A lembrança é o que desperta o sentimento saudosista, proporcionando tristezas ou alegrias, a depender do que ou de quem lembramos. Mas a lembrança também é um importante professor. Lembrar dos acertos e, principalmente, dos erros nos leva a errar menos no futuro. Já há muito tempo, as crianças perceberam isso jogando videogame. A cada vez que perdem o jogo, descobrem o que não se deve fazer para chegar à fase seguinte e assim sucessivamente até zerar o game.
A lembrança também permite ao indivíduo repetir os acertos. Mas, quando se trata de uma sociedade, evitar os erros e conservar os acertos demanda uma memória coletiva, que é construída somente por meio da cultura e do conhecimento transmitidos de uma geração para outra.
A conservação de símbolos históricos, que perpetuam determinada época, fase ou acontecimento de uma sociedade, é uma das maneiras mais eficazes de se transmitir para as futuras gerações essa cultura e esse conhecimento. Em Araçatuba, estamos vivendo uma triste realidade. A atual administração municipal, infelizmente, ignorando a origem e a história do município que administra, anunciou que pretende demolir a antiga estação ferroviária, diminuindo sua importância ao se referir a ela como uma simples “plataforma”.
Sou neto de ferroviário. Não fosse aquela “plataforma”, meu avó jamais teria migrado para Araçatuba. Mas, se aquela “plataforma” for demolida, meu filho, que tem quase cinco anos, não terá a oportunidade de contemplar o local onde seu bisavô trabalhou, não conhecerá uma parte da história de Araçatuba, nem da sua própria árvore genealógica.
Desmerecer a importância do registro histórico por meio da preservação de seus monumentos e símbolos subtrai dos mais jovens o direito de compreender a evolução da sociedade; usurpa desses jovens a oportunidade de contemplar a história, conhecendo-a não apenas nos livros, mas também na observação de prédios como a “plataforma”.
Em 2017, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo tombou o prédio da Rua Tutoia, 291, na capital paulista. Se isso tivesse ocorrido antes, talvez muitos dos nossos jovens não estivessem hoje, a reboque do presidente Jair Bolsonaro, flertando com o período mais sombrio da nossa história pós-abolição.
Evandro da Silva é advogado
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