Artigo

Reginaldo só queria reviver bons momentos

Por Redação |
| Tempo de leitura: 8 min

Saudosismo é um termo pejorativo para muita gente, inclusive para dicionários ("saudosismo é o gosto fundado na valorização demasiada do passado"), mas não para cancerianos. As pessoas do signo de câncer vivem o presente, pensam no futuro, mas valorizam momentos, coisas e pessoas que foram especiais em determinados momentos de suas vidas. Para deixar mais claro: cancerianos são "saudosistas seletivos". E este era o caso de Reginaldo.

Criticado por quase toda família, inclusive pelos dois irmãos, Renan e Marcel, e pelo pai, Seu Nelson, Reginaldo nem dava bola. E seguia relembrando, sempre com olhos marejados, tudo o que, um dia, havia o feito feliz. "Essas máquinas de café expresso nem chegam perto daquele pilãozinho do vô, né, mãe?" Seu Nelson, impaciente e chacoalhando um molho de chaves, cortava logo o papo. "Ah, Reginaldo, toma essa droga logo e bora trabalhar!"

A sorte de Reginaldo era poder contar com a total compreensão de sua mãe, Ivaneide (que, não por acaso, também era canceriana). "Amanhã a gente faz café moído no pilãozinho, tá filho? Eu comprei um igualzinho o do meu pai." E acompanhando Reginaldo até o portão de sua casa, despediu-se dele através de um beijo na testa. "Agora vou providenciar um filtro de pano."

E foi por este excesso de (bom) saudosismo (e também pela ideia de seu amigo Vitinho, um rapaz animado e da pá virada que parecia estar sempre ligado no duzentos e vinte) que Reginaldo resolveu organizar uma festa para voltar a reunir toda sua família. Ou melhor: toda sua família paterna.

Que era numerosa, italiana e barulhenta. E que, décadas atrás, costumava passar o Natal no quintal grande e aconchegante de seus já finados avós. "A vó Veneza exigia a presença de todos, também vou exigir." Adicionou todos os membros de família num grupo de WhatsApp e foi chamando um por um. E avisou para seus pais. "Podem deixar tudo comigo, só quero que ninguém me encha o saco!"

O único problema é que a avó materna de Reginaldo, Dona Jura, adorava encher o saco. Dele e de todo mundo. "Eu aqui com oitenta ano usano sutiã de zebra e ocê novo assim querendo passá café de pilão? Ah, vai cagá, Naldo! Aliás, já que ocê gosta de vivê de passado, troca esses papel Neve folha tripla aí por ispiga de milho. Era assim que eu fazia seu avô limpá o toba." E dava uma risada longa e prazerosa enquanto mexia os dedos dos pés e piscava sem parar.

Dona Jura implicava com tudo. "Muleque descompassado! Ao invéis de deixá os filho ouvi novidade no rádio, fica levando os coitado pra São Paulo vê show de véio cabeludo balançando a cabeça! E gasta uma dinheirama, Neide!" A filha respondia com um sorriso, já que não tinha mais nada a fazer. "Mas o Néo e o Fi adoram, mãe. Deixa eles." Dona Jura não deixava. "Eles adora porque os coitado só ouve isso! E no último volume! Esses cantor véio indiabrado fica comeno murcego e gritanu na oreia da gente… Vão acabá me deixano surda!" E ela ainda colocava medo na filha. "Pra vê essas coisa do capeta todo mundo têm tempo e dinhero, né? Na igreja, ninguém vai. Cêis vão vê onde vão cêis vão tudo pará!"

Ivaneide, com sua paciência de Jó, deixava a mãe falar o que queria, mesmo quando Dona Jura passava dos limites, colocando a culpa de todos os males do mundo nas costas de seu finado marido, o que acontecia quase sempre. "Esses muleque seu puxaro pra quem? Pro parado do Arvino! Sambanga dos inferno! Sempre quereno agradá os outro, num guardava dinhero na poupancinha, óia só o que me sobrô. Desgosto!"

Na verdade, Dona Jura estava morrendo de ciúmes. Não entendia porque Reginaldo iria fazer uma festa para juntar a família de seus avós que já haviam falecido se ela ainda estava viva. "Esse zóiudo não tem consideração com a própria vó. Cabeça de birro! Vai comê mamão, vai." E se levantava da cadeira puxando a saia e o saiote, levemente enfiados entre suas nádegas, enquanto soltava desaforos e largava a filha sozinha. "Cê criô um bando de tranjão parado! O mais véio sambangado, o do meio que nem dançá sabe e o mais novo… Ah, esse até puxô pra mim, só que ficô gordo e desanimô. Cê foi inchê o coitado de cumida… Crendeuspai."

E Dona Jura querendo ou não, a festa de Reginaldo foi tomando forma. Mesmo com os comentários da avó atacando de forma pesada todas as decisões do neto. (Reginaldo) - Eu vou fazer aquelas batatinhas em conserva do tio Nércio, mãe. (Dona Jura) - Aquelas de buteco que bêbado comi di palito? Té manhã. (Reginaldo) - A carne eu vou servir em pratinho de papelão, pro povo ir beliscando o dia inteiro. (Dona Jura) - Quem bilisca é papagaio. Gente gosta de comê. (Reginaldo) - A festa vai ser na minha casa, hotel é muito impessoal. (Dona Jura) - Cem pessoa amuntuada em volta daquela churrasquera isfumaçada? Só por Deus.

