A depressão é a ferida da época. Solavancos emocionais são inevitáveis! A geração jovem, pasme-se, está se demonstrando mais vulnerável a este fenômeno. Administrar abalos emocionais é tarefa dura para todas as gerações. Começa a intrigar a difusa abordagem sádica entre os jovens frente a este distúrbio. Professores, pedagogos e psiquiatras andam alarmados com o número de jovens que, deprimidos e com baixa autoestima, aceitam ferir-se. A sensação de se sentir rejeitado não é nenhuma novidade nas fases adolescente e juvenil. Igualmente, não é nenhuma novidade a geração jovem apelar para chamar atenção sobre seu suposto estado de abandono. A alarmante novidade de nossos tempos é o recurso à autolesão para externar a angústia da solidão e da incompreensão.
Uma serena análise da realidade aponta para um fenômeno que vem ganhando corpo no ritmo atual de convívio. Pais e filhos andam se distanciando. De um lado, os pais estão convencidos que precisam desdobrar-se para poder fazer frente às tantas exigências impostas pela vida moderna. Do outro, os filhos também se veem submetidos a um regime de vida acelerado e sufocante. A consequência desse frenético ritmo é o esgotamento. Nos raros espaços de folga, cada geração procura descansar a sua maneira. Sobra pouco tempo e disposição para brincar e conversar. Para conviver, em suma. Este distanciamento gera na alma jovem a sensação de abandono. Por mais que o adolescente não queira admitir, ele sente uma tremenda necessidade do afeto dos pais. Quer amor. Urge insistir, não é que os pais estejam deixando de amar os filhos. O que acontece é que os pais não estão tendo tempo para, ou não estão sabendo, manifestar o carinho do jeito que o jovem quer. Sua sobrecarga é motivada por afeto sincero. Por outro lado, é preciso que se convença que não é somente de pão que o jovem vive. Ele precisa, e muito, de afeto, de aconchego. Quando não recebe a atenção que julga merecer, imagina-se descartável. O próximo estágio, previsível, é a depressão, a baixa autoestima.
No afã de encontrar uma porta de saída para este estado de sofrimento, o jovem depara com esta nefasta insinuação para a automutilação. A sensação da ausência de afeto prostra o jovem a tal ponto que o faz perder equilíbrio. Entre as meninas, a incidência pessimista é ainda maior, pois não se vendo amada, a garota se julga 'feia'. Desponta, então, o recurso somático para a autoagressão. A automutilação é um recurso extremo de punir-se ou de punir os responsáveis por essa situação de sofrimento emocional. A dor física, está cientificamente comprovado, é mais suportável que a dor afetiva. De um lado, educadores e profissionais de saúde, chamam a atenção dos pais para estar vigilantes quanto a mudanças de comportamento. Do outro, lembrar sempre que o adolescente e o jovem 'custa muito pouco, um pouco de muito amor'!
Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba
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