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Suzicleide era do movimento antivacina

Por Redação |
| Tempo de leitura: 5 min

O sol mal havia nascido quando o celular de Patrícia começou a receber mensagens sequenciais de WhatsApp. Uma, duas, oito. "Pim. Pim. Pim." Irritada, a araçatubense xingou Deus e o mundo. "Quem será essa filha da pta do cralho que não respeita a prra dos sono dos otro?" Ao destravar o aparelho, constatou que a autora das mensagens era uma de suas melhores amigas, Suzicleide. E ficou preocupada, pulando da cama. "Cralho, véi! Será que aconteceu alguma coisa?"

Assim que leu os tópicos das mensagens, Patrícia voltou a ficar brava. Aliás, muito mais brava. "Ah, tomá no c! Essa safada tá ficano loca! Já passô da hora deu falá umas verdade nas oreia dela". Suzileide dizia ser adepta do movimento antivacina e havia enviado as seguintes notícias para Patrícia: "Vacina fracionada para febre amarela pode matar em sete dias", "Esqueça as vacinas: tome própolis", "Não vacine seus filhos, é mortal!", "O Zé Gotinha tem pacto com Satanás!", "10 razões pelas quais você não deveria vacinar seu filho(a)", "Nova gripe fatal pode ser curada com chá de erva-doce", "Vacina contra HPV sob julgamento no Japão devido a horríveis efeitos colaterais", "Simpatia infalível para curar poliomielite". Vinte minutos depois, Patrícia já estava na casa da amiga, descendo a lenha nela. "Cê come bosta, Suzicleide? Três filho pequeno nas costa e tá pensando em não vaciná eles?" Suzicleide levantou o indicador da mão direita enquanto passava café. "Pensando, não. Eu NÃO VÔ VACINÁ." Aa duas eram tão íntimas e se gostavam tanto que, por alguns segundos, Patrícia pensou em agredir a amiga. "Vô dá uns tapa pra vê se acorda". Mas pensou duas vezes. E propôs. "Suzi, bora lê uns artigo que printei da internet? Mais de site de confiança, não dessas merda de Zap iscrita tudo errado. As fonte aqui, ó: Ministério da Saúde, Estadão, G1, Drauzio Varella…" Com muita má vontade, Suzicleide puxou uma cadeira. "Esse Drauzio não é aquele que fica mandano a gente pará de fumá? Detesto esse homi." Vendo que Patrícia a olhava seriamente, Suzicleide acabou cedendo. "Tá, vai falano aí." Patrícia então foi lendo diversas matérias que alertavam a população e explicavam o assunto. "Há 50 anos, o Brasil registrava 100 mil casos de sarampo e 10 mil de poliomielite por ano", "Doenças contagiosas que foram erradicadas correm risco de voltar", "Vacinas, além de evitarem o adoecimento, protegem contra danos irreversíveis como cegueira, surdez e paralisia infantil". Com ar de deboche, Suzicleide soltou fez um barulho com a boca enquanto molhava o pão no café com leite. "Feiqui nius, fia. Eu sô do movimento antivacina". Patrícia teve que pensar mais vinte vezes para não voar no pescoço da amiga. "Eu vô pesquisá sobre esse movimento aí, peraí". E bastou dar um google para dividir a origem da história. "O movimento antivacina foi criado por um médico britânico em 1998, que publicou um estudo sem embasamento e nem autorização do conselho médico do Reino Unido, fazendo com que o medo das vacinas se alastrasse. Posteriormente, foi descoberto que Andrew, o tal médico, alterava os dados do estudo para reforçar sua teoria. E a revista que publicou o artigo veio a se retratar publicamente em 2004. Mesmo assim, alguns pais seguiram com medo de vacinar seus filhos. Resultado: o falso estudo acabou rodando o mundo e o tal movimento antivacina poderá fazer com que milhões de pessoas, principalmente crianças, acabem morrendo." Suzicleide soltou uma risadinha pelo nariz. "A mídia mentiu pra gente por tanto tempo, né? Agora é nóis no Zap, fia". Desacreditada, Patrícia não sabia o que fazer. E ficou apavorada quando os três filhos da amiga, vestidos com uniforme de escola, chegaram para tomar café da manhã. "Oi, tia!" "Bom dia, tia Patrícia". O ápice do desespero atingiu o peito de Patrícia quando o caçula de Suzicleide, Mateus, a cumprimentou. "Bença, tia". Foi aí que Patrícia se deu conta da responsabilidade que tinha, falando em pensamento. "Cralho, eu sou madrinha dele! É minha obrigação fazê alguma coisa".

Mateus ficou triste, pois o "Deus te abençoe" nunca veio. Assim como também nunca veio uma despedida. Patrícia saiu parecendo um tiro. Suzicleide olhou para os filhos rodando o indicador em volta da orelha. "Doida".

Com a ajuda (e a assinatura) de Osvaldo, ex-marido de Suzicleide, Patrícia conseguiu uma ordem judicial obrigando a amiga a vacinar seus filhos. Por ter se recusado, Suzicleide acabou sendo presa. Já seus três filhos receberam todas as vacinas necessárias (e novas cadernetas de vacinação, já que Suzi havia picotado todas).

Como num caso parecido que aconteceu em Michigan, nos Estados Unidos, a prisão durou apenas uma semana.

E mesmo morrendo de medo de levar uma surra da amiga, Patrícia foi até a casa dela. Não estava arrependida, mas sentia que precisava pedir desculpas pela medida drástica.

Precavida, nem tirou o capacete quando desceu da moto. "Pode me estorá intera, mais a cabeça, não, véi".

Para sua total surpresa, encontrou Suzicleide de uma maneira bem diferente da qual havia imaginado: deitada e pálida.

Patrícia, suplicando por perdão, começou a dobrar os joelhos. Antes que o joelho direito encostasse no chão, Suzicleide mostrou a palma de uma mão, pedindo que ela parasse. E então abriu um sorriso, agradecendo a amiga com o pouco de energia que tinha em seu corpo.

"Ai, cumadre, nada disso. Pode levantá. Cê tava certa, doença é coisa séria. Brigada, vô sê eternamente grata".

E antes que Patrícia tivesse tempo de responder, Suzicleide concluiu. "Paty, me faz um favor. Senta aí e pesquisa nesses seu site de confiança: quando é que sai uma vacina pra dengue?"

Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato: celsodossi@gmail.com

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