Cultura

O que ver em um filme de 100 anos

Por Redação |
| Tempo de leitura: 2 min

O centenário do cinema foi comemorado em 1995 e a cada ano que passa obras do início do século XX alcançam esta marca. É um misto de espanto com melancolia pensar que daqui um tempo filmes como O Mágico de Oz …E o vento levou e boa parte da filmografia de Charles Chaplin estarão aí, no panteão dos centenários. Viver para ver as mídias aniversariarem tudo isso é ser confrontado cotidianamente com o registro em imagens do que fizemos no último século, o século das mídias. Esse arquivo imagético, hoje bastante acessível pela internet, é uma oportunidade para reflexões sobre nós enquanto indivíduos, identidade, sociedade, humanidade.

Mas o que podemos ver em filmes de 100 anos ou mais, além de boas histórias?

Para romper o preconceito com cinema mudo, em preto e branco, com narrativas diferentes da linearidade que o cinema blockbuster oferece, é preciso se colocar em outro contexto. Ver filmes alemães é uma experiência interessante: este país estava um caos quando começou a produzir filmes dos mais clássicos de todos os tempos, pois acabara de perder a Primeira Guerra. Então, todo o sentimento que girava em torno disso transbordava na arte alemã. No cinema, o caos político e social se transformou em sombras.

A obra alemã O Gabinete do Dr. Caligari (1919), do diretor Paul Wegener, entra neste ano no Hall dos Cem. Conta a história de um mágico e um sonâmbulo que chegam na cidade para participar da feira como mais uma das atrações, mas um cenário de terror se desenrola e atinge a vida de um jovem apaixonado.

Parece coisa de sessão da tarde, não é? Mas trata-se de uma produção que desbravou os desconhecidos potenciais da tecnologia que estava se desenvolvendo, a do cinema, e explorou uma nova linguagem para dar sentimento às imagens capturadas. Nascia aí o cinema expressionista alemão, o ancestral de todos os filmes de terror, suspense e noir. Todos os outros filmes do expressionismo ancoram sua estética em Gabinete (ou a desenvolvem a partir dela), e diretores atuais famosos, como o americano Tim Burton e o alemão Win Wenders, são exemplos de como essas raízes se espalharam.

Fernando Verga é jornalista

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