Artigo

Palavras impronunciáveis

Por Redação |
| Tempo de leitura: 2 min

Há quem diga que a civilização fundou-se com o advento da linguagem. O momento em que o real foi representado pelo símbolo. Para o cérebro, palavras não são meras representações, possuem uma propriedade causal, são gatilhos de esquemas, estereótipos e roteiros de comportamento. Palavras são gatilhos de afetos, positivos e negativos. Pasmem, há palavras impronunciáveis, impublicáveis, indizíveis não importa a sofisticação semântica que o texto traga, há ouvidos sensíveis que não podem suportar a beleza das libertinagens verbais, das insinuantes, e eróticas obscenidades da escrita, o que é um paradoxo. O cotidiano é repleto de jocosas expressões que não encantam, não informam, não seduzem, mas ofendem e criam conflito. Essas parecem não ser mais reprováveis. Respeito com os palavrões! Léxico imprescindível de expressão e sublimação de nossas raivas e afetos negativos. Ao invés da agressão de empurrarmos alguém, mandamos o sujeito para a casa do carvalho! O poder de combinação da sintaxe de um palavrão é uma proeza subcortical. Sintetiza a metáfora perfeita do estado emocional e da atitude naquele exato instante, não é f? Expressões idiomáticas, configuram o grupo de duas ou mais palavras às quais não se identifica significado apenas observando o sentido literal dos termos, é excelente exemplo de como palavrões surgem. Tente dizer a um estrangeiro: “Não f!” , “P* das galáxias”, “Tu tá f* ”. Basicamente, na primeira você quer encerrar o assunto e evitar desgaste, na segunda quer dizer que algo é muito bom e na terceira que alguém está bem encrencado. Expliquei nessa coluna que pessoas conservadoras tendem a ser mais sensíveis ao nojo e por isso a presença de palavrões, ainda que em contexto adequado e plausível, tende a ativar os altos padrões de moral vigentes. Palavrões derivam basicamente de dois tópicos muito primitivos para o sistema límbico, o sexo e os excrementos. Mandamos homens a M* ou chamamos mulheres de memórias tristes do Gabriel García Marquez. Não pegou a referência? Pergunte ao Dr. Google. É uma daquelas palavras impronunciáveis que não devem ser ditas ou escritas nem que tenham rendido um prêmio Nobel de literatura.

Rui Matheus Joaquim é psicólogo

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