Reginaldo respirava fundo e seguia conversando com sua mãe, fingindo que Dona Jura não estava ali, mesmo (sem perceber) estar respondendo cada comentário dela.

(Reginaldo) - Vai estar um calor da po**a, mandei o povo trazer roupa de piscina. (Dona Jura) - Vai é chovê. Minha nuca arde quando vai chovê. E pelo tanto que ardeu, vem é toró por aí. (Reginaldo) - Melhor alugar uma tenda, né, mãe? Vai que chove. Vou checar a previsão do tempo para o dia vinte e três. (Dona Jura) - Vinte e trêis de dezembro? Dois dia antes do Natal? Não vai vim é ninguém. Pode até congelá a carne pra num estragá.

Enquanto o neto ia para lá e para cá atrás dos preparativos, Dona Jura, tentando se proteger do sol escaldante de Araçatuba por uma sombrinha florida, ia seguindo todos os passos dele.

(Dona Jura) - Tem colchão pra todo mundo, fio? Num vai tratá os otro que nem criação! E essas caneca, que isso? Quem gosta de ganhá caneca? Eu fico pra morrê se ganho caneca… Música ao vivo? Vai contratá gente? Sorte tinha o seu vô, que pudia baixá o volume do aparelhinho de surdez. E se aquele seus primo atentado bebê e começá a cantá? Certeza que eles vão começá a cantá. Descunjuro! Reginaldo finalmente perdeu a paciência. "Poa, vó, tenha dó!" E Dona Jura finalmente ficou satisfeita. "Mais eu tenho dó, fio. Dó dos vizinho."

Arrotando alto, a senhora de cabelos escuros que viviam aparados por uma presilha plástica que parecia um garfo foi embora para sua casa, não voltando a ver o neto até o dia da festa dele. Ou melhor: nem no dia da festa dele.

Fingindo não ter sido convidada, Dona Jura desdenhava o evento falando sozinha. "Num quiria ir mesmo. Italianada sem modo. Só sabe gritá. E o tanto que bebe? Raça cheia de vício! Quero mais é que o sol torre as mamona deles!" E quase se engasgou com a própria risada enquanto mastigava uma bolacha de maisena que havia sido molhada no leite. "A culpa é da Neide! Eu aviso que Marilan engasga a gente."

Semanas mais tarde, a festa de Reginaldo acabou acontecendo. E foi um grande sucesso, contrariando as dezenas de empecilhos, reclamações e maldições de sua avó ciumenta.

Como quase todos os familiares apareceram, a carne não precisou ser congelada. Pelo contrário: Reginaldo precisou reforçar o menu com uma caçarola enorme lotada de dobradinha. (Ainda bem que Dona Jura nem ficou sabendo, pois teria feito careta. "E eu lá como um trem fidido desse?").

As batatas em conserva, o molho de noz-moscada e muitos outros detalhes fizeram os convidados se lembrarem (com muito carinho e saudade) do tio Nércio, assim como de todos os outros membros da família que já haviam partido. Muitas fotos foram tiradas, muitos vídeos foram gravados. Choraram de rir, choraram por tantos outros motivos.

O dia estava aberto e ensolarado. Desta vez, a nuca da Dona Jura havia se enganado. O calor realmente ultrapassou todos os limites, mas se Araçatuba já costuma ser uma cidade quente durante o ano todo, em dezembro é que ela não iria ficar refrescante. E o enorme toldo branco, alugado por medo da tal chuva, acabou servindo para amenizar a temperatura alta.

Uma pena Dona Jura não ter deixado o ciúme de lado e acabar comparecendo.

Ela teria visto, pela primeira vez, seu neto Marcel dançar. E não só dançar. Dançar, cantar e vomitar. Do jeito que ela adorava uma coisa errada, (era geminiana), Dona Jura teria se esborrachado de rir. E curtido a música ao vivo, se divertido com "os primo atentado que bebia e cantava", conversado com todo mundo e, feliz da vida, levado algumas canecas para casa.

Quem sabe ano que vem, quando o encontro se repetir?
Dona Jura, que mora dois quarteirões de distância do neto, só não pôde dizer que nem se lembrou da festa de Reginaldo por causa do susto enorme que levou.

Enquanto rezava na beirada de sua cama, um barulho estrondoso de rojão quase estourou seus tímpanos. E a fez jogar seu terço longe.
Como de boba ela não tinha nada, nem foi preciso refletir muito para que Dona Jura chegasse à autoria do "atentado".

"Vitinho lazarento desacorçoado filho de uma égua! Queria que esses rojão explodisse era no meio do rabão portugueis dele!"

As pragas que Dona Jura havia jogado na festa de Reginaldo não haviam pegado, mas não é que a praga que ela jogou em Vitinho acabou pegando?
Um dos rojões que ele soltou acabou explodindo no corpo dele. Não exatamente no meio do rabo como Dona Jura queria, mas em uma das pernas.

Se ela tivesse tido tempo de terminar o terço todo, talvez Vitinho fosse obrigado a sentar-se de ladinho pelo resto da vida.

Celso Dossi é escritor, colunista e roteirista. Contato: celsodossi@gmail.com

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