Opinião

Como lidar com as incertezas - Por Gervásio Antônio Consolaro

Por Redação |
| Tempo de leitura: 2 min

Em um ano de tantas mudanças nos diversos cenários, ao nosso redor e no universo particular, o ensinamento mais presente é de que é preciso lidar com algo intangível: o fato de que nada é absolutamente certo
A verdade é que temos de lidar, percebendo ou não, com um alto grau de imprevisibilidade o tempo todo, desde as incertezas mais duras de encarar, aquelas miudezas do dia a dia, que nos fazem sofrer.
Mas por que tememos aquilo que não é certo? Porque aprendemos a olhar a vida desse jeito. O enredo que nos contam é de que é preferível perseverar em busca de uma certeza absoluta em vez de aceitar a natureza da vida, incerta em essência.
Afinal, a realidade é feita da convivência com as impermanências que surgem numa alternância desassosssegada; assim que nos satisfazemos com a resolução de alguma questão que nos atormenta, logo vem outra pedindo a nossa atenção. Para complicar só mais um pouco, os questionamentos geralmente não vêm em fila, cada um por vez, mas vão se apresentando de forma aleatória e nos submetendo a seu ritmo caótico. Então mais uma vez, precisamos ser flexíveis e nos dedicar à adaptação a uma nova ordem recém-estabelecida que vai durar só até a próxima novidade que já vem chegando.
Esse tipo de sensação de que nunca estamos pisando em chão firme, pois haverá sempre uma nova instabilidade, é objeto de interesse do sociólogo Zygmunt Bauman. Aposentado, ele se debruçou na teoria do que chamou de modernidade líquida, esta condição de mudança constante à qual estamos sujeitos e que nos afeta diretamente porque traz consigo o sentimento de não sabermos o que surgirá em seguida. Tudo é fluido, frágil e instável. E isso tem a ver com o consumismo, com o menor envolvimento nas relações, num excesso de individualismo, conforme escreve: “Nós somos responsáveis pelo outro, estando atentos a isso ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) acaba afetando nossa vida” Numa interpretação livre, tendo a acreditar que uma das chaves para lidar com as incertezas seja, provavelmente, ir na contramão disso e nos aproximarmos uns dos outros, o que trará novamente a sensação de que não estamos sozinhos e que podemos atravessar tudo isso juntos.
Para atravessar esse período, o sociólogo, Fábio Mariano Borges, sugere que a gente reconheça a instabilidade a partir de uma atitude de empatia e de compreensão diante do novo, com reflexões mais cuidadosas sobre os nossos valores e comportamentos e o cultivo de uma relação mais generosa com o outro, afirmando que “as fórmulas antigas não funcionam mais”.
A beleza está, enfim, na disposição em seguir mesmo não conhecendo o fim da história, tendo de lidar com as incertezas do caminho e tentando encontrar propósito no cotidiano.
Gervásio Antônio Consolaro é ex-delegado Regional Tributário e assessor executivo na Secretaria Municipal da Fazenda

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