A companhia aérea nem havia anunciado o início do embarque quando Reginéia Aparecida parou atrás de dezenas de pessoas.
(Reginéia Aparecida) - Moçu, essa fila é pru avião?
(Moço) - Depende. Qual é o voo da senhora?
(Reginéia Aparecida) - O qui vai pra casa da minha filha.
(Moço) - Qual o número do voo?
(Reginéia Aparecida) - Eu sei lá!
O moço chamou uma funcionária.
(Funcionária) - Pois não?
(Moço) - Essa senhora quer saber se este é o voo dela.
A funcionária pediu licença e pegou a passagem nas mãos.
(Funcionária) - É, sim. Só aguardar, senhora.
(Reginéia Aparecida) - Já tá entranu?
(Funcionária) - Não, ainda vai demorar.
(Reginéia Aparecida) - Então por que essi povo fazenu fila?
A funcionária deu de ombros.
(Reginéia Aparecida) - Gente tonta dos infernu. Vô é descansá as perna.
Ao chegar no avião, Reginéia descobriu que estava no assento 38E. E deu um grito.
(Reginéia Aparecida) - QUI MERDA É ESSA? NO ÚLTIMU LUGAR? E CUM CHERU DI BANHEIRU?
Um comissário correu atendê-la.
(Comissário) - É que a senhora não comprou assento antecipado.
(Reginéia Aparecida) - Comprá assentu? Tá varianu? E essa disgraça nem vai pra tráiz! Tenho bico di papagaiu!
(Comissário) - Sinto muito, senhora. E o voo está lotado.
(Reginéia Aparecida) - Já mi chega te pagadu pra dispachá a mala.
(Comissário) - É que aqui só pode mala de mão.
(Reginéia Aparecida) - Uai, mas a mala tava na minha mão. Vagabundus! E prometeru que despachá mala ia baixá as passagi. Brasileru só toma no co mesmu… Cê me traiz um copo d'água? É pra tomá meus remédio.
(Comissário) - Sim, mas quando o avião estiver no alto. E é cobrado.
(Reginéia Aparecida) - CÊIS COBRA ÁGUA AGORA? Tenho dinheru, não. Vô tomá da pia do banheiru.
(Comissário) - Eu abro uma exceção, já que o assento da senhora é meio ruim mesmo.
(Reginéia Aparecida) - Ruim é meu ex-maridu, isso aqui é horríve! Alá um monti de assentu vaziu na frenti.
(Comissário) - Assento Conforto. Tem que pagar extra, não posso deixar a senhora sentar lá.
(Reginéia Aparecida) - Ah, mais vai pra p* que o p… Tudu vazio e uma véia lascada com dor nas costa e cheiranu fosso de banheru.
Meia hora depois, um cardápio é entregue para Reginéia.
(Reginéia Aparecida) - Cêis tão di brincadera? Trinta e cinco conto por um pão cum presunto, sucu di caixinha e um emi emi?
(Comissário) - A batata-frita sai por quinze reais, senhora.
(Reginéia Aparecida) - Ah, tomá no zóio do c*! Quinze conto eu compru um quilu di batata.
Reginéia Aparecida ficou de pé, abriu uma sacola e saiu oferecendo suas trufas pelo avião.
(Reginéia Aparecida) - ÓIA AS TRUFA! Uma por trêis, duas por cinco e quatru por déiz!
Todos os comissários correram ao encontro dela.
(Comissário) - Minha senhora, é terminantemente proibida a venda de produtos dentro deste avião.
(Reginéia Aparecida) - Uai, mais cêis vendi!
(Comissária) - Por favor, volte para o seu assento.
(Reginéia Aparecida) - Vai ocê pra lá, disaforada. Fica cheiranu banheru nu meu lugar.
(Comissário 2) - É a última vez que avisamos: por favor, retorne ao seu assento imediatamente!
Reginéia Aparecida pediu desculpas, disse que ia ao banheiro e, antes de voltar ao 38E, foi entregando suas trufas disfarçadamente para todos os outros passageiros. Já que a maioria estava faminta e também não tinha como comprar a comida do avião, mandou as trufas goela abaixo.
Assim que desembarcou em seu destino final, Reginéia teve uma surpresa: quase todos os passageiros a rodearam, tiraram dinheiro do bolso e pagaram pelas trufas. Muitos, até compraram mais.
Quando Marianje, a filha da vendedora de trufas, chegou para buscá-la, Reginéia estava rindo sozinha.
(Marianje) - O que foi, mãe? Qual é a graça?
(Reginéia Aparecida) - Ah, minha fia… Esses granfinu é muitu tontu! Gasta uma nota di passagi, ispera qui nem tontu nas fila, paga pra podê levá mala, paga pra escolhê assentu, compra cumida cum preçu di putero e ainda viaja cheranu a bosta dos otro.
(Marianje) - Então a senhora odiou viajar de avião?
(Reginéia Aparecida) - Qui nada, fia. Eu vô é viajá sempre. E encarecê as trufa.
Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato: celsodossi@gmail.com
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