O calor escaldante de janeiro havia conseguido ensopar até o saiote de Dona Antônia, motivo pelo qual a costureira chegou em casa andando de forma estranha. Dava passos curtos que faziam com que suas pernas se esfregassem. Crisântema caiu na risada. "Que isso, mãe? Tá cagada?" Dona Antônia, já irritadíssima por causa de uma daquelas gotas de suor que conseguem a proeza de escorrer da testa até um olho, vencendo a barreira da sobrancelha, perdeu a linha. "Ah, feladaputa! Eu caguei foi quando ti puis no mundo!"
E correu tomar um banho, esbravejando. "Manda a própria mãe a pé rodá os mercado da cidade embaixo de um sol lazarento desse pra procurá um tal de sal rosa e ainda tira sarro da cara dela. Eu divia tê ligado as trompa!" E antes de fechar a porta do banheiro, sentenciou: "Passei em sete mercado, tem merda de sal rosa porcaria nenhuma. Andei que nem uma jumenta, só num caí dura porque as mocinha simpática do Bom Sucesso me dero água com açúca. Ci quisé, compra Sal Cisne e pinta, sua vagabunda!"
Achando que Dona Antônia não havia procurado direito, Cristântema ligou para Jezebele, sua melhor amiga, e marcou um encontro: "Praça Getúlio Vargas, cinco e meia, banco de sempre". E assim que Jezebele apareceu, Crisântema colocou as cartas na mesa, sem esconder nenhuma.
"Fiz as contas, miga: se a gente tá com vinte e sete e começou aos dezoito, já faz nove anos que a gente tenta alcançar o 'Projeto Verão'. NOVE! Pra mim, este vai ser o último. Quantas coisas nós já tentamos? Dieta da Lua, do Abacaxi, da Sopa de Cebola, das Estrelas de Hollywood, do Pepino, Intravenosa, da Água Morna com Limão…" Jezebele complementou: "Fora as famosas, né? Dukan, Ravenna, Atkins, Cetogênica… Aff, a gente é um fracasso!"
Crisântema não queria que Jezebele desanimasse, sabia que isso a faria desanimar também. "Ai, fracasso é nem tentar! Bora pra nossa última tentativa de 'Projeto Verão', ok?" Jezebele ainda não estava convencida. "Mas quem começa 'Projeto Verão' no verão, Cris? O deste ano já foi. Falhamos na primavera, agora só no fim do ano."
O desespero fez Crisântema pular do banco e encarar a amiga. "A gente adianta! Vou passar na academia e falar com o Marcos personal. Ele chegou de São Paulo, é super top! Já viu o corpo da Claudia Raia? Ele que fez." Jezebele ficou curiosa. "Se a gente teve que juntar dinheiro pro sal rosa do Himalaia, vai pagar personal como?" A ficha de Crisântema caiu. "Ai, verdade. Ainda mais que o Marcos é de capricórnio, adora dinheiro… Mas eu vou dar um google, me viro."
Jezebele finalmente embarcou no desafio. "Tá bom, tô dentro. Mas vai ser a última vez! Ou a gente alcança nossos dois objetivos, ou desencano de vez e vou ser feliz."
Crisântema se preocupou. "Você não é feliz?" Jezebele saiu andando, olhou para trás e respondeu dando risada. "Alguém é feliz sem um pote de Nutella?"
Como Jezebele bem havia lembrado, os objetivos da dupla eram dois: barriga e bochechas negativas. Ou seja: não bastava ter barriga e bochechas sem gordura nenhuma, a elas precisavam estar afundadas. (Barriga e bochechas negativas viraram moda mundo afora. Caso não acredite, faça que nem Crisântema e dê um google).
Além do desânimo de Jezebele e da impaciência de Dona Antônia, Crisântema ainda tinha que lidar com o fato de que todos os produtos saudáveis, integrais, orgânicos, diet, light, sem glúten, zero gordura ou sem açúcar eram extremamente caros. "Tô com vinte e sete reais no banco, será que existe Dieta do Miojo?"
Cansada de ouvir a mesma papagaiada das musas fitness do Instagram (dizendo que todo mundo pode conseguir o corpo que elas têm, que "basta foco, força e fé", que "tudo o que você precisa é comprar este shake da minha linha"), Crisântema parou de segui-las. E mandou Jezebele fazer o mesmo. "Elas ganham para isso, amiga. Seis horas da manhã e aquele grilo já tá suando no parque! A gente lá tem tempo pra isso?"
