Opinião

Amor Próprio - Por Reynaldo Mauá Júnior

Por Redação |
| Tempo de leitura: 2 min

Era uma moça bonita. Para alguns, até mesmo linda. Peculiar e tranquila, todo fim de tarde acomodava-se junto ao portão da casa, de frente para a pracinha, e permanecia hora a observar as pessoas que passavam, sem nada dizer.
Todos os habitues do local estavam acostumados com a presença daquela jovem atraente, mas que não dava a menor abertura para uma prosa descompromissada ou uma conversa mais aprofundada sobre qualquer assunto. Tinha em seu olhar um distanciamento daquela realidade corriqueira e habitual. Parecia, na maioria das vezes, dispersa em outro mundo.
Da mesma forma que se acomodava junto ao muro da casa, no momento em que chegava, ia embora depois de algum tempo. Ninguém mais se preocupava, ou olhava com curiosidade, a sua presença imperturbável naquele cenário.
Alguns achavam que Beatriz era muda, por isso não estimulava qualquer conversa. Outros, apesar de a sua aparência não denotar qualquer sintoma nessa direção, especulavam que ela deveria ter algum transtorno mental, déficit de atenção ou de entendimento da vida.
O certo é que fisicamente, Bia, não apresentava anomalias visíveis. Era bela, corpo perfeito (até demais), não claudicava, não usava óculos, não babava, não ficava rindo à toa e nem falando alto, ou, mesmo, gritando palavras incompreensíveis para os normais.
A única coisa que estimulava a ideia das pessoas sobre Beatriz, era sua postura, aparentemente imóvel, durante todo o tempo em que permanecia postada à beira da calçada, observando os passantes, sem um gesto observável, sequer.
Mas, para Bia, esse era um tempo precioso. Gratificante. Tinha um ritual secreto. Um portal para outro universo, dentro de sua cabeça.
Sempre de saia rodada, encostava-se ao muro à sua frente, e com as mãos tocando seu sexo, ainda virginal, punha-se a acariciar-se, fantasiando cada rapaz que passava, como sendo seu príncipe encantado, que a levaria para outras plagas, outros mundos, cheios de prazer, imaginação e delírios. Territórios desafiadores, intensos, repousantes.
Como as pessoas não compreendiam direito o que se passava com aquela garota esquisita, jamais se aproximavam de sua figura e, portanto, não conseguiam perceber as expressões de sensualidade e volúpia que transformavam aquela face, tão delicada e suave, numa mulher cheia de desejos, vontades e luxuria.
Não era possível, a qualquer um na rua, observando de longe os maneirismos de Beatriz, que a cada fim de tarde, naquela pacata calçada da pracinha, uma jovem desabrochando para vida se transformava numa mulher cheia de opinião, poder e praticante do livre-arbítrio, ao seu omando e a seu bel-prazer.
Beatriz era feliz! E ninguém sabia.
Reynaldo Mauá Júnior Membro do grupo Experimental da Academia Araçatubense de Letras

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