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‘Casa de pensão’ (1884) - Por Tito Damazo

Por Redação |
| Tempo de leitura: 4 min

O título acima é de um romance de Aluísio Azevedo, autor de origem maranhense, São Luís.
Aluísio é considerado o fundamental autor do Naturalismo brasileiro, movimento literário que se insurge contra o Romantismo. No Brasil aconteceu paralelamente ao Realismo, com o qual tinha muito mais afinidades que diferenças. Domício Proença Filho afirma, em seu clássico "Estilos de época na literatura" (1967), que " O Realismo tende para uma visão biológica do homem; o Naturalismo encaminha-se para uma visão patológica", numa concepção de que o homem age mecanicamente movido por "leis físico-químicas, pela hereditariedade e pelo meio físico e social". (São Paulo: Ática, 11ª ed., p. 242, 1989). Com "O Mulato" (1881), Aluísio Azevedo inaugura no Brasil o romance naturalista, esta é a voz praticamente uníssona da crítica literária brasileira, ainda que traga caracteres românticos, dos quais não havia o autor se desvencilhado por completo, tal fora a marcante influência desse complexo estilo, o Romantismo. Também nesse diapasão segue a crítica em dizer que a sua obra-prima é "O cortiço" (1890), que a mesma foi igualmente a grande obra do Naturalismo brasileiro. E que, pouco antes, 1884, enveredara firmemente por esse caminho com a publicação de "Casa de pensão", obra um tanto aquém daquela, mas com fortes indícios de pegadas naturalistas que, certamente, eram prenúncios do advento da obra-prima que seis anos depois se realizaria.
A respeito de "Casa de pensão", afirma Alfredo Bosi: "A vida airada do estudante que vem do Norte para o Rio, o ambiente pegajoso da pensãozinha onde se instala, enfim o rumor dos jornais e da boêmia em volta do caso escandaloso em que se envolve, formam o coro, estruturalmente superior ao desenho flácido, do protagonista, cujas fraquezas são atribuídas desde as primeiras páginas à herança de sangue" ("História concisa da literatura brasileira, São Paulo: Cultrix, 37ª ed. p. 190, 1999).
A narrativa, em terceira pessoa, onisciência intrusa. O narrador procura precisar os caracteres das personagens e do ambiente com objetividade e realismo. A província de São Luís do Maranhão é o espaço no qual Amâncio é modelado. Educação autoritária forma um caráter tímido, medroso e indolente.
À analepse (flashback), como uma das técnicas de narração, se soma a ironia, com que o narrador exerce forte crítica social àquela sociedade burguesa escravocrata, indolente, hipócrita, egoísta e exploradora, da qual Amâncio é um exemplo acabado.
Na corte do Rio de Janeiro, espaço do presente da narrativa, o protagonista faz breve estada em casa do Campos, comerciante de origem são-luisense, que devia favores aos familiares de Amâncio. Isso se presta a ressaltar aspectos que compõem o (mau) caráter de Amâncio, como devassidão, sexualidade promíscua.
Nesse sentido, a isso somem-se os ambientes que Amâncio frequentava, em sua vida de estudante vadio e rico: os restaurantes caros e requintados em que perdulariamente gastava com os acompanhantes; a pensão de estudantes pobres, coletivo promíscuo, anti-higiênico
A casa de pensão de Coqueiro e Madame Brizard. Ambiente coletivo, representando simbolicamente um conjunto de segmentos sociais fracassados, marginalizados por meio de personagens-tipo. São onze quartos, nos quais "residem" estas personagens: 1) Dr. Tavares, advogado; 2) Fontes, mascate - " um unha-de-fome"; 3) Piloto, repórter do "Gazeta"; 4) O Campelo, comerciário, "um esquisitão"; 5) O Paula Mendes e a mulher, artistas, um toca piano, o outro, rabeca, "muito conhecidos na corte"); 6) Um guarda-livros, "bom moço, asseado, estudava clarinete"; 7) Um pobre rapaz português doentio: tuberculoso; 8) Lúcia e Pereira - casal que se juntou impulsionados por seus fracassos. Ela será um pretendente de Amâncio, logo rival de Coqueiro, Madame Brizard e Amelinha, pretendentes mais fortes. Melinho, empregado da Caixa de Amortização; 10) Lambertosa, gentleman, violonista.; 11) Dr. Correia, médico (mantinha o quarto para encontros amorosos clandestinos).
Nesse espaço desenvolvem-se as ações. Os conflitos se dão numa trama de fundo naturalista: o jogo de interesses, a disputa entre fortes e fracos, a prevalência da hipocrisia, a perversa espoliação do homem pelo homem.
A família de Coqueiro decide empenhar-se em apropriar-se ao máximo do dinheiro do lascivo, romântico e esbanjador Amâncio. A tática é Amelinha fazê-lo comprometer-se com ela cada vez mais. Lúcia, moradora do quarto 8 torna-se um empecilho por ter-se antecipado na conquista da presa. Ela, porém, há muito não pagava o pensionato. Livre, Amelinha avança. Com a decadência da pensão, a família muda-se para uma suntuosa casa nas Laranjeiras e vive totalmente às expensas de Amâncio, a quem vão dilapidando prodigamente. Com a morte do pai, Amâncio decide ir para o Maranhão. Amelinha quer que se casem e viajem juntos. Amâncio não concorda. Coqueiro arma-lhe uma detenção, sob a alegação de que seduzira Amelinha e negava-se a se casar. Julgado e absolvido, vê-se, finalmente, livre dos Coqueiro. Desesperado, Coqueiro dirige-se ao hotel Paris, onde Amâncio se hospedara e mata-o. A mãe de Amâncio a saber do fato também morre. A história termina deixando entrever a breve absolvição de Coqueiro. Amelinha, comprovando sua convivência efetiva com Amâncio, acabará apoderando-se dos bens deste. Puro Naturalismo, como se pode ver.
Tito Damazo é professor, doutor em Letras e poeta, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e presidente da AAL (Academia Araçatubense de Letras)

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