Artigo

O dia em que encontrei uma santa - Por Isabeli Cristini de Oliveira

Por Redação |
| Tempo de leitura: 3 min

Era outono de 1988. Já naquela época, inúmeras vezes, o meu grupo de jovens ia ao hospital da Irmã Dulce, em Salvador (BA), tocar na missa dominical. Era o grupo “São Tarcísio” e a ação, de certa forma, fazia jus ao nome do santo que deu sua vida levando a comunhão para os cristãos prisioneiros. Nós levávamos a música e a alegria de uma juventude disposta a fazer um pouco por aqueles que quase nada tinham e ainda eram privados de sua saúde, e que encontravam, naquele hospital, não apenas o alívio para suas doenças, mas o consolo para as dores da alma.

Eu sempre queria dar um jeito de conhecer a tal da Irmã Dulce. No auge da minha juventude a imaginava alta, determinada e destemida, porque manter um hospital como aquele com tantos doentes, sem nenhum recurso, não era uma tarefa fácil. Inúmeras vezes, entrava em salas e locais tentando ver se a encontrava, mas sem sucesso. Às vezes, eu entrava por uma porta pela qual ela tinha saído minutos antes.

Quando perguntada sobre o motivo pelo qual acolhia tantas pessoas, ela dizia: "Se Deus viesse à nossa porta, como seria recebido? Aquele que bate à nossa porta, em busca de conforto para a sua dor, para o seu sofrimento, é um outro Cristo que nos procura." Depois de 10 anos, ela transformou o galinheiro do Convento Santo Antônio em albergue para o os pobres, os doentes que a procuravam no local, onde atualmente é o hospital Santo Antônio, carinhosamente chamado pelos baianos de hospital de Irmã Dulce, “o anjo bom da Bahia”. Um hospital que, como ela gostava de dizer, era uma porta aberta aos mais necessitados: "Quando nenhum hospital quiser aceitar algum paciente, nós aceitaremos. Essa é a última porta e por isso eu não posso fechá-la."

Foi no corredor deste mesmo hospital, me lembro bem, em um domingo chuvoso, como são os outonos em Salvador, que encontrei uma freira sentada, com ar de fragilidade, parada no fim do corredor, e meu coração disparou: era ela, Irmã Dulce! Me aproximei e a cumprimentei. Sua voz era rouca, seu olhar era firme e terno. Apesar de sua saúde frágil, era perceptível sua força e determinação. Não me recordo das suas palavras, mas do seu olhar, do seu sorriso e de sua simplicidade. Pude ver nos seus olhos a determinação daquele anjo que dormia apenas quatro horas por dia, porque queria ter tempo para ajudar aos pobres; que tocava acordeom e cantava nas ruas para ganhar dinheiro para os mais necessitados; que fazia jejum e sacrifícios e que compreendia as diversas humilhações sofridas como crescimento espiritual.

Uma mulher empreendedora, que ainda na década de 50 criou cinemas, bandejão para os pobres e até uma rede de aleitamento materno. Uma verdadeira empreendedora dos pobres e para os pobres, que acolhia o mendigo, o doente, a criança carente, o sujo, abandonado, como ao próprio Jesus, cuidando, limpando, dando banho, cortando as unhas, colocando no colo, com um ardente desejo de amar e evangelizar, a todos os que batiam à sua porta.

Irmã Dulce nos ensinou com sua vida que o amor a Jesus passa pelo amor aos mais necessitados. Como ela mesma dizia: "Sempre que puder, fale de amor e com amor para alguém. Faz bem aos ouvidos de quem ouve e à alma de quem fala."

Isabeli Cristini de Oliveira é missionária da comunidade Canção Nova e jornalista

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