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Dona Adélia caiu num buraco do Guanabara

Por Redação |
| Tempo de leitura: 4 min

São tantos os buracos em Araçatuba que a família de dona Adélia Pereira dos Santos levou cinco dias para descobrir em qual deles ela se encontrava.

Polícia e população se juntaram e, com a ajuda de lanternas, cães farejadores e caminhões do Corpo de Bombeiros, viraram noites e noites procurando o tal buraco.

A chuva torrencial que havia caído no começo da semana acabou fazendo o asfalto ceder em vários pontos, abrindo centenas de novos buracos numa cidade já castigada por eles. Vista de cima, Araçatuba parecia um grande formigueiro.

E o celular de dona Adélia não ajudava. Aparelho antigo, operadora ruim, sinal fraco. "Alô, Gertrudes? Aqui é a xiiiiiiiiiiii… Eu tava voltano do mercado e xiiiiiiii… Avisa a Stefany e o Arlin xiiiiiiii… Socorro! Caí num xiiiiiiii…." Gertrudes, a vizinha de muro, fingiu desespero. "Qual buraco, mulher?" Dona Adélia, para piorar, tinha um algodão enfiado em cada ouvido, pois estava lutando contra uma otite. "Num ti ouço! Alô? Tô num buracu xiiiii… Sabe aquela praça do Viol xiiii… Minhas perna xiiiii…"

A ligação caiu e Gertrudes até pensou em ligar de volta, mas desistiu. "Ah, cabá com meus crédito tudo? Sifudê. Muié ruim, que fique nu buracu uns dia". E morreu de rir, já que, no fundo, detestava sua vizinha. "Mi deu até fomi. Buracu quenti kkkk". E explicou para si mesma. "É pão cum carni muida kkkkk".

A feição de Gertrudes mudou completamente quando Stefany, filha de Adélia, entrou em casa chorando e viu a vizinha do outro lado do muro. "Ai, dona Gertrudes, minha mãe caiu num buraco e ninguém sabe onde!" Gertrudes fez cara de piedade. "E eu num sei, fia? Sua mãe cabô de ligá!" Stefany levou um susto. "O que? Pra senhora? Por que ela não ligou pra mim?" Dona Gertrudes sentiu-se importante. "Ai, sei lá, vai vê num sabia o seu di cabeça…"

Gertrudes pensou em esconder o que sabia, afinal, além de detestar Adélia, jogava uma asa para Arlindo, o marido dela. Porém, com medo de ser descoberta, a aposentada abriu a boca. "A ligação tava qui era só chiadu, mais ela dissi praça du Viol". Stefany saiu em disparada. Getrudes seguiu varrendo o quintal. "Minina ingrata! Nem agradecê agradeci".

Com a informação de Stefany, o buraco que havia engolido a mãe dela foi encontrado em questão de minutos. E ele era gigante e profundo.

Policiais usavam suas lanternas, cães farejadores latiam e curiosos ficavam em volta, atrapalhando o resgate. "Todos fora daqui!", anunciou um policial."Obrigado pela ajuda, mas agora é com a gente".

Dona Adélia estava bem, apesar das mentiras que os curiosos saíram contando. "A velha perdeu as pernas", "Tem muita gente morta", "Parece que foi asteroide". A verdade é que a dona de casa só havia ralado a perna direita.

Jogando uma corda grossa, dois bombeiros avisaram a acidentada. "A gente vai descer e resgatar a senhora, mantenha-se calma". Dramática, dona Adélia queria negociar. "Se eu saí viva, queru recebê indenização em dinheiru, a chave da cidadi e a G Mazagine du Vavá". Os bombeiros se entreolharam. (Bombeiro 1) - Quem é Vavá? (Bombeiro 2) - Eu sei lá!

Em pouco mais de vinte minutos, dona Adélia estava a salvo. Canais de TV e curiosos que insistiram em ficar no local filmaram todo o resgate. Arlindo e Stefany abraçavam a acidentada, que aproveitou os quinze minutos de fama. "Óia, mi pegaru viva pur sorti! Tinha até cobra lá! Jararaca! A Globo tá aqui? Chama a Fátima. Ou a Ana Maria. Ela vai amá meu bolo de araruta".

Na Globo, a história de dona Adélia não chegou. Mas viralizou no YouTube mundo afora. "Old lady trapped in a giant hole - WATCH!", dizia a chamada de um dos vídeos postados. E como aquela chuva fortíssima havia aberto verdadeiras crateras por toda a cidade, fotos via satélite foram tiradas e Araçatuba acabou ficando conhecida mundialmente como "The Human Antill" ("O Formigueiro Humano").

Alguns habitantes sentiram-se orgulhosos. "É, meu filho, nóis aqui é pouca bosta, não. Alá Araçatuba no New York Times". Outros ficaram com vergonha. "Tanta coisa boa nossa pra mostrar, como o cupim casqueirado, e olha o que vira notícia".

Mesmo com sua mãe sã e salva, Stefany seguia revoltada. "A gente paga IPVA pra que?" E combinou com seus amigos de fazer um flashmob. Após acharem uma rua toda esburacada, eles cobriram cada um dos buracos com lona, encheram todos eles com água e fizeram um videoclipe, que também chegou nos quatro cantos do mundo.

Nele, um grupo de quarenta pessoas (Stefany e trinta e nove amigos), cada um dentro de um buraco (só com a cabeça e os braços de fora), faziam coreografias sincronizadas e cantarolavam. "Piscininha, amor. Piscininha, amor. Ótimo pra gente namorar, hein".

Morrendo de vergonha pela (má) fama internacional, o governo da cidade e o governo do Estado se juntaram para tapar os milhares e milhares de buracos que, há anos, causavam transtornos, prejuízos e acidentes sérios aos moradores de Araçatuba.

A população, finalmente, acabou sendo ouvida. E estava feliz.

Exceto dona Adélia.

Com um leve machucado na perna, a dona de casa havia recebido a chave a cidade e uma pequena indenização em dinheiro, mas seguia insatisfeita.

"A G Magazine do Vavá qui é bom eu num vi nem a cor, né? Pulíticu é tudo mintirosu mesmu".

Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista.

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