Gastronomia

Só um pedacinho, Flávia! - Por Juarez Paes

Por Redação |
| Tempo de leitura: 5 min

Esta expressão pertence ao mesmo grupo de tantas outras difíceis de levar ao pé da letra, cumprir como promessa, ou conseguir ser mais forte que a vontade incontrolável de descumpri-la sem o menor escrúpulo, sem nenhuma vergonha.
Claro que tal força corruptora só se aplica as guloseimas e acepipes considerados unanimidades na vasta lista dos irresistíveis, onde quem não gosta é a exceção, como bolo de chocolate, pudim, mousse, pavê, brigadeiro, quindim, chocolate, pizza, pão de queijo, um pão quentinho, pipoca, amendoim torradinho, enfim, uma lista interminável, isso sem mencionar a cerveja gelada neste calor insuportável.
Podemos incluir no mesmo rol, algumas promessas como aquelas deixadas para as segundas-feiras: vou parar de fumar, vou parar de beber, vou começar a dieta, vou começar a malhar, não vou fazer nada que você não queira, não caso nunca mais e por aí vai.
Geralmente as promessas do terceiro parágrafo, são consequências do segundo, mas, podem acontecer de forma independente, dependendo do excesso e do trauma pós-ingestão.
É por isso que o resultado das férias gozadas na sequência das festas de Natal e Ano Novo costuma ser desastroso no quesito excessos.
Não só, do ponto de vista gastronômico, mas, também do financeiro e físico, principalmente no último, onde a silhueta sofre alterações indesejáveis com o arredondamento das suas formas e os problemas advindos deste comportamento compreensivelmente desregrado, que são as alterações nos níveis de colesterol, açúcar, ácido úrico e pressão arterial.
Só um pedacinho, mesmo parecendo à coisa mais inocente e coitadinha do mundo, pode ser a porta de entrada para uma centena de males, os quais jamais se poderia imaginar chegar através de um gesto tão simplório, com o intuito de saciar uma vontade.
Como não poderia deixar de ser, é claro que tenho uma história para ilustrar a introdução deste texto.
Era novembro de 1998 quando eu e meu grande amigo Marcelo completávamos um ano de intenso treinamento, visando nossa participação na "Corrida de São Silvestre", dia 31 de dezembro em São Paulo e "Corrida de Reis", dia 10 de janeiro de 1999 em Brasília, onde morávamos na época.
Nossa dieta era orientada por uma nutricionista (Flávia, noiva do Marcelo), seguida com disciplina muito mais rigorosa pelo meu amigo (com a noiva no pé), porque além das duas corridas, Marcelo ainda participaria de uma prova de "Fast Triatlo" - Floripa em fevereiro, que por mim, de vez em quando beliscava uma coisinha ali, outra aqui, tipo só um pedacinho mesmo para não comprometer o treinamento.
Diante disso, eu, minha esposa (a segunda), Flávia e Marcelo, evitávamos ao máximo as saídas noturnas, a fim de evitar tentações e não dormir muito tarde, optando pelas diversões mais caseiras.
Foi aí que veio o convite que com toda a certeza devíamos ter recusado: uma degustação de tapas espanholas, antepastos italianos e petiscos mineiros, promovida pelas duas embaixadas (ESP e ITA) e a Secretaria de Cultura do DF.
Antes de entrarmos no salão de eventos, Flávia nos preveniu quanto aos riscos da ingestão de alimentos gordurosos, já que vínhamos de uma dieta 'zero gordura', porém, foi impossível passar em branco diante de tanta coisa diferente, bem apresentada e com aquele aroma sedutor.
Belisquei algumas coisas, Marcelo se continha, os olhos brilhavam, mas, ele segurava a onda, resistia heroicamente, até que em um dos expositores de tapas, foi atraído pelo aroma e beleza de um mini espetinho, que intercalava camarões empanados, e cubinhos de queijo de serra a milanesa, acompanhado de um molho a base de especiarias, pimentas e açafrão (paellero).
Meu amigo caiu matando e comeu dois espetinhos; foi parar no hospital, ficando por lá internado por três dias, jogou fora um ano de treinamento e perdeu as três competições. Só voltou a participar de outra prova oito meses após ter recebido alta.
Quanto a mim nada senti, participei das duas corridas tendo como problema apenas os joelhos, na época, com quatro cirurgias (hoje totalizam oito), o que não foi suficiente para me impedir de cruzar a linha de chegada nas duas competições, afinal, não cumpri tão a risca a dieta da Flávia, primeiro porque ela não ficava no meu pé como se mantinha nos calcanhares do meu amigo e depois, porque habitava em mim um gourmand ávido por novos sabores e um cozinheiro curioso, que até hoje não deixa nenhuma delícia passar sem ser devidamente degustada.

RECEITA: PALETA SUÍNA NO SUCO DE LARANJA

Você vai precisar de: 1,2 kg de paleta suína em cubos grandes ou a peça inteira; - suco de 1 limão; -2 colheres de sopa de manteiga animal; -3 dentes de alho amassados; 2 colheres de mostarda escura; -1 colher de sobremesa de alecrim desidratado; -2 xícaras de cebolinha picadinha; -2 folhas de louro; - ½ pimentão verde picadinho; - 2 cebolas médias picadinhas; -1,5 lts de suco de laranja natural; -100g de azeitonas Azapa picadinhas; -sal e p. calabresa qb.

Preparo: Tempere a paleta com pimenta calabresa, sal, o alecrim, o suco de limão e metade do suco de laranja e deixe marinar por 1 hora. Numa panela de pressão aqueça a manteiga, doure o alho, coloque a carne (deixando o tempero reservado) e refogue virando e mexendo o tempo todo, até que sele e fique dourada, acrescente a mostarda e mexa. Junte a cebola, as azeitonas e o pimentão, acrescente o tempero da carne reservado, as folhas de louro, o restante do suco de laranja, 1 xícara de cebolinha, ajuste o sal, tampe a panela e deixe na pressão por 30 minutos. Retire a pressão da panela, abra e junte a outra xícara de cebolinha, transfira tudo para um refratário e sirva com arroz branco ou uma massa Al dente.

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