Acordou súbito em plena escuridão. Tudo continuava dormindo. Não havia sequer frágeis fiapos de claridade da manhã que, evidentemente, vinha chegando. Aquilo lhe acontecia com frequência, era verdade. Mas aquele dia parecia-lhe diferente. Além da ausência de índice de manhã acontecendo, o escuro estava mais negro. De certo o tempo estava fechado de chuva. Embora soubesse cada coisa no quarto, os olhos não captavam nada. Chegou a tocar com toda a cautela possível para certificar-se de que a mulher estava ali ao lado, e que, portanto, ele havia mesmo acordado e se encontrava em sua cama, em decúbito dorsal, procurando situar-se.
Nenhum resquício de sonho. Tampouco se lembrava de ter sido catapultado para fora do sono por algum pesadelo, como dalgumas vezes. Não. Acordara tranquilo, sem aquele estresse de alívio por ter escapado de alguma tragédia, salvo pelo anjo do despertar, que, quando assim, tem sido infalível.
Em ocasiões dessas, mantém-se ali, na cama. Não se levanta para ir fazer alguma outra coisa qualquer que possa devolver lhe o sono, ou então começar o dia mais cedo. Não arreda pé. Põe-se geralmente a imaginar algo que lhe diga respeito: afazeres, obrigações a cumprir, ou a pensar formas de procedimento ou ações a serem executadas perante um compromisso a cumprir. Ocorrem-lhe formas de melhor se conduzir em determinadas aulas, modo de se conduzir ou se portar numa outra atividade programada que está por vir. Ocorre também fixar-se numa ideia qualquer, textual, certas frases, versos que surgem. Põe-se em decúbito lateral à esquerda. A persistir, põe-se à direita. E assim, acaba reavendo o sono. Ao despertar-se em definitivo, aquilo tudo fica no passado, rarissimamente sai da cama com ele.
Nesse dia, quer dizer, nessa alta noite que de novo tal se dera, ele, pregado no nada do pretume do quarto, em vez do silêncio de hábito, percebeu um nítido ruído ritmado. Um pouco mais de acuidade depois, entendeu que se tratava de um grilo. Um grilo tecia a pretidão da noite dentro do seu quarto.
Achou o maior barato. Um grilo grilando em bom tom em algum lugar do quarto. Os olhos fechados, a entusiasta grilação, o pensamento à toa trazendo passados de grilo em noites tantas…. Do alpendre da fazenda administrada pelo avô, na rede, diante da escuridão entretecida de estrelas, e a lua fazendo a diferença, o vozerio dos grilos desobedecendo o silêncio que a noite impõe. As noites de seus quintais povoadas de grilos guizalhando sem parar. Sim, sempre morara em casas com grandes quintais, como não deixava de ser a de agora. E foram os grilos deste quintal que lhe motivaram o poema infantojuvenil "Sob a batuta do bicho grilo", que também serviu de título ao livro de que ele faz parte. E ainda foram vindo as muitas palavras com seus diferentes significados. A começar pela expressão "bicho grilo" atribuída a determinados tipos de pessoas, principalmente jovens, nas décadas de 60 e 70. "Grilar", "ficar grilado", significando preocupado, encucado. "Grileiro/grilagem", pessoas que ocupam terras alheias, geralmente do Estado, e se declaram delas proprietários. Quantos latifúndios de hoje foram grilados!
Durante o café da manhã, decidiu relatar o fato à mulher, embora receando que ela se poria a vasculhar o quarto em busca do intruso.
Surpreendentemente, ela lhe revelou que já o ouvia há algum tempo. Que mesmo já o vira mais de uma vez. Era graúdo. Não conseguira encontrá-lo, que se enfiara por uma fresta do guarda-roupa. Precisava combinar com a faxineira uma faxina mais detalhada para desvelá-lo. Que outros grilos moravam em outros lugares da casa. Que ele prestasse mais a atenção.
Assim o fez. E acabara vendo-os. Vira o do quarto. Grandinho mesmo. E arisco. Grande, porém, era o da lavanderia. Um grilão. Vozeirão.
Surpreendeu, um dia, a faxineira com a vassoura tentando acertá-lo. Ela assustou-se com ele a gritar. Desculpou-se, pediu que evitasse matá-los, eles não causavam nenhum mal. A mulher também correra a ver a razão do grito. As duas se entreolharam, olharam-no, e deixaram pra lá.
Principalmente à noite, a casa continua sob a batuta de seus bichos grilos, essencialmente no seu quarto. Por vezes, ouve-os, quando se deita para dormir. Um acalanto com que, vez em quando, é agraciado. E já se viram por ali um ou outro grilinho.
Tito Damazo é doutor em Letras e escritor, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e da AAL (Academia Araçatubense de Letras)
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