito à sustentação da vida e sobrevivência da espécie.
Já em se tratando do bicho homem, viajar é um ato bem complexo. Viajamos por muitas razões. Viaja-se, sim, a trabalho. E, ficando somente neste quesito, se pode ver que muitas são as formas de viajar a trabalho. E muitos e diferenciados são os trabalhadores que, para isso, viajam. Para ficar com pequenos exemplos desse heterogeníssimo ato, há aqueles que viajam a trabalho que significa a realização de grandes negócios no País e no exterior. Para os quais o meio de transporte é muito diferente do daqueles milhões que viajam horas, com a ida e a volta de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Estes, normalmente, vão de coletivo, trem. E não negociam.
É certo, principalmente, que o sentido ao senso comum para a expressão viajar! demanda para significados como passear, divertir-se, conhecer lugares, cidades, estados, países. Mas este é assunto que requer por si só uma outra crônica. Mantenho-me, para fechar, com a questão trabalho.
Tomo um fato pessoal que exemplifica duas outras modalidades de trabalho intermediárias àqueles dois extremos apontados. Vínhamos de um congresso de literatura realizado em Brasília. Uma semana, de manhã à tardezinha, em que se discutiram trabalhos de ensino e pesquisa apresentados e discutidos por professores e estudantes de literatura e outras artes. Durante o tempo de espera do voo (não do trem ou do ônibus) de Viracopos a Araçatuba, cruzamos com Renato Teixeira. Ele e sua viola dentro da sacola. Tomava tranquilamente um café, comendo algo, recostado ao balcão. Os viajores de aeroplanos passavam ao largo. Não percebemos olhar algum mais fixo e demorado de admiração (tampouco ohs! ou similares). Lá estava o autor de "Romaria", "Tocando em frente" posto em sossego.
Também não usamos nenhuma daquelas manifestações, mas fomos até ele. Gentilmente retribuiu nosso afetuoso cumprimento. Permitiu pacientemente que minha mulher, primeiro tirasse uma foto de mim com ele, em seguida uma self. Recusou agradecido o chocolate (80% cacau, belga legítimo, comprado no país!) que lhe ofereceu e respondeua ela que não estava indo a nenhum show. Ia para uma fazenda em Dourados, descansar. Cumprimentou-nos com aquele sorriso seu característico, pegou a sacola (com a viola) e foi embarcar.
Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e presidente da AAL (Academia Araçatubense de Letras)
Fale com o Folha da Região!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.