Era quase meio-dia quando Francielly ouviu o portão da frente bater com tudo, PLAFT, o que a fez sair em disparada.
Apesar do susto, apenas sua mãe chegando esbaforida.
(Francielly) - Po**a, mãe! Quase me mata do coração!
Dona Francisca recuperava o fôlego.
(Dona Francisca) - Desculpa, Cielly. É que voltei do banco agora. Tô rica, filha! Saquei quinhentos reais do FGTS.
(Francielly) - Que maravilha, mãe! E vai fazer o que com o dinheiro?
(Dona Francisca) - Ah, sei lá, tô pensando em tanta coisa.
(Francielly) - Bom, preciso sair. Faça bom proveito, a senhora merece. Tchau.
(Dona Francisca) - Tchau, filha. Vai com Deus.
Tremendo de tanta animação, Dona Francisca pegou o caderninho de anotações e fez uma lista. "Aniversário Valentina", "terno Rodolfo", "passagem Marcielly", "vestido festa", "excursão Aparecida".
Então, pegou o telefone fixo e começou a fazer ligações.
(Funcionária) - "Buffet Criança Feliz", boa tarde.
(Dona Francisca) - Boa tarde. Eu queria saber quanto fica uma festinha pra minha neta de oito anos. Umas trinta crianças. Da mais simples que tiver.
(Funcionária) - Depende, senhora. Aluguel de salão, refrigerante, água, bolo para trinta pessoas, cento de doces e cento de salgadinhos, seiscentos reais. Com a participação do palhaço Raspadinha, oitocentos e cinquenta.
(Dona Francisca) - Deus me livre guarde! Acho que cê tá achando que eu que sou palhaça. Passe bem.
(Alfaiate) - Boa tarde, Alfaiataria do Murilo.
(Dona Francisca) - Boa tarde. Por favor, me diz quanto sai mais ou menos um terno simples para um senhor de sessenta anos. Do mais barato, daquele riscado de giz.
(Alfaiate) - Varia muito, senhora. Como só trabalhamos com matéria prima de primeira, nossos ternos custam a partir de quinhentos e oitenta reais.
(Dona Francisca) - Voti! Eles são pintados com ouro? Até logo.
(Funcionário) - Boa tarde, Expresso de Bronze!
(Dona Francisca) - Boa tarde. Quanto tá saindo uma passagem de Araçatuba para Cuiabá, ida e volta?
(Funcionário) - Seiscentos e trinta reais, senhora.
(Dona Francisca) - Eu tô falando de ônibus comum.
(Funcionário) - Mas é comum. Executivo. Nem temos leito para Cuiabá.
(Dona Francisca) - Toma seus tento, rapaz! Eu quero comprar passagem, não o ônibus inteiro. Tchau.
(Vendedora) - Florisbela Moda, boa tarde.
(Dona Francisca) - Boa tarde, menina. Preciso de um vestido de festa pra mim. Nada de luxo, casamento muito simples, qual o preço médio de vocês?
(Vendedora) - A partir de mil reais para…
(Dona Francisca) - MIL REAIS?
(Vendedora) - Mil reais para alugar. Para compra, a partir de dois mil e oitocentos.
(Dona Francisca) - Ah, minha filha, vai vê se eu tô na esquina.
(Solange) - Pronto?
(Dona Francisca) - Queria falar com a Solange.
(Solange) - É ela mesma.
(Dona Francisca) - A Nadir me contou que você tá fechando uma excursão pra Aparecida do Norte, quanto sai?
(Elisabete) - Ônibus semi-leito, mais visita ao Santuário e almoço buffet incluído, setecentos e trinta reais.
(Dona Francisca) - Cê usa o nome da Santa pra assaltar as pessoas? Vai pro meio dos inferno!
Revoltada, Dona Francisca jogou o telefone longe. Após beber um copo de água, o que a deixou mais calma, a araçatubense saiu com seus quinhentos no bolso.
Francielly e Seu Rodolfo já estavam quase ligando para a polícia quando Dona Francisca voltou pra casa, pouco antes do Jornal Nacional.
(Francielly) - Ficou louca, mãe? Some, não deixa recado, não dá notícia, não leva o celular. O pai tava quase tendo um treco!
(Dona Francisca) - Ah, cêis num me aporreia, não! Eu fiz foi um milagre. Fui no mercado e comprei tudo que precisava pro aniversário da Valentina. Refrigerante, ingrediente pra fazê doce, pra fazê salgado, amanhã eles entrega. Passei no calçadão e comprei tecido pro terno do Rodolfo e pro meu vestido de festa. Dona Célia vai costurá tudo por noventa reais. Falei com a Dinorá e consegui uma carona de ida e volta pra Cuiabá, a Marcielly só vai precisar rachar a gasolina. E ainda sobrou uns trocado pras velas Sete Dias que vô acendê pra Nossa Senhora Aparecida. Num preciso ir até a Aparecida do Norte pra mostrar minha devoção.
(Francielly) - Nossa, o dinheiro rendeu, hein?
(Dona Francisca) - Quinhentos reais é dinheiro pra caramba, minha filha. As pessoas que tão ficando louca.
(Francielly) - Arrasou, mãe! Já pra mim que é bom, nada, né?
(Dona Francisca) - Ah, tem sim. Toma aqui.
(Francielly) - Uma bolinha vermelha?
(Dona Francisca) - Que bolinha vermelha, o que, menina! É um nariz de palhaço. No sábado à tarde, pra Valentina e pras amiga dela, seu nome é Raspadinha.
Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato celsodossi@gmail.com
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