Quem não se lembra da Pollyanna, aquela personagem chatíss… super pra cima do romance de Eleanor H. Porter, clássico da literatura infanto-juvenil? Resumo do livro: menina de onze anos perde pai e vai morar com tia rica e ruim numa cidade pequena. Maltratada, coloca em prática algo que havia aprendido com seu genitor: o "jogo do contente", que consiste enxergar o lado positivo de tudo, inclusive de coisas bem ruins. A menina passa o livro todo ensinando o tal jogo para quem cruzasse seu caminho.)
Bem, por algum motivo desconhecido, Pollyanna acabou saindo de Beldingsville (Vermont, EUA) e vindo parar em Araçatuba. Dizem que foi a própria tia Polly que a enviou para um intercâmbio, pois ninguém mais aguentava a alegria excessiva da menina naquela pacata cidadezinha americana. Talvez seja apenas um rumor, motivo pelo qual este detalhe não vem ao caso.
Depois de desembarcar no Aeroporto Internacional de Guarulhos e ficar sabendo que suas malas haviam sido extraviadas ("Ai, que ótimo, assim só carrego minha maleta de bordo!"), Pollyanna pegou um ônibus convencional na Barra Funda que parou em diversas cidades, demorando onze horas para chegar. "Ai, que delícia! Bauru, Lins, Penápolis, Birigui… AMO conhecer lugares novos!" O fato de ter comido uma coxinha estragada no percurso também não a afetou. "Maravilha, assim chego super esbelta!"
A família que iria hospedar Pollyanna por um ano logo perdeu a paciência com a menina e começou a enfiá-la em diversos passeios. E foi num trenzinho cheio de personagens infantis que ela rodou pela cidade. "Nossa, que Mickey desfigurado! Deve ter sofrido um derrame. Que bom que sobreviveu!"
Enquanto o trem rodava a cidade, Pollyanna foi se encantando com tudo. "Que asfalto esburacado! Uhul, assim dá mais emoção!" E adorou quando a parte dianteira do trenzinho caiu numa valeta. "Quem sabe não há uma passagem secreta embaixo dessa água marrom?"
Foram mais de duas horas embaixo de sol quente antes que o trem voltasse a funcionar, o que fez Pollyanna vibrar. "Amo pressão baixa! Ver tudo ficando escuro, essa sensação de desmaio, delícia!" E emendou. "Eu nunca tive queimadura de segundo grau antes. Louca para ver as bolhinhas!"
Pollyanna também ficou encantada com o centro da cidade. "Nossa, um calçadão! E as pessoas comem churro com este calor? Que aventureiras, amei!" E tomou um susto quando uma velhinha foi atropelada por um motociclista na frente do semáforo. "Meu Deus, as pessoas aqui não respeitam faixas de pedestres? Bom, pelo menos a velhinha tá viva e foi levantada pelo motoqueiro, quem sabe não nasce uma grande amizade?"
Quando o trem começou a circular por alguns bairros, Pollyanna teve novas surpresas. "Gente, esfaquearam um homem na rua para levar o celular dele? Bom, pelo menos era um Motorola." Logo adiante, viu um assalto à mão armada. "As pessoas aqui colocam revólver na cabeça das outras para roubar uma bolsa? Bem, era aquela bolsa horrorosa do macaquinho, menos mal!"
Curiosa, colocou a cabeça pra fora do trem quando ele passou por um terreno baldio. "Quantos escorpiões! Para deixarem ter tantos, certeza que eles são inofensivos e não matam ninguém! Cidade amiga dos animais!" E também adorou quando um mosquito da dengue pousou em seu braço direito. "Que fofo, tem as perninhas rajadinhas! Vou criá-lo num pneu velho lá de casa."
Um prédio de uma empresas de transporte de valores foi explodido por uma quadrilha bem no momento em que o trenzinho de Pollyanna passava por na frente dele. "Meu Deus, eles têm uma Hollywood própria! Que pirotecnia, parece real!" Ao ver o público do trem gritando, a menina achou que todos ali eram figurantes, inclusive ela. E tratou de gritar também. "AAAAAHHHHH!"
O cobrador do trem acabou sendo atingido por dois tiros e caiu duro na hora. Pollyanna ficou boquiaberta e comentou com a mulher sentada ao lado. "Nunca vi algo tão realista, senhora. O cinema de vocês é espetacular!" Desesperada, a mulher respondeu. "Abaixa essa cabeça, menina! Ele foi morto de verdade!" Pollyanna deu de ombros. "Pelo menos, morreu pela arte."
Assim que o trem entrou na João Arruda Brasil, Pollyanna notou que a avenida estava inundada pelas águas do Machadinho. "Que espetacular! Um pântano!" E tomou um baita susto quando um automóvel caiu no valetão central, sentindo-se aliviada segundos depois. "Ah, era uma Kombi. Antes isso do que pegar fogo!" Duas quadras depois, viu duas palmeiras-imperiais sendo cortadas. "Que horror! Bom, pelo menos deu emprego para este senhor de motosserra!"
Pollyanna também ficou abismada ao perceber que Araçatuba tinha poucas árvores. "A cidade da minha tia é toda arborizada, por que aqui não é igual?" Pensativa, voltou a acionar o "jogo do contente". "Os habitantes daqui podem até não ter sombra e sofrerem com tanto calor, mas certeza que eles não têm deficiência de vitamina D!"
Ao perguntar sobre os museus da cidade e ficar sabendo que eles viviam fechados para manutenção, Pollyanna comemorou. "É sempre bom conservar direitinho." E se emocionou quando disseram que patrimônios tombados haviam sido demolidos. "Como isso é possível? Bom, se as pessoas aqui se importam tão pouco com o passado, devem focar bastante no futuro!"
Quando o trenzinho estacionou na calçada, Pollyanna desceu correndo e abraçou Marlene, sua mãe de intercâmbio, com toda força do mundo. "Obrigada! Que lugar maravilhoso! A senhora é tão boa pra mim!" Revirando os olhos, Marlene respondeu em pensamento. "Essa menina é louca."
Pollyanna nunca havia sido tão feliz quanto naquele ano em que morou em Araçatuba.
Tia Polly ficou possessa quando a menina retornou mais alegre ainda. E o pior: dizendo palavras que ninguém entendia. "Vôti, véi! Que saudade de um dunga-dog!"
Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato: celsodossi@gmail.com
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