Natalino é um pequeno comerciante de sua cidade, no interior do Brasil.
É dele a frase título deste artigo.
Gosta de dizer: Olha! Não sou nenhum beato, que fica o dia todo na igreja, nem forço a barra para ter amizade com religiosos para que venham à minha casa aos sábados ou domingo para almoçar com minha família. Apenas tenho como princípio que fé é um dogma muito seu, pessoal, você tem ou não.
A minha pode ser do tamanho de uma mostarda, mas eu coloco três pessoas sobre todas as demais do mundo, e acima de todas as riquezas materiais do universo: Deus, a Virgem Maria e seu querido filho Jesus. Explica assim, sua crença.
Pensa num cara avesso ao convencional? Esconjura com o Papai Noel, cuja roupa vermelha diz ele, deve ser usada no Alasca e não num calor de 40 graus do Brasil, e com os ornamentos em praças públicas dedicados ao "velhinho". Para ele, essa ênfase que se dá ao "da barba", não passa da obra de pessoas sem nenhuma criatividade e, o pior, tal prática gera muitas frustrações nas crianças em situação de vulnerabilidade social, principalmente no Brasil.
Por que o mês de dezembro é tão festivo? Pergunta amiúde, e completa: Não é pelo motivo do nascimento de Jesus Cristo no dia 25, que veio ao mundo em forma de Deus humano para redimir o homem? Por que essa m…. de importação de modelos que nada tem a ver com nossas tradições?
Na instituição comercial onde se filiou é chamado de "boco moco", "mocorongo", o "chato de galocha", pois sempre vem com a mesma história: Olha aqui, vou falar pela última vez, se vão discutir as promoções de Natal com essa lengalenga de Papai Noel tô fora. Mais uma vez vou "bater na mesma tecla", prestem atenção e vejam se concordam:
"Lá vem ele com a mesma cantilena de sempre", pensam os colegas dirigentes.
Se a Biblia é o documento mais importante do mundo (existem bilhões de pessoas que a levam a sério), 25 de dezembro foi o dia da vinda de Jesus, e temos o testemunho dos três reis magos, que foram guiados pela estrela.
Irrita-se mais à medida que tenta convencer os outros presentes.
Que porcaria é essa que algum "esperto" importou - esse tal de Papai Noel-, que rouba toda a atenção Daquele que foi o maior entre todos os homens, em todos os tempos?
Nossa, lá vem ele de novo com essa! Dispara um dos presentes a reunião, na altura suficiente parra que Natalino jamais ouça.
Se esse Papai Noel aí, "idolatrado" por vocês é tão bonzinho, a ponto de ser aquele que entrega presentes na noite de Natal, por que ele não deixa em todas as casas, principalmente nas favelas, palafitas, casebres, cortiços, e às crianças que moram nas ruas com seus pais e irmãos?
Além de injustiça, estamos gerando frustrações nas crianças pobres, que ficam na frente da televisão assistindo a shows de papais Noéis em shoppings luxuosíssimos, distribuindo pacotes e mais pacotes de presentes a crianças lindas, na maioria brancas e de olhos azuis!
Silêncio total na sala. Foi como se abrissem torneiras no teto e delas jorrassem água fria sobre os diretores. Nenhuma palavra, silêncio sepulcral.
Aproveitou, arrematou sua fala, saiu esbaforindo e batendo os pés:
Essa b…. de natal só de consumismo é a maior mentira que contamos aos nossos clientes, filhos e toda a sociedade, basta adentrar a comemoração de qualquer residência para ver a mesa farta, bebidas (principalmente alcoólicas), abraços e beijos, e sequer uma oração de agradecimento a Jesus por suas bênçãos!
Deixo aqui, pela última vez minha sugestão. Façamos um Natal diferente, cujo símbolo a ser exposto, adorado, abraçado e beijado por todas as crianças, seja um personagem vestindo-se como fazia São Nicolau, em trajes de bispo (nada a ver com esse noel que apareceu nos EUA e Canadá, no século XX), e que a Jesus Cristo, e só a Ele dediquemos todas as nossas campanhas de Marketing…
Ainda bem que o Natalino saiu antes, se não seria expulso e arremessado para fora.
Nalberto Vedovotto é jornalista e bacharel em direito
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