Por sorte ou azar, o filme "Rocky: Um Lutador" passou na "Sessão da Tarde" bem no dia seguinte, quando Crisântema já não sabia mais o que fazer e havia resolvido entregar para Deus, ligando a tevê e se jogando no sofá da sala para distrair a cabeça.
Vendo Rocky se exercitando em vários pontos de sua cidade, Filadélfia, a estudante ficou em êxtase. "É isso! Só pode ser um sinal!" E ligou para a melhor amiga: "Zebel, lava seu tênis de corrida, separa uma roupinha confortável e amanhã a gente começa." Antes de ouvir uma pergunta, continuou. "Vai no YouTube e assiste "Rocky: Um Lutador." O primeiro da série, viu? Amanhã, passo na sua casa às quatro da manhã." E desligou.
Jezelebe, que nem era louca de contrariar a amiga, obedeceu.
A cidade estava completamente escura quando Crisântema chegou para buscar a amiga. De tênis, testeira rosa de algodão atoalhado e conjunto de moletom (que logo no segundo dia foi substituído por short e camiseta, já que a diferença de temperatura entre o verão de Araçatuba e o inverno da Filadélfia costuma ultrapassar quarenta graus).
Tendo baixado o tema do filme, ("Gonna Fly Now", uma cancão orquestrada), a filha de Dona Antônia colocou o MP3 Player no modo "repetir" e deu um dos fones de ouvido para Jezebele. Já que era para recriar a história de sucesso de Rocky Balboa, que a experiência fosse completa. E assim como o protagonista do filme, as duas saíram correndo e fazendo exercícios em diversos pontos da cidade.
Subiam e desciam as escadas do coreto da Praça Rui Barbosa e também as escadas da Prefeitura Municipal sem parar um minuto. Desciam até a Pompeu, subiam novamente. Muitos polichinelos, muitos alongamentos. Até o antigo bebedouro de cavalos da Rua Estilac Leal acabou sendo visitado pela dupla numa madrugada quente, quando Crisântema resolveu que precisava muito lavar seu rosto. Para sua tristeza, o bebedouro ainda estava lá, mas sem água. "Merda de mosquito da dengue! Certeza tá vazio por causa desse filho da pta!" Por insistência de Crisântema, o ritual se repetiu por vários meses, todos os dias da semana. A parte da comidas fitness havia sido deixada de lado. "Acha que o Rocky comia essas desgraças? Nem existia semente de chia, óleo de coco, omelete de clara. Pra ptaqueopariu. Com esse tanto de caloria que a gente queima, dá pra deixar tudo negativo até se a gente comer três churros". Infelizmente, não deu.
Setembro chegou e, ao contrário do personagem de Sylvester Stallone, a dupla de amigas não alcançou seus objetivos. E numa noite de sexta-feira, Jezebele mandou uma mensagem de WhatsApp. "Deu para mim, Cris. Se quiser continuar, arrasa! Amanhã, quero é acordar bem tarde, chega de madrugar. Bjs." Insistente como sempre, Crisântema correu (literalmente) para a casa da amiga.
Chegando lá, levou um susto. Jezebele estava largada num sofá, devorando um pote grande de Nutella. Estampando um sorriso cheio de contentamento, lambia a colher de sopa como uma criança de cinco anos, o que havia deixado seu rosto quase todo melecado. E nem as broncas de sua amiga estragaram aquele momento tão feliz para ela.
"Na boa? Quero que o Rocky se fda. Se eu escutar mais uma vez aquela música idiota, acho que mato alguém. E já que não consegui nem barriga e nem bochecha negativa, deixei que minha conta bancária ficasse. Comprei seis potes de Nutella". Com uma feição estranha no rosto, soltou uma gargalhada de bruxa de desenho animado. "Arrárrárrárrárrárrá!" E antes que a amiga dissesse um "a", completou. "Meu c, Pugliesi! Arrárrárrárrárrárrá!" Sem saber o que dizer, Crisântema foi embora.
A vida acabou ficando melhor para ambas. Enquanto Jezebele se entregou a sua paixão sem nenhuma culpa ("vou passar Nutella até no bilau do Ricardo"), Crisântema seguiu com os treinos diários ("melhor assim, agora tenho os dois fones de ouvido para mim").
As duas nunca estiveram tão felizes.
Crisântema e Jezebele aprenderam que cada pessoa se realiza de uma forma diferente.
E que o que importa na vida é tentar manter a cabeça positiva, estando outras partes do corpo negativas ou não.
Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato: celsodossi@gmail.com
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