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A crítica dos mortos-vivos

Por Redação |
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Consumistas alienados, passivos e dominados por governos, corporações e pelo consumismo irracional que nos torna opressores dos mais fracos, esgotando nossa consciência individual para nos diluir em uma manada agressiva, ansiosa e faminta. Essa é, basicamente, a leitura ideológica padrão que se faz das obras artísticas sobre zumbis, ou mortos-vivos. Nós, na verdade, somos eles. Ou seja, somos nossa própria destruição. Nesta semana, pela primeira vez um filme de zumbis abriu o Festival de Cannes, na França. É um marco para o gênero que, apesar de ter fãs atentos, só recentemente passou a receber mais atenção do grande público. A obra é “Os Mortos Não Morrem”, do diretor americano Jim Jarmusch, e além de inaugurar este que é o mais prestigiado festival de cinema do mundo, também concorre ao prêmio principal, a Palma de Ouro. A tradição criada pelo gênero já cunhou seus cânones e a crítica social está presente desde os filmes de George Romero, diretor que se consagrou como o maior realizador de obras do tipo, a partir dos anos 1960. Em seus trabalhos, como A noite dos mortos-vivos (1968), Despertar dos mortos (1978) e Dia dos mortos (1985), vê-se uma crítica à turbulência do contexto social da Guerra Fria, ao consumismo, à ciência em prol do militarismo e à diferença entre classes. O filme que compete em Cannes não foge da tradição, estão dizendo os críticos que o assistiram na abertura. Classificaram-no como uma comédia trash que nos ironiza enquanto sociedade e ao governo (uma referência a Trump), por mentir afirmando que tudo está bem quando os mortos estão andando e atacando as pessoas. Leituras críticas à parte, muitos gostam mesmo é de ver sangue, vísceras e levar sustos em cenas tensas, de ação ou pânico geral. Entretanto, é a analogia que está por trás dessa estética de terror e violência que cativa milhões de fãs pelo mundo (eu, inclusive). Isso é o que tornou filmes de baixíssimo orçamento em símbolos cult, inaugurando um gênero no cinema que migrou para outras plataformas como quadrinhos, séries de TV, streaming, games, livros, brinquedos, eventos, parques e tantas outras franquias e patentes. No fim, aparentemente a crítica social feita com baixo orçamento acabou se tornando uma engrenagem de seu próprio alvo.

Fernando Verga é jornalista

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