Especial

O sorriso triste do rei

Por Redação |
| Tempo de leitura: 2 min
Arquivo FR
Arquivo FR
O rei mal teve tempo de calçar as botas e já fora empurrado para seu compromisso. Não era a primeira vez que ele se vestia com todas as pompas para encarar a multidão. Mas ele não estava feliz. Quando se viu aos olhos de todos, seguiu o roteiro estabelecido em sua prática cotidiana. Os acenos, as palavras e os olhares seguiram automáticos. Depois que cessaram os aplausos, o rei ficou no centro das atenções, mas calado. Ele nunca tinha parado para olhar o rosto das pessoas na multidão. Reparou na senhora de vestido azul que olhava para ele com admiração. Percebeu a moça de mãos dadas com um rapaz com olhos de sonhador. Encarou uma jovem senhora de cabelos vermelhos e boca convidativa. De alguma forma ela se destacava entre as demais pessoas. Seus olhares se cruzaram. O rei sentiu um frio na barriga. Talvez fosse uma espécie de prenúncio deste encontro o motivo de ele se sentir diferente naquele dia. O transe fora interrompido quando fora obrigado a falar, novamente. Foi praticamente um monólogo. Falava sobre reinados, guerras e conquistas. Seus olhos percorriam cada um do rosto próximo. Ele tentava se segurar psicologicamente em algo para ter coragem de ficar ali, naquela situação em que era obrigado a sorrir sem motivos, com o coração partido. A plateia, por sua vez, mal prestava atenção no rei. Todos sabiam ou pressentiam que ele estava prestes a ser deposto ou morto. Uma grande conspiração estava sendo armada às sombras. A traição de sua esposa, amante de um duque, estava prestes a ser concretizada. O rei, melancólico, acenava inocente para o povo. A trama seguia e o rei continuava triste, sempre fitando os olhos da moça ruiva. Com displicência, recebeu um cálice da mão da esposa. Olhou para o líquido. Teve uma quase certeza de que ali havia um veneno. Pensou. Correu o risco. Ele não queria admitir a si mesmo, mas até torcia para que ali houvesse mesmo uma poção mortal. Quando acabou de beber o suposto vinho, sentiu no ar um silêncio cúmplice. Todos olhavam para ele. O rei olhou mais uma vez para a moça ruiva, deu um sorriso triste e fechou os olhos. Seu corpo inerte ficou abandonado no trono enquanto ele ainda ouvia tudo o que se passava em volta. De repente, dois homens fortes levaram o rei para fora dos olhos da multidão. Ele ainda ouvia as conversas e comemorações dos seus traidores. Martino, então, abriu os olhos, mas continuou deitado. O ator estava farto daquela peça. Todos os dias ele morre no meio do espetáculo. Permitiu-se ficar no chão e pensando nos olhos da moça ruiva. Queria que o veneno mortal viesse, pelo menos desta vez, daqueles lábios vermelhos. Quem sabe assim, pra variar, ele morresse da vida solitária e pudesse abrir os olhos em uma dimensão menos repetitiva. Jean Oliveira é jornalista, bacharel em Turismo e funcionário público municipal

Fale com o Folha da Região!